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domingo, 17 de abril de 2022

Lendas

À medida que o nazismo ocupava os países europeus, era decretada a obrigação dos judeus se identificarem, de braçadeira amarela com a estrela de David, nos territórios "conquistados". Conta a lenda que, na Dinamarca, a população se solidarizou e usou a judia identificação, incluindo o monarca Cristiano X. O gesto originou a salvação de cerca de 98% dos judeus que fugiram e encontraram abrigo na Suécia.


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terça-feira, 5 de abril de 2022

Aumentou a indisciplina nas salas de aula?

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Aumentou a indisciplina nas salas de aula?


Pelo Público em 5 Abril de 2022. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título: Aumentou a indisciplina nas salas de aula?


Texto:


A mediatização volta a salientar o aumento da indisciplina nas salas de aula. E se em rigor não se pode afirmar tal subida num universo inquantificável, também não se deve ignorar um assunto crucial para as aprendizagens, e para o ensino, numa fase em que à crescente falta de professores se responde com mais precariedade.


Desde logo, sublinhe-se questões prévias: esta discussão é recorrente e, com frequência, confunde-se correntes da pedagogia com ideologias políticas; desde que há escolas que existem problemas disciplinares mais ou menos tolerados e há intemporalidades na sua percepção, nomeadamente as relacionadas com os conflitos de gerações e com a rebeldia na aprendizagem.


Contudo, há variáveis escolares concludentes: turmas numerosas ou constituídas maioritariamente por alunos "que não querem aprender" - o desafio das democracias será sempre reduzir este grupo -. A indisciplina sobe exponencialmente se se junta essas variáveis e agrava-se se não se aplica uma regra elementar: a tolerância só é verdadeiramente educativa se estabelecer os limites do intolerável.


No nosso caso, a discussão contamina-se pela desconfiança nos professores e pela ocupação do espaço de debate, e das políticas, por um antigo discurso centrado em categorias empáticas de negação de conflitos e contradições que rejeita um triângulo intemporal: os conhecimentos como ultrapassagem da relação contraditória entre professores e alunos, mesmo a que não se circunscreve às salas de aula e integra um conceito de escola como grande sala de estudo ou biblioteca a partir das turmas e das disciplinas e para lá dos seus limites físicos.


São raros os estudos empíricos. No entanto, a "OCDE concluiu (2017), sem referir as causas, que, por cá, reina a pequena indisciplina nas salas de aula o que nos coloca, por exemplo, no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula". A OCDE não apurou as causas, mas parece que a adicção tecnológica, e a privação do telemóvel, será uma explicação.


Além disso, estudos mais recentes da OCDE (2021) destacam-nos em primeiro lugar em domínios que influenciam a liderança dos professores: falta de reconhecimento e confiança, stress profissional, muita burocracia, exaustão e escolha de outra profissão se voltassem atrás. Ou seja, a indisciplina é um assunto entre professores e alunos que também tem, obviamente, origens concludentes na sociedade.


Acima de tudo, ensinar é complexo, exige muita preparação e uma elevada energia. Requer o uso de diversos estilos de ensino, com as capacidades volitivas em inscrição optimista, para corresponder às constantes solicitações dos alunos, sabendo-se que é mais correcto falar de ignorância do que de conhecimento sobre o modo como cada um aprende.


E neste mundo exigente e complexo, os professores necessitam de uma retaguarda forte e de boas condições de realização; e a carreira, a avaliação e o clima das escolas degradaram-se objectivamente. Aliás, se os professores assistem, há década e meia, à devassa mediática do seu exercício, é consequente a fuga à profissão. Até a avaliação se tornou pública. Ignorou-se que é impossível fazê-lo em escalas métricas. Há muito que se experimenta, mas se não existem casos de sucesso é porque ensinar é uma simbiose das emoções com a cognição; e não existem duas turmas iguais. As tentativas (Fundação Gates e "Obama Race to the Top", por exemplo) que remuneraram eficazes e despediram ineficazes com base nos resultados dos alunos, obtiveram graves resultados: falta de professores e prejuízo dos alunos. 


Como consequência, os professores estão no lugar cimeiro dos travões (cotas e vagas) à progressão na AP e reconhece-se as brutais injustiças da avaliação que existe. É uma farsa burocrática que se impõe pela arbitrariedade e que abre portas à parcialidade. É um recuo de décadas na consolidação democrática. 


E se vem sempre a propósito nomear a democracia e a liberdade - a liberdade de ensinar e aprender é um valor precioso e inalienável -, a simbologia reforça-se no mês de Abril. E de imediato interroga-se: se governantes e demais decisores da hierarquia avaliativa reconhecem esta tragédia, por que será que não há liberdade para se pôr fim ao flagelo?


A leitura de Byung-Chul Han (12:2014), em "Psicopolítica", ajuda a explicar esta crise profunda da liberdade que parece atingir todos e beneficia os populismos autoritários: "a liberdade, que deveria ser o contrário da coação, engendra coações. Patologias como a depressão e a síndrome de burnout são a expressão de uma crise profunda da liberdade. São um indício mórbido de que hoje, através de diferentes vias, a liberdade se transforma em coação. O sujeito do rendimento, que se pretende livre, é na realidade um escravo. É um escravo absoluto. O sujeito do rendimento absolutiza a vida sem mais e trabalha." 


E se Abril é o mês do sonho, da não desistência e da objecção de consciência simbolizada pelos cravos, recomenda-se o fabuloso conto "Bartleby" que Herman Melville publicou em Novembro de 1853. O escrivão Bartleby proclamou a célebre "preferia não o fazer" ("I would prefer not do" no original), numa manifestação que elevou o confronto à infâmia das inutilidades burocráticas. Bartleby manteve-se no seu posto, mas negou qualquer registo. Se a sua lição fosse apreendida, as lideranças das salas de aula voltariam a ter mais condições democráticas para transformar, em regra, a indisciplina numa educativa dissidência com responsabilidade.


 


 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

das lendas

 


 


 


À medida que o nazismo ocupava os países europeus, era decretada a obrigação dos judeus se identificarem, de braçadeira amarela com a estrela de David, nos territórios "conquistados". Conta a lenda que, na Dinamarca, a população se solidarizou e usou a judia identificação, incluindo o monarca Cristiano X. O gesto originou a salvação de cerca de 98% dos judeus que fugiram e encontraram abrigo na Suécia.


 


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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

do fenómeno santo onofre

 



Foi daqui.


 


Os professores não se podem queixar muito da duração desta luta a partir do momento em que 80.000 entregaram uns mistificadores objectivos individuais uma semana depois de 120.000 se terem manisfestado com a mais comovente das veemências. É assim a natureza humana. Mas os 40.000 que resistiram, e que em alguns casos sofreram dissabores, viram uma quase unanimidade dar-lhes razão e conseguem que os justos benefícios se apliquem a todos. Vai ser decretado o fim do monstro burocrático da avaliação.


 


Recordo-me do concurso para professor titular, onde uma minoria tentou a "desobediência civil" da não participação num processo com critérios injustos, e em que apenas uma ou duas dezenas se decidiu pela não candidatura. Pois foi: uma ou duas dezenas, estou seguro disso. E quase ninguém acreditava, mas o mais difícil dos objectivos está derrubado. E não me venham com a excrescência de quem lutou mais ou de quem batalhou menos: se foram os titulares ou os sem título: vimos, e como habitualmente, de tudo e em ambas as categorias, embora o reposição da equidade contemple todos.


 


O processo da gestão escolar tem, naturalmente, contornos semelhantes. Foram poucas, muito poucas mesmo, as escolas ou agrupamentos que ficaram para o fim. Restou-lhes o isolamento. Algumas até se tornaram em "bastiões" da resistência, como foi o caso de Santo Onofre. Mas, e neste caso que conheço bem, quase nada foi concertado. O fenómeno Santo Onofre obrigaria a um extenso relambório que não cabe neste formato. O que se registou, nos últimos meses, foi uma fragmentação das posições. O agrupamento tem onze escolas e mesmo na escola sede não pensam todos do mesmo modo. O processo neste agrupamento teve ontem mais uma etapa com o método concursal/eleitoral para a escolha do director. Não se conhece ainda a visão estratégica e prospectiva do projecto vencedor nem tão pouco a composição do órgão de direcção e existe ainda o decurso de uma luta jurídica iniciada pelo Conselho Executivo destituído em Abril de 2009. Temos de aguardar.


 


Mas a gestão escolar tem também desenvolvimentos em sede de negociação entre o governo e os sindicatos. Espera-se, a exemplo das outras matérias, que se encontrem soluções para que o poder democrático da escola pública não continue, também comprovadamente, pelas ruas da amargura. E já se sabe: o que quer que se venha a decidir, será para benefício de todas as escolas.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

judeus na dinamarca - histórias de resistência e de desobediência

 


 



(encontrei esta imagem aqui)


 


 


 


Conheço algumas histórias sobre os movimentos de resistência ou de desobediência civil mas há uma que me emociona em particular. Passou-se no período da segunda guerra mundial, partiu de uma ideia muito simples e obteve um resultado espantoso.


 


Conta-se em poucas palavras: à medida que o nazismo ocupava os países europeus, era decretada a obrigação dos judeus se identificarem, com a célebre braçadeira amarela com a estrela de David inscrita, em cada um dos territórios "conquistados".


 


Na Dinamarca o resultado foi inédito. No dia escolhido pelo regime alemão para que a ideia decretada entrasse em funcionamento, toda a população dinamarquesa se solidarizou e passou a usar também a judia identificação, incluindo o monarca Rei Cristiano X. Este gesto originou a salvação de cerca de 98% dos judeus que, assim, puderam fugir e encontrar abrigo mais seguro na vizinha Suécia.


 


Nota: dizem-me que a questão relacionada com o monarca pode ser apenas uma lenda. Não consegui confirmar o contrário.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

contra a avaliação de docentes enquanto mistificação

 


 


 



(encontrei esta imagem aqui)


 


 


Pode ler na edição impressa do jornal Público de hoje, aqui, um texto contra a avaliação de docentes enquanto mistificação subscrito por vários autores.


 


Para simplificar a vida aos leitores, colo de seguida o texto em que também sou subscritor.


 


 



"Esta é a declaração de uma intenção tomada em consciência e coerência com as atitudes e posições por nós assumidas num passado recente. Não é um apelo a um qualquer movimento de desobediência civil, nem o seu contrário, assim como também não é uma recusa em nos submetermos à avaliação da qualidade do nosso desempenho enquanto docentes.


É apenas a manifestação pública da impossibilidade, de acordo com princípios de coerência e responsabilidade de que nos orgulhamos, de aceitarmos seguir as directrizes de um modelo de avaliação do nosso desempenho que de forma alguma cumpre os objectivos afirmados pela tutela, em particular no regime simplificado em vigor, de constitucionalidade duvidosa e escassa qualidade técnica.


Em conformidade com posições adoptadas por todos nós em momentos anteriores, os subscritores desta declaração afirmam a sua indisponibilidade para entregar a ficha de auto-avaliação nos moldes predeterminados pelo Ministério da Educação.


Esta posição implica rejeitar a transformação do biénio 2007-09 numa pseudo-avaliação com base em objectivos definidos entre três a cinco meses do final das actividades lectivas deste período. Esta atitude significa a recusa frontal em participar de forma activa numa mistificação pública cujo objectivo é fazer passar por verdadeira uma avaliação falseada do mérito profissional dos docentes, mistificação esta que sabemos ter objectivos meramente eleitoralistas mas que terá consequências profundamente negativas para a qualidade da educação em Portugal.


Estamos conscientes das potenciais consequências da nossa tomada de posição, nomeadamente quanto à ameaça da não progressão na carreira por um período de dois anos lectivos, assim como de um eventual procedimento disciplinar que todos contestaremos em seu devido tempo.Esta é uma atitude cujas implicações apenas recaem sobre nós, estando todos preparados para continuar a lutar pela demonstração da ilegalidade do regime da chamada avaliação simplex.


Estamos ainda conscientes de algumas críticas que nos serão dirigidas de diversos quadrantes. Todas elas serão bem-vindas, venham de onde vierem, desde que se baseiem em argumentos e não em meras qualificações destituídas de conteúdo.


Aos que nos queiram apontar que não compete a cada cidadão definir a forma de cumprimento das leis que se lhe aplicam, poderíamos evocar o artigo 21º da Constituição da República Portuguesa, mas bastará sublinhar o que acima ficou explicitado sobre a forma como encaramos as consequências dos nossos actos. A todos os que considerarem que esta é uma radicalização excessiva do nosso conflito com o Ministério da Educação reafirmamos que o fazemos em consciência e coerência com os nossos princípios éticos, sem calculismos ou outros oportunismos de circunstância.


Por último, salientamos que esta declaração não é um apelo a qualquer tomada de posição semelhante por ninguém, mas tão-só a afirmação da nossa. Não podemos, porém, deixar de constatar que a força de qualquer atitude é tão mais poderosa quanto consciente e esclarecida a convicção de quem a toma.


Ana Mendes da Silva (Esc. Sec. da Amadora), Armanda Sousa, (Esc. Sec./3 de Felgueiras)Fátima Freitas (Esc. Sec. António Sérgio, Porto), Helena Bastos (EB 2/3 Pintor Almada Negreiros, Lisboa), Maria José Simas (Esc. Sec. D. João II, Setúbal), Mário Machaqueiro(Esc. Secundária de Caneças), Maurício de Brito (Esc. Sec. Ponte de Lima), Paulo Guinote(EB 2/3 Mouzinho da Silveira, B. Banheira) Paulo Prudêncio (EBI Santo Onofre, Caldas da Rainha), Pedro Castro (Esc. Sec. Maia), Ricardo Silva (EB 2/3 D. Carlos I, Sintra), Rosa Medina de Sousa (Esc. Sec. José Saramago, Mafra) e Teodoro Manuel (Esc. Sec. Moita).


Público, 13 de Junho de 2009"


 

sexta-feira, 15 de maio de 2009

lavar a alma

 


 


Hoje é feriado municipal nas Caldas da Rainha. Quando isso acontece a um dia de semana a coisa torna-se engraçada: o concelho fica com uma vida muito calma e basta passar a fronteira para se reencontrar o rebuliço habitual.


 


Fiz uma visita pelos blogues por onde tento passar e encontrei no sinistraministra um post que vou trazer para aqui.


 


O texto é muito interessante e acompanha-o um vídeo imperdível. 


 


 


"Vídeo com imagens do filme "La lengua de las mariposas", dirigida por Jose Luis Cuerda e protagonizada por Fernando Fernán Gómez, com a canção de "El maestro", de Patxi Andion, que nos fala do professor que é um perigo para a ordem pública, e a quem o Presidente da Câmara pensa que é comunista, o pároco o considera ateu, e o chefe da guarda o acusa de anarquista, acabando por ser preso pela polícia.



Patxion Andion é um cantautor basco, doutor e Professor de Sociologia, expulso de Portugal por duas vezes pela PIDE , que deu em Lisboa um concerto um mês antes do 25 de Abril de 1974."


 


 


professor bartleby (4)

 


 



(encontrei esta imagem aqui)


 


 


A rubrica do professor Bartleby recebe um contributo que deve merecer uma atenta leitura e que pode provocar uma discussão que está por fazer; parece-me, claro. O texto é da autoria de Vasco Tomás.


 


Ora leia.


 



"Achegas para uma justificação da Desobediência civil.


 


A desobediência civil é a forma específica do protesto em que a infracção deliberada de uma lei se faz de modo não-violento (com civilidade) e com a aceitação da sanção penal por parte do infractor. De natureza política, assume a forma de um movimento colectivo em que se pretende mudar uma determinada lei ou orientação política considerada injusta. 


A história política (sobretudo a dos EUA, donde surgiram os mais relevantes contributos de reflexão teórica sobre o assunto) apresenta-nos múltiplos exemplos em que os actos de desobediência civil foram coroados de êxito, o que prova a sua eficácia como factor de estabilização da conflitualidade social e de reforço das condições de uma sociedade mais justa. Facto que reforça a tese dos que defendem o valor deste recurso de luta política, contra os seus detractores.


A argumentação política, e o suporte jurídico que a justifica, de que a lei, produzida por um orgão legítimo numa ordem democrática, que detém a autoridade, exige estrita obediência por parte daqueles a quem se dirige, não resiste a uma análise mais aprofundada. Para o fazer, temos que:



  1. determinar (com recurso a Alain Touraine) o lugar do político na trama das relações sociais, de modo a compreender o modo de articulação dialéctica do par autoridade-obediência;

  2. definir a natureza do “contrato social” (na perspectiva de Hannah Arendt)  que está na base da ordem democrática.



  1. circunscrever as condições em que é legítimo o recurso à desobediência  civil (com base em John Rawls), de modo a retirar a necessidade de uma incorporação na Constituição do direito de desobediência civil.


Ponto 1.  O sociólogo Alain Touraine considera que a cultura (valores, modelos regras culturais) não surge como um sistema independente da acção, mas antes em estreita relação com ela.


Deste modo, as várias instituições (jurídicas, políticas, escolares, etc.) devem ser pensadas articuladamente nas suas diferentes dimensões, no interior dos âmbitos da vida social, com as diversas relações que as caracterizam.


Por isso, a “ordem social é inteiramente o produto de relações sociais, sendo a partir destas deve ser explicado o sentido do agir no qual o actor está implicado.


A capacidade que a sociedade tem de se produzir a si mesma (historicidade) consiste num conjunto de orientações culturais constituídas em práticas sociais, as quais não são controladas, na sua criação e implementaçao, pelo conjunto do grupo. O que leva os excluídos a um processo de reapropriação do objecto.


Neste quadro, a unidade das sociedades modernas deve ser pensada como movimento de libertação da criatividade humana, que se manifesta em todos os aspectos da organização social. O que requer um alargamento do espaço público, uma maior responsabilidade dos cidadãos pelos assuntos comuns e uma maior abertura do poder político em relação às formas de dissenso emergentes dos grupos directamente  afectados pelas decisões tomadas por aquele. 


    


Ponto 2. “Na sequência de Tocqueville, que admirava as «associações voluntárias», Arendt põe em evidência que, num regime político onde as decisões são tomadas por maioria, é necessário atender a voz das minorias, porque o seu silenciamento  tranforma o “princípio da maioria” numa «ditadura da maioria». 


Arendt distingue duas acepções de contrato: tomado em sentido “vertical» e em sentido “horizontal». A primeira acepção, de Hobbes, consiste na submissão da maioria dos indivíduos a uma minoria. A segunda acepção, de Locke e de Montesquieu, implica que cada indivíduo se comprometa a partilhar o poder com os outros, instituindo assim uma comunidade fundada no princípio da liberdade entre iguais. Na base desta acepção, encontra-se a ideia de que há, por parte de cada contraente, um “consentimento tácito” em relação à matéria do próprio contrato. 


Arendt argumenta que a desobediência civil não viola o “contrato social” no qual o indivíduo se comprometeu a obedecer às leis civis, porque ela emana deste, se o tomarmos em sentido horizontal”. Numa sociedade fundada no contrato horizontal, essencialmente democrática, a lei é o resultado de um debate entre iguais, no espaço público,  que conduz a um acordo.


A "maioria" deve ser pensada como um "instrumento político" necessário para a tomada de decisões e não como um “princípio político”, com legitimidade para tomar decisões contra a minoria. Por isso, mesmo depois das decisões tomadas e das leis votadas, a minoria tem o direito de continuar a exprimir publicamente o seu ponto de vista.


Segundo H. Arendt, o “princípio do consenso” implica, por essência, a “legitimidade do dissentimento”. Tanto o acordo como o desacordo são constitutivos do debate que ocorre no espaço público. 


A própria ideia de consenso é sempre provisória, passível de evoluir, por alteração ou anulação para outro consenso. Não há o “consenso de direito” inamovível a todo o potencial dissenso.


 


Ponto 3. John Rawls, na sua obra neocontratualista  UmaTeoria da Justiça, analisa o tema da desobediência civil no capítulo VI. A teoria da desobediência civil é concebida apenas para o caso de uma sociedade quase justa, que seja bem ordenada, mas na qual ocorram sérias violações da justiça. A desobediência civil é um acto político, não-violento, decidido com o objectivo de provocar uma mudança nas leis ou na política. Trata-se de uma apelação pública de que os princípios da cooperação entre homens livres e iguais não estão a ser respeitadas, distinguindo-se de outras formas de protesto como a acção militante e a objecção de consciência. 


Esta acto fundamenta-se  na concepção de justiça partilhada que subjaz à ordem política, mas só é legítimo quando ocorre a violação persistente e deliberada dos dois princípios básicos da concepção de justiça, durante um período de tempo extenso, em especial a lesão das liberdades fundamentais, as quais, pelo primeiro princípio, são direitos reconhecidos a cada pessoa de modo igual. Através da desobediência, uma minoria força a maioria à opção de persistir em manter a sua posição ou de, tendo em vista o senso comum da justiça, reconhecer as exigências legítimas daquela. 


A desobediência civil deve ser precedida de apelos normais à maioria política. Deve haver prévias tentativas para fazer com que a lei seja revogada. Apenas após a desconsideração dos protestos e demonstrações legalmente permitidos é que se deve invocar a desobediência civil. Esta decisão deve ser tomada com toda a prudência, após feita uma correcta avaliação da razoabilidade do exercício  de tal “direito”. E é também importante que ela seja compreendida, já que se trata de um apelo público por parte daqueles que são vítimas de sérias injustiças e que não estão obrigados à submissão.


Ao lado de eleições livres e regulares e um poder judiciário independente, competente para interpretar a constituição, a desobediência civil, quando utilizada de forma moderada e ponderada, ajuda a manter e a fortalecer as instituições justas. 


O facto dos cidadãos responderem à violação das liberdades fundamentais por meio da desobediência civil, significa o reforço e não enfraquecimento destas liberdades. A desobediência civil é uma forma de introdução, dentro dos limites da fidelidade ao direito, de um mecanismo de último recurso que mantenha a estabilidade de uma constituição justa. E embora ilegal, não viola o direito, pois enquanto exercício de um direito de liberdade política é norteada no seu princípio pelo interesse do interesse comum. 


Se a desobediência civil injustificada ameaçar a paz civil, a responsabilidade não será daqueles que protestam, mas daqueles cujo abuso do poder e da autoridade justifica essa oposição. 


A utilização do aparelho coercitivo do Estado para conservar instituições ou leis manifestamente injustas é em si mesma uma forma ilegítima do emprego da força, à qual se terá, a partir de certo momento, o direito de resistir.


 


Conclusão. O carácter compromissório da Nossa Constituição, onde estão patentes as influências de diversas correntes ideológicas (como afirma Jorge Miranda), não permitirá descortinar nela também a sua inspiração liberal, à maneira de Locke e Montesquieu mais do que à maneira de Rousseau? Se assim for, não seria pertinente retomar, em próxima revisão constitucional,  esse espírito, nomeadamente a partir da letra da sua redacção inicial, que estabelecia,  no seu artigo 20, ponto 2.,  “o direito de resistência do cidadão a qualquer ordem que ofenda os seus direitos”? Direito esse que sucessivas revisões extirparam, ficando a defesa do cidadão, na versão actual da Constituição, confinada ao “direito de petição e de acção popular”, nos quadros previstos pela lei.


Poderíamos pensar que a história e a cultura nacionais não contiveram no seu seio suficientes elementos disruptivos potenciadores da emergência desta experiência política. Mas a aguda consciência dos direitos, hoje mais patente do que no passado, poderá ser uma razão pela pensar a contra-pelo da história e da cultura no seu entendimento habitual.


A consagração constitucional do direito de desobediência civil, para além de explicitar um direito fundamental inerente ao “espírito das leis” de um regime liberal, tornaria a nossa lei fundamental mais em consonância com a natureza imanente da unidade social e com a exigências de uma sociedade mais justa."


 

quinta-feira, 14 de maio de 2009

professor bartleby (3)

 



(Alain Refalo, o professor francês


que desencadeou o processo


de desobediência civil)


 


 


 


Iniciei a rubrica do professor Bartleby com a ideia de homenagear a personagem retratada por Herman Melville e de a associar à firme disposição de dizer não por parte de muitos dos professores portugueses. Estava longe de imaginar que Alain Refalo, um professor francês, desencadeava no seu país um processo de desobediência civil. 


 


É uma questão por discutir: nas democracias e nos estados de direito.


 


Recebi um email com as explicações do corajoso professor. Colo-as de seguida. Os mais interessados podem ler o texto completo aqui.


 


"A acção que desencadeei através da carta que dirigi ao meu inspector, na qual o informo de que, em consciência, me recuso a obedecer a determinadas decisões ou recomendações emanadas superiormente no início do ano lectivo, foi uma acção cuidadosamente ponderada. Ao mesmo tempo, reflecte situações já antigas pois, nos últimos meses, tivemos muitas reuniões, dedicámos tempo a discutir com colegas e com pais de alunos, onde analisámos o conjunto das medidas ou reformas que nos caíram em cima, reformas para as quais nunca fomos ouvidos nem achados e que, consideradas de uma ponta à outra, concluímos que iriam conduzir ao desmantelamento da educação nacional.(...)"

quinta-feira, 7 de maio de 2009

desobediência

 



 


(encontrei esta imagem aqui)


 


 


França: professores em desobediência pedagógica


 


 


"Começou com um acto de recusa individual de aplicar um decreto ministerial que acrescentava duas horas por semana aos “maus alunos” na primária, segregando-os e estigmatizando-os. Na verdade, o objectivo profundo desta medida não destoa do que conhecemos no nosso país: despedir os milhares de professores de apoio das chamadas RASED (redes especializadas de apoio a alunos com dificuldades). Alain Refalo, o primeiro professor a declarar desobediência pedagógica, decidiu, com o apoio dos pais utilizar essas horas para desenvolver um projecto de teatro com todos os alunos. A recusa seguiu por escrito para a inspecção e a partir daí passou-se da disputa pedagógica para a ameaça disciplinar.

Outros seguiram Refalo e surgiu um movimento colectivo de desobediência que não se opõe apenas a este decreto mas em toda a reforma governamental do ministro Darcos com o seu cortejo de despedimentos com o aprofundamento da precarização da classe, com a criação de “novos” programas acusados de conservadorismo.

Das ameaças o poder passou às sanções. Bastien Cazals foi o primeiro sancionado tendo-lhe sido retirados doze dias de salário devido à sua recusa de aplicar o referido diploma. Depois Refalo seguiu o mesmo caminho, tendo vistas descontadas oito dias por mês a partir do momento em que se declarou em desobediência.

A repressão, ao invés de fazer desistir os insubmissos, fez crescer o movimento que hoje se conta já pelos milhares (entre os que declaram por escrito a sua desobediência às autoridades e os que desobedecem sem fazer qualquer comunicação).

A seis de Maio lançam mais uma “jornada de desobediência” na escola.

Quem quiser seguir o movimento pode ler o seu blogue 
aqui.

Quem quiser ouvir as suas razões pode fazê-lo 
aqui.

Carlos 
Carujo, São Brás de Alportel"

terça-feira, 17 de março de 2009

professor bartleby (2)

 


(encontrei esta imagem aqui)


 


 


 


"Na sua intenção mais profunda, a filosofia é, de facto, uma firme reivindicação da potência, a construção de uma experiência do possível enquanto tal. Não o pensamento, mas a potência de pensar; não a escrita, mas a folha cândida é o que ela, a todo o custo, não quer esquecer."


 


"Bartleby, Escrita da Potência",


"Bartleby, ou Da Contingência" seguido de "Bartleby,


O Escrivão de Herman Melville" de Giorgio Agamben,


edição de Giogio Agamben e de Pedro A. H. Paixão,


da colecção "disciplina sem nome",


é da Assírio & Alvim (2006).


 


 


Já dei conta, no professor Bartleby (1), que pode ler aqui, da associação que fiz entre a posição de luta, contra as nefastas políticas do actual governo, de muitos dos professores portugueses e a personagem Bartleby construída pelo genial Herman Melville.


 


Ora a escrita da potência centra-se nessa infinita possibilidade de alguém dizer um dia: "preferiria de não" ou mesmo "prefiro não". Não só pensar mas a potência de pensar. Não a escrita de um qualquer relatório ou grelha "Kafkiana", mas a livre capacidade da candura da folha ou mesmo do porta-folhas.

sexta-feira, 6 de março de 2009

professor bartleby (1)

 


 


 


(encontrei esta imagem aqui)


 


 


 


Há concordâncias muito engraçadas: noutro dia, uns colegas e amigos da minha escola, convidaram-me para uma ida ao Centro Cultural de Belém para ouvir a leitura de umas cartas de amor trocadas entre Hannah Arendt e Martin Heidegger; durante as viagens, e no apressado jantar, conversámos de modo animado; lembro-me de ter trazido às trocas desinteressadas dois escritores que nunca esqueço: o filósofo Giorgio Agamben e Herman Melville, o célebre autor do conhecido "Moby Dick" mas também do genial "Bartleby".


 


Antes do regresso às Caldas da Rainha demos uma saltada ao excelente espaço de fruição cultural que é antiga Fábrica de Braço de Prata. Ouvimos um concerto de jazz, bebemos qualquer coisa e vasculhámos uma ou outra das livrarias.


 


E não é que dei com uma obra, de 2006, e que não conhecia, de Giorgio Agamben, onde o mote é precisamente o "Bartleby" de Herman Melville. Adquiri o livro e devo confessar que fiquei em pulgas para ler o que o conhecido filósofo tinha para me dizer.


 


"Bartleby, Escrita da Potência", "Bartleby, ou Da Contingência" seguido de "Bartleby, O Escrivão de Herman Melville" de Giorgio Agamben, edição de Giogio Agamben e de Pedro A. H. Paixão, da colecção "disciplina sem nome", é da Assírio & Alvim (2006).


 


E, como era de esperar, a obra tem muito que se lhe diga. Por isso, decidi-me a abrir um nova rubrica no meu blogue com a intenção de voltar ao assunto. Por agora, ficamos pela número um do professor Bartleby. Não que a personagem de Herman Melville fosse um professor. Não; Bartleby era um jovem escrivão, ou copista de coro, que exercia as suas funções num próspero escritório de negócios.


 


E podemos começar assim: certo dia, Bartleby, e ao pedido do seu chefe para uma ida aos correios, profere o célebre "preferiria de não" (I would prefer not to). E assim continuou, nem sempre com a resposta no condicional; certa vez usou mesmo o presente do indicativo.


 


O escrivão decide-se também a não escrever, a sequer copiar, e mantém essa decisão nas mais variadas situações até para as ofertas de outros empregos por parte do seu desesperado chefe.


 


E a partir desta primeira entrada sobre o assunto, quero estabelecer uma associação do que acabei de descrever com o notável comportamento de muitos dos professores portugueses. Colocados perante a obrigatoriedade de escrever relatórios "kafkianos" ou de preencher grelhas inenarráveis, mesmo que com a majestática sugestão da cópia, decidem-se pelo "preferiria de não". E muitos deles fazem-no numa difícil condição e nos ambientes mais adversos. Presto-lhes, assim, a minha sincera homenagem.


 


Voltarei ao professor Bartleby.