sexta-feira, 27 de junho de 2014

costa denunciou uma guerra aos professores

 


 


 


"(...)O ciclo do meu mandato foi muito longo. E a própria ideia de avaliação teve um percurso. Acho que a questão mais crítica no caso dos professores são as suas consequências. Mas toda a mudança que se fez no Estatuto da Carreira Docente (ECD) não posso dizer que a tenha feito contra os professores ou sem os professores, ou até sem a auscultação de outras forças políticas. Foi um processo muito mais negociado do que no final parecia ter sido, envolvendo até o PSD no desenho de algumas das soluções, nomeadamente na estruturação vertical da carreira, etc... mas depois a política também tem as suas conjunturas.(...)".


 


 


António Costa denunciou, numa entrevista recente, a injusta guerra aos professores promovida pelo Governo de Sócrates como o principal erro dessa governação. Mesmo que se considere que Costa está em campanha, é de salientar o ineditismo e a brutalidade da afirmação. Exige-se, porém, que se detalhe a guerra e que se enunciem soluções. É que ainda recentemente um estudo indicou que "nove em cada dez professores do 3º ciclo sentem que a profissão é desconsiderada pela sociedade" e a malta do mainstream que tem governado o MEC encontrou logo a solução carregada de cinismo e de sei lá mais o quê: formação em educação especial.


 


Retirei o parágrafo com que abri o post desta longa entrevista a Maria de Lurdes Rodrigues ao Público. A ex-ministra é apresentada como coordenadora científica do mestrado em políticas públicas do ISCTE e é socióloga (ao que me dizem, o seu último livro sobre a matéria publicado recentemente não tem uma frase sobre Educação). Quem ler o depoimento todo chega ao fim sem discordar com a maioria dos pressupostos que apresenta. Como é isso possível depois de tudo o que se passou no seu consulado?


 


A nova gestão das políticas públicas (NGPP) desenhada no início do milénio por sociólogos é um linguajar sedutor e bem-pensante que passa por engenharias sociais e financeiras que deslocam as pessoas em blocos com formatos numéricos inseridos em modelos verticais de carreiras associados à prestação de contas e a objectivos individuais impregnados de meritocracia (a frase foi escrita assim com intenção). Uma tragédia, como se comprova.


 


O linguajar desses sociólogos que se instalaram no MEC pouco depois de virar o milénio (já antes disso se notou a patologia), tem este denominador comum: um diagnóstico progressista e consensual que a referida engenharia não só inverte (há tragédias como a dos professores portugueses e basta ler o que se passou na France Telecom) como provoca nos destinatários da sua acção a recorrente impressão: podem estar horas a linguajar que tudo aquilo espremido não tem qualquer relação com as organizações a que se destina.


 


Notei a ocupação pela NGPP em 2002. Foi um momento de viragem. A partir daí, o discurso anti-escola e anti-professor (que foi inexistente nos políticos anteriores a 2002) ganhou asas. O mandato de Lurdes Rodrigues foi um expoente desse discurso de nivelamento por baixo (e reconhecem-se os transversais abusos na administração do estado)


 


A prestação de contas, os objectivos individuais, as carreiras verticais, a gestão tipo-empresarial (até João Rendeiro do BPP foi apresentado por um ex-ministro com uma mágoa: "só não contratava especialistas daqueles para as nossas escolas porque não tinha dinheiro para lhes pagar"; foi um valente e injusto murro no estômago de quem geria escolas), a sobreposição dos indicadores macro, o inferno da medição, a terraplenagem dos mandatos escolares e da cultura organizacional (a informatização, recheada de incompetência política, do concurso de professores mais mediatizado da história, 2004, descredibilizou durante meses essa cultura e deixou-a à mercê do que se seguiria) foi desenhada pelo bloco central cujos actores tentam passar pelos pingos da chuva.


 


Como diz a ex-ministra, apenas as conjunturas (estão no Governo ou na oposição) disfarçam um acordo tácito que causou, e causa, sérios prejuízos à escola pública.


 


Já Luhmann, N. (2001:14)"A improbabilidade da comunicação", Lisboa: Vega, Passagens, considerava que “(...) esta redefinição de termos e relações implica uma viragem radical relativamente ao pensamento político europeu dominante e tem, como última consequência, o abandono definitivo do modelo organicista – de uma relação parte-todo, em que a posição central estava sempre reservada ao indivíduo. (...). Na opinião de Luhmann (op. cit.), o homem perde a posição de centralidade no organismo social e é remetido para o exterior, passando a fazer parte do meio ambiente do sistema. Torna-se uma causa para o aparecimento de problemas constantes e de complexidades crescentes.


 


O que acabou de ler tem em Nuno Crato um fiel seguidor; mesmo que relativamente inconsciente e não informado. Ainda hoje encontrou uma solução que arrepia se pensarmos nas consequências, para as pessoas e para o país, do fecho de quatro a seis milhares de escolas: "Nuno Crato garante verbas para transporte dos alunos cujas escolas vão fechar". A hipocrisia de quem governa desde a estratosfera não tem, realmente, limites. Era o que mais faltava que Crato não dissesse o que disse.


 


Evidencia-se a linha de continuidade na guerra aos professores que foi também uma guerra à escola pública, aos seus alunos e aos respectivos encarregados de Educação.


 


 


Já usei parte deste texto noutro post.


 


 


 


 

15 comentários:

  1. Excelente análise, parabéns. Que seja "eterno"...

    ResponderEliminar
  2. MAs toda a tralha que surge atrás do Costa, meus deuses...

    ResponderEliminar
  3. Muito bom!

    Escrevi noutro site o seguinte: "Isto é que é uma "treta" deste ministro e deste Governo ! Não gastam dinheiro em professores,que acabam por manda-lo para escolas superlotadas ,mas gastam o dinheiro em transportes e poem a vida das crainças em risco todos dias,por estradas péssimas,a apanharem frio etc. Que politica esta : só concentração,fecham tudo no intrior do Pais pra concentrarem em meia duzia de cidades e vilas ! irrah.........................."

    Para poupar em professores vale mesmo tudo.

    ResponderEliminar
  4. Considero pouco razoável que os alunos das nossas pequenas povoações tenham de percorrer muitos km para irem à escola, principlamente porque dizem que não há dinheiro para manter a escola aberta (1000 euros para o professor, + 450 do funcionário) é algo que o ME parece não poder pagar. Entretanto, financia a propina mensal de alunos de pais ricos que fequentam colégios privados nas cidades esbanjadoras. Não há dinheiro para as escolas, mas há para o transporte dos alunos? Haja decência.

    ResponderEliminar
  5. Obrigado. Quem me dera; desde que bem acompanhado, claro.

    ResponderEliminar
  6. É mesmo Paulo. É cada um... nem os deuses...

    ResponderEliminar
  7. Atrás e, alguns, nas costas...

    ResponderEliminar
  8. não fosse a mulher professora e se calhar o discurso seria outro...

    ResponderEliminar
  9. Não fosse dito por ti até comentava doutra forma. Mas Isabel: há lóbis que acham que um homem não tem pensamento próprio; tudo o que faz e diz é condicionado por um ser feminino que o conduz :)

    ResponderEliminar
  10. Eu sabia! Eu sabia que ias responder isso, ou parecido, Paulo.

    ResponderEliminar