terça-feira, 7 de abril de 2026

A má sorte do povo iraniano e "o amor nem sempre vence o poder, mas é o único caminho para a sabedoria"




Começo esta pequena celebração do povo iraniano com duas frases do genial cinema do iraniano Abbas Kiarostami: "o amor nem sempre vence o poder, mas é o único caminho para a sabedoria"; "a mais elevada forma de arte é a arte de viver".
De facto, a má sorte do povo iraniano vem de meados do século XX. O Xá Mohammad Reza Pahlavi caiu no Irão em Janeiro de 1979 (fugiu a 16 desse mês), após manifestações impressionantes e uma revolução popular, mas instalou-se uma feroz teocracia. Nesta fase, o Irão está em guerra com dois países, Israel e EUA, dirigidos pelos piores governantes das suas histórias, que são acusados de crimes de guerra que deverão ser julgados por um Tribunal Penal Internacional.
Mas voltando à minha pequena homenagem, que é também, e por "culpa" de Abbas Kiarostami, um tributo às mulheres (a imagem do post é do seu filme Shirin) tal a proliferação da misoginia.
Comecei a ver cinema iraniano por volta de 1993 ou 1994, mais propriamente o genial realizador Abbas Kiarostami. A sua linguagem cinematográfica era um desafio permanente. A validade do argumento, a capacidade de contar a história e a excelência das imagens - apesar dos parcos meios ao seu dispor, considerando a exorbitância de meios que acompanhavam grande parte das produções ocidentais nos finais do século XX -, foram os ingredientes que mais pesaram.
Em 2008, escrevi assim: "já dei nota do meu fascínio pelo cinema iraniano, nomeadamente pela obra de Abbas Kiarostami. Sei que o cinema não retrata com rigor a atmosfera que se vive num país, mas conheci alguns aspectos da vida no Irão. O país vive um momento de muita tensão política e social, e é raro o dia em que não me interrogo de qual será a condição de Kiarostami como homem e como artista".
Em 2010, escrevi: "o amor nem sempre vence o poder, mas é o único caminho para a sabedoria. É mais ou menos assim que Abbas Kiarostami aborda mais uma obra-prima. A fábula da princesa Shirin foi o mote para Kiarostami falar de mulheres - homenageá-las - e também de homens. O registo respeita a genialidade do realizador: radical com uma atmosfera terna e doce. O espectador apenas ouve a banda sonora do filme e vê as expressões de 114 mulheres - a história é contada assim. Uma a uma e, na maioria das vezes, com companhias masculinas nada inocentes. Termina com um "a mais elevada forma de arte é a arte de viver". Juliete Binoche é uma das 114."
Em 2016, escrevi com tristeza: "morreu o cineasta iraniano Abbas Kiarostami. É difícil escolher, mas é o meu cineasta preferido. "O sabor da cereja" (1997) foi o ponto mais alto e o "Através das oliveiras" (1994 - este vídeo terá sido removido pelo regime iraniano?) a confirmação. Vi mais de uma dezena de filmes, alguns já são clássicos, sempre rendido à tela inundada de poesia e ritmo e com parcos recursos. Paz à sua alma."

Nota: um dos assistentes, e julgo que também actor, que mais trabalhava com Kiarostami é hoje um realizador muito conhecido e prestigiado. Em 2025, escrevi: "Jafar Panahi disse: “Não houve parabéns, nunca”, em Teerão. Durante 15 anos foi impedido de sair do Irão, mas continuou a fazer ilegalmente o seu cinema. Panahi percorre agora o mundo. É o realizador de “Ursos não há” e de "Um taxi transgressor". É um cinema na linha do inesquecível Abbas Kiarostami.

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