sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

"a vida real pessoal e pedagógica não é uma declaração jornalística..."

 


 


 


Contributo de Mário Silva.


 




"A vida real pessoal e pedagógica não é uma declaração jornalística...

 

Uma professora ficou sem voz e este facto permitiu refletir sobre 3 condições: 

1- uma ferramenta profissional essencial; 

2- a manutenção de uma crueldade social; 

3- a falácia da flexibilidade curricular.

 




1- Um docente sem voz não pode ensinar. Pode não ter membros, estar paraplégico ou até tetraplégico, que tendo voz, pode ensinar. O som é  uma ferramenta essencial no ensino.

2- O docente não tem voz mas mantém-se funcional em todos os outros aspetos; contudo, como não tem a ferramenta essencial, tem de declarar incapacidade temporária, para recuperar algo que demora aproximadamente 5 dias a ficar normal. No modelo social atual, implicaria apresentar atestado médico, sendo descontado integralmente 3 dias de salário e uma percentagem nos restantes, agravando o já degradado rendimento mensal. 




3- Para não perder um rendimento não desprezável, foi pedida uma coadjuvação voluntária. Na aula de uma turma do secundário, a coadjuvante servia de porta-voz, orientando a aprendizagem de acordo com o modelo de flexibilidade curricular que se quer generalizar. Neste modelo, o conceito de aprendizagem significativa é o cerne do processo; mas implica uma disponibilidade tanto dos alunos como de tempo letivo. O plano de aula desenvolveu-se de modo a que começou a mobilizar aprendizagens de outras áreas do conhecimento; apesar da produtividade, em determinado momento a colega sussurrou ao ouvido da coadjuvante: ”Já estou atrasada no programa relativamente ao outro colega que tem outra turma. Temos de abreviar”. E nesse momento, constata-se a falácia da flexibilidade curricular quando se tem a grilheta do programa obrigatório do exame nacional para cumprir, algo essencial ao destino dos alunos mas irrelevante para a aprendizagem significativa...

Essa falácia torna-se mais evidente quando os futuros alunos universitários constatarem que nesse modelo de ensino impera o expositivismo 'puro e duro', tendo de se desenrascarem sozinhos, sem terem acesso a serviços de apoio educativo, ocorrendo inevitavelmente um choque intelectual negativo."

 

E assim, as declarações dos pretensos modificadores de métodos de trabalho pedagógico em conferências de imprensa, artigos de opinião ou vídeos de divulgação, revelam-se desfasadas do que acontece no quotidiano real...

 

Mário Silva


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