"As nações das turmas numerosas não podem continuar a falhar" (pelo Público em 25 de Janeiro de 2021; é também uma síntese de textos anteriores; como acordado, publiquei-o no blogue e acrescentei-o aqui)
Título: As naçoes das turmas numerosas não podem continuar a falhar.Lide: Enquanto a cadeia de contactos acelerava, o discurso recorria à historicamente insensata pedagogia da criança-rei: “A geração que está na escola não pode perder novamente semanas de aulas.Texto:Antes de mais, deseja-se que a ciência nos retire deste pesadelo. Enquanto não se dissipa a tempestade, as nações das turmas numerosas encerram escolas e olham o futuro com apreensão. E um regresso à história dos últimos três milénios (D. Acemoglu e J. Robinson) centra o debate no essencial. Apesar das teses que inscrevem as riquezas naturais, a geografia, a religião ou o clima, as nações falham pela incapacidade em transformar - consistentemente durante décadas - políticas, instituições e empresas extractivas (que aglomeram a riqueza em “elites” e oligarquias) em inclusivas (que distribuem a riqueza e reduzem as desigualdades), com reflexos na economia, na cultura, nas empresas e na escolarização.E as turmas, e as escolas, numerosas são um indicador extractivo nuclear das desigualdades com e sem pandemia. A sua eliminação gera sucesso escolar com qualidade e aumenta o número de membros de uma componente decisiva das democracias: a classe média. Essa supressão, que arrasta soluções para outras áreas críticas do universo escolar, é uma exigência desta conjuntura, mas pode projectar-nos estruturalmente nos médio e longo prazos. Nesta fase, a frequência das turmas numerosas, e a sua envolvência interna (salas de aula, corredores, refeitórios e recreios) e externa (acessos, espaços de lazer e habitações), cria plataformas giratórias da disseminação do vírus na sociedade.E quanto mais tarde se fecham as turmas numerosas numa pandemia descontrolada, pior. O seu encerramento foi fundamental na 1ª vaga e permitiu evidências científicas: em 17 de Junho já se percebia que "uma turma de 20 contacta 800 pessoas em 48 horas" - quanto mais de 30 - e em 9 de Dezembro "concluía-se que a reabertura das escolas foi uma das decisões mais relevantes para a 2ª vaga pandémica na Europa e na América do Norte".Para além disso, desde Setembro que se observava que as escolas (por muito que se esforçassem professores, outros profissionais de educação e alunos) não cumpriam os 3 c's (distância física, espaços fechados e aglomeração de pessoas) e que não eram avisadas as epifanias da "escola é segura" e do "está tudo a correr bem". E num momento imperativo para palavras-chave como incerteza e humildade, havia uma "confraria pela verdade" que integrava comentadores, deputados, dirigentes escolares e dirigentes de pais, que o advogava acrescentando outro aparecimento: "os números de infectados sobem quando as escolas encerram".A menos que se tivesse algum contacto divino para solicitar a falta de comparência do vírus nas escolas, - "já Laplace dissera a Napoleão: na ciência Deus é uma hipótese desnecessária" -, os dados da perda de controlo da pandemia em Portugal eram taxativos: não se conheciam, em Dezembro, 87% dos locais de contágio e os universos sanitário e escolar tiveram, em Novembro, a indicação de que a "covid-19 acelerou entre a população mais jovem, que foi no grupo dos 10 aos 19 que o contágio mais cresceu com a agravante de ser nas crianças e nos jovens que se concentra o maior número de falsos negativos e assintomáticos".Enquanto a cadeia de contactos acelerava, o discurso recorria à historicamente insensata pedagogia da criança-rei: "a geração que está na escola não pode perder novamente semanas de aulas". Ou seja, é uma geração que não se deve sacrificar para salvar a vida dos avós ou bisavós. Numa altura em que tanto se teme o crescimento do autoritarismo, recupere-se Hannah Arendt ("Entre o passado e o futuro, oito exercícios sobre o pensamento político"), por muitos considerada a filósofa que melhor desconstruiu o nazismo, e perceba-se os perigos para a democracia com a educação de gerações de invencíveis, e ressentidos, egoístas (o grupo etário até aos 10 anos frequentou sem máscara salas de aula com turmas numerosas).Acima de tudo, as aulas são presenciais; embora se saiba que, em regra, não há aprendizagens completas, longe disso, tanto atrás de um ecrã como de uma máscara; e muito menos nesta actualidade. Só a aflição, e o desconhecimento, equacionou a opção entre ensino à distância e aulas presenciais. Nunca se tratou disso. Aliás, optar neste momento pela internet como recurso ocupacional e formativo é mais sustentado do que na 1ª vaga.Só que o marketing político gerou desconfiança e zangou as pessoas. Como nos recordamos, e pouco depois do início do ensino à distância, ouviram-se elogios à escola digital do século XXI (até a flexibilidade curricular, e perante a perplexidade de quem lecciona, foi usada em pleno parlamento como atributo do sucesso). Agora, que interessava a escola aberta, já tinha sido, afinal, um falhanço. O que nos falta fazer nesse domínio é muito exigente e teme-se que ainda não exista massa crítica: para além da redução de alunos por turma ou organização, a escola caminhará, com salas de aula, para uma abrangente sala de estudo (ou biblioteca: A. Nóvoa) em ambiente de conectivismo (tese de George Siemens que seria preciosa na pandemia).Por fim, a escola a tempo inteiro sublinhou a ausência da sociedade na educação. Para além de se terem eliminado 8967 escolas desde o ano 2000 - quase o dobro das que existem e desertificando o interior do território -, até as refeições das crianças, que a escola assegurou na 1ª vaga e voltará a fazer agora, são um argumento com peso político. É chocante. Inscreve a falência da sociedade, uma vez que há fins-de-semana, interrupções lectivas e férias.É importante que se recorde que a escola é apenas um subsistema, mas com uma insustentável centralidade entre nós porque a sociedade não se responsabiliza pela educação. Mas, e desde logo neste momento de crise, deve ser convocada para cinco soluções simples, a pensar nos 3 c's dentro e fora da escola, e na redução dos contactos entre 50% e 75%: horários desfasados, turmas por turnos (semana sim, semana não), desconcentração de intervalos, pequenas interrupções a cada quatro ou cinco semanas de aulas e redução temporária da carga curricular para simplificar a execução das quatro primeiras. Ou seja, as nações das turmas numerosas não podem continuar a falhar.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
"As nações das turmas numerosas não podem continuar a falhar"
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Muito bom este texto, parabéns pela assertividade e partilha.
ResponderEliminarFace ao fenómeno em apreço, o texto denuncia uma direção. Para isso é absolutamente necessário o domínio da técnica de cálculo do azimute, porquanto ângulo formado pela direção Norte e pela direção referenciada, contado no sentido do deslocamento dos ponteiros do relógio. Muito poucos são os políticos hoje que dominam esta técnica. Como são eles os responsáveis pelo leme só nos resta navegar à vista.
Rui Ferreira
em súmula, é uma tragédia com consequências sociais imprevisíveis...
ResponderEliminarMuito bom. Parabéns.
ResponderEliminarMuito obrigado, Rui.
ResponderEliminarÉ muito triste.
ResponderEliminarMuito obrigado.
ResponderEliminarOs meus sinceros Parabéns amigo Paulo Trilho Prudêncio
ResponderEliminarObrigado.
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