segunda-feira, 15 de junho de 2026

Viciados em propaganda


Se foi grave a manipulação mediática dos dados das faltas dos professores e dos seus concursos, e se isso muito contribuiu para a sua falta estrutural, continuar a ser grave que se manipule os dados dos concursos e não se divulgue o número de alunos que estiveram sem professor.

A bem dizer, o marketing partidário serviu, durante as décadas de 2000, 2010 e no que levamos da de 2020, a agenda da proletarização dos professores. Os professores a mais e as faltas dos professores foram duas das variáveis da propaganda.

Os concursos de professores têm sido uma fonte de precarização única na Europa no que levamos de milénio e o Estado português foi alvo de várias ameaças de envio para o Tribunal Europeu por parte da Comissão Europeia. Houve professores portugueses que estiveram duas décadas ou mais sem entrar no quadro e com colocações sucessivas.

Na semana passada, leram-se títulos do género: "Mais de 5 400 professores colocados nas zonas com maior carência de docentes." Também se leu que mais de 19 mil professores foram colocados nos concursos interno e externo. Afinal, dos mais de 19 mil colocados, apenas 213 é que foram admitidos pela primeira vez. Os restantes mudaram de escola ou de quadro de zona pedagógica. (19 172 professores colocados no conjunto dos concursos. 14 396 no concurso interno, porque mudaram de escola, de quadro ou de grupo. Dos 4 776 no concurso externo, só 213 é que tinham zero dias de serviço).

Mas isto foi sempre assim. Um professor do quadro pode concorrer para mudar de escola e não conseguir. E até pode concorrer a dois, três ou quatro grupos de recrutamento. Podem ser, e sempre foram, milhares. Ficam na lista dos não colocados. A propaganda é que falava logo em milhares de não colocados contabilizando esses professores. Dava jeito para a retórica dos professores a mais. De facto, os governos viciaram-se em propaganda.


Sobre as faltas dos professores, escrevi assim para o Público em Fevereiro de 2024 e dá ideia que o repetirei:

"Ainda recentemente, a comunicação social titulou insistentemente, com o apoio da máquina de spinning governativo, que os "professores faltam dois milhões de dias por ano." Lendo o estudo, o título deveria ser assim: apesar de tudo, 90% dos professores raramente falta e 10% tem doenças prolongadas devidamente justificadas e muito escrutinadas (até, pasme-se, as gravidezes de risco)."

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