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segunda-feira, 23 de maio de 2022

Da Blogosfera: Blog DeAr Lindo

O testemunho é tão impressionante que trouxe o texto todo.



Um Morto Professor


Se lá chegar, brevemente farei 62 anos de idade e 42 a lecionar ininterruptamente, tendo desempenhado em cerca de uma dezena de escolas todas as funções possíveis, desde a faxina da limpeza, passando pelo alombamento do mobiliário/equipamento para lecionar, até à presidência de todos os órgãos escolares, chegando a permanecer nelas dias seguidos das 7.30 horas até depois das 24 horas (com ensino noturno), comendo pagando e tomando conta dos alunos nos refeitórios. E agora, frequentemente dias com manhãs, tardes e noites de trabalho seguidas. Família sempre em segundo ou terceiro plano. Até a formação esteve sempre depois das aulas e primeiro que a família. Em todo este tempo estive um dia de atestado médico.


Descontei mais de 30 daqueles anos para a aposentação, com base em 100% do ordenado, na proporção de me aposentar sem penalização com 55 anos de idade e 36 anos de serviço (era assim considerado pelo desgaste da profissão e outros motivos). Assim foi durante muitos anos e ainda continua a ser para alguns  agora privilegiados. Se me aposentar um dia será com base em menos de 60% (simulação da CGA). Neste país, durante algum tempo a seguir ao 25 de abril de 74, havia carne e osso para todos, agora para os protetores do sistema vai a carne e para os trabalhadores vai o osso já rapado.Repetidamente o aumento dos ordenados nunca acompanhou de perto a inflação. Recebo menos vencimento líquido hoje do que há mais de 20 anos e dois escalões atrás.


Nos últimos anos despediram milhares de professores, alguns com dezenas de anos de carreira, como por exemplo na disciplina prática que leciono em que reduziram para menos de metade os professores ao cortarem50% da carga horária e ao atribuírem o dobro dos alunos a cada professor, colocando em risco permanente a segurança de alunos/professores e sem qualquer investimento em equipamentos/condições de trabalho que são completamente obsoletas. À balela da falta de professores crucificam-se os que já trabalharam uma vida.Para os iluminados que andam a propor bonificações aos professores que depois de aposentados queiram continuar a trabalhar devido à falta deles, pela minha parte nunca nem condecorado.


Sem qualquer justificação, porque há dinheiro do Estado para estádios de futebol megalómanos sem qualquer utilidade, bancos falidos por ladrões, subsídios perdidos a empresas de empresários oportunistas, chorudas reformas sem para elas descontarem proporcionalmente para administradores e afins, favorecimentos por fora em tudo o que é administração pública, lei da autonomia para roubar/desviar verbas, etc., quase no fim da carreira foi-me imposto trabalhar e descontar pelo menos mais 12 anos para cobrir os desfalques facilitados/abafados por político sou gestores corruptos. Nunca vi alguém estar perto de atingir um objetivo e imporem-lhe humanamente um outro incompreensível.


Atualmente leciono a mais alunos do que no início da carreira, com a incomparável diferença entre respeito/reconhecimento àquela data e a agressividade/espezinhamento atual, por alunos, encarregados de educação e administração educativa.


Por considerar ser, pelo Estado e minha entidade patronal, enganado, aldrabado, vigarizado, manipulado, vilipendiado, explorado, roubado, abusado, violado, torturado, trucidado, agredido, enxovalhado, discriminado, desrespeitado, desprezado, humilhado, inferiorizado, achincalhado, despromovido, desvalorizado, etc..


Obviamente, estou pessoal e profissionalmente exausto, saturado, desgastado, fragilizado, estoirado, deprimido, descontrolado, stressado, indignado, revoltado, sem qualquer motivação, assumidamente à beira do abismo sujeito a arrastar comigo alguém próximo, etc..


Fiquei no ensino, a troco de tudo de muito melhor, porque adorava lecionar e o trabalho complementar, mas atualmente detesto esta profissão que mata os que não querem guerra.


Por isso, considero-me um professor morto a trabalhar/lecionar como nunca, fora do prazo de validade para alunos com idade de serem meus bisnetos, em adiantado estado de decomposição sem que alguém note o cheiro nauseabundo que emano e com ar de parolo retrógrado por ter sido professor de informática dos primeiros engenheiros informáticos estando atualmente no grau zero das qualificações digitais, até porque recusei todas as vacinas e todos os testes covid-19 até hoje, devido ao primeiro-ministro atribuir exclusivamente aos professores uma marca de vacina que ele veio a considerar berbicacho e que eles cobardemente aceitaram. Até agora não beneficiei de qualquer bónus para ter covid19. 


E como, com o horizonte de anos que ainda tenho para trabalhar e poder receber a aposentação sem penalização, só vejo a possibilidade de sair na HORIZONTAL pela porta das traseiras da Escola onde trabalho, talvez em resultado dum pressuposto enforcamento. Olho para o lado e vejo os colegas mais velhos ou da minha idade no meu estado e os próximos da minha idade quase como eu, a dizerem que já não aguentam mais. Transformaram-nos numa cambada de velhos transtornados prematuros. Os vacinados a terem todos covid19.


Assim, os alunos vão ter um futuro risonho, com um ministro da educação competentíssimo, há mais de seis anos a governar os professores deste país e por pelo menos mais quatro anos e meio, para quem interessa é que tenham aulas (segundo ele, mas eu sinto precisamente o contrário), por professores no meu estado cadavérico-degenerativo. Com professores neste estado que ensino estão a/vão ter os alunos? Apenas aulas! Um morto professor dá aulas, mas não ensina. Ainda bem que os meus filhos não querem ter filhos para terem este futuro.


Que fique bem claro. Estou morto, mas não morri. Fui simplesmente assassinado e muito lentamente com inqualificável sofrimento. Pena que neste país cavaquistasoarês os incógnitos bandidos doutorandos, seus discípulos e afins que me assassinaram continuem à solta e a viverem à minha custa, nomeados ou eleitos até com maiorias absolutas conquistadas sem o meu voto quejá deixei de o dar desde que me começaram a matar.


PARABÉNS SENHOR MINISTRO (ex-secretário)! Medalhável brevemente pelo presidente selfimarcelista digno descendente do pai que por mero acaso também foi ex-secretário de estado da educação do fachismarcelistaainda do meu tempo de lutador.


 


Carlos Tiago


(o assassinado professor)"


 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Canibalismo Profissional – Carlos Santos

Encontrei este texto muito significativo  aqui e colo-o de seguida



"Só quando virmos a última gota de água sair das torneiras nos daremos conta da falta que ela faz. E assim será com os professores numa terra que atravessa uma severa seca de valores sociais.


O sistema de ensino em Portugal não é mais do que um navio a afundar-se onde os sobreviventes, num salva-vidas à deriva num mar de gente indiferente que não os quer nem vai salvar, em desespero, acabam por cometer canibalismo começando a se comerem uns aos outros por considerarem ser essa a única solução para sobreviverem. Os professores que parem de procurar nos outros explicações para o afundamento da classe, porque ela própria é a maior culpada pelos males que a afligem, pela desunião que a caracteriza e tem prejudicado a todos ao longo dos últimos anos e nos trouxeram até esta situação decadente de instabilidade, precariedade e más condições profissionais.


Não é uma andorinha que faz a primavera; não são alguns casos fraudulentos na mobilidade por doença que podem pôr em causa todos os outros que estão realmente doentes. Foi com essa perigosa mentalidade e tendência em generalizar que se cometeram as maiores atrocidades e crimes ao longo da história da humanidade. É, por isso, com grande preocupação que assisto ao começo de uma campanha difamatória contra os professores em mobilidade por doença, doentes ou com familiares a necessitar de apoio.


Será, porventura, assim tão difícil estabelecer a ligação do envelhecimento da classe, a crescente sobrecarga de trabalho e o prolongamento dos anos de deslocações para escolas longínquas, com o aumento de problemas de saúde dos professores? Será que alguém se pergunta como é que um professor sexagenário aguenta fazer diariamente centenas de quilómetros nas estradas a acumular a todo o imenso trabalho profissional que lhe é exigido? Claro que não, pois é bem mais fácil falar mal dos outros, algo tão característico do nosso povo.


Que, de uma vez por todas, se entenda que isto não é vida que se aguente. Até há uns anos os ciganos eram conhecidos pelo nomadismo que caracterizaram a sua cultura e os fizeram povoar os quatro cantos do mundo; hoje em dia os professores são os ciganos dos tempos modernos – nómadas a percorrer o país durante toda uma vida.


E que se desmitifique que o maior problema dos horários que não são preenchidos são os horários incompletos numa profissão mal paga sem ajudas de custo, que não são aceites por mal darem para pagar uma renda e que nada têm a ver com os professores em mobilidade por doença.


28 anos de carreira em QA, acidentes em serviço, cirurgias, um joelho que nem sequer me permite correr e me dificulta a condução e mais de 600 mil quilómetros nas estradas em deslocações para a escola, são a explicação para recorrer à mobilidade por doença. Se preferia não ter de recorrer a este género de concurso? Claro que sim, pois seria sinal que teria saúde, algo que não tem preço e só se dá o devido valor quando se perde. Por isso, numa situação destas, colegas serem obrigados a escutar da boca de dirigentes escolares e associativos e da comunicação social, que os professores nestas circunstâncias são fraudulentos e oportunistas!? E, pior, colegas de profissão a alimentarem as redes sociais com um ar carregado de maledicência dos seus pares, é revelador da desunião de uma classe malformada que se maltrata a si mesma.


Se hoje pudesse voltar para trás no tempo, nunca teria enveredado por ser professor. E isso nada tem a ver com a qualidade profissional. Quem me conhece sabe que sou um bom profissional, gosto do meu trabalho (embora hoje menos do que noutros tempos), com excelentes relações com pais, alunos, professores e funcionários, com elevada capacidade pedagógica dentro e fora da sala de aula. Mas não é isso que define uma escolha de vida acertada quando o preço a pagar é elevado numa fatura diária e perpétua, numa terra onde não há reconhecimento profissional nem mesmo no seio da classe onde cada um faz tudo para poder ficar com o quinhão dos outros. Sinto o desalento de quem deu tudo de si ao ensino, incluindo literalmente sangue, suor e lágrimas, e em troca recebeu tão pouco da sociedade.


A minha esposa, com 29 anos de carreira em QA, acidentes em serviço, mazelas, uma vida na estrada sem fim à vista, nem esperança de algum dia poder vir a ficar colocada perto do domicílio, é o exemplo acabado daquilo que se espera de um professor nos dias de hoje – um missionário que abdica tudo por uma causa sem gratidão social. Um número descartável que, quando estiver esgotado, simplesmente se esquece e se substitui.


Será a qualquer título assim tão difícil entender que o que está verdadeiramente em causa não são os professores, mas as condições de trabalho desumanas a que são sujeitos? Longe vão os anos em que um professor trabalhava meia dúzia ou, quando muito, uma dúzia de anos longe do domicílio até ficar colocado perto da sua residência. Atualmente, espera-lhe toda uma vida a trabalhar longe de casa com a expectativa de, talvez, um dia, quiçá perto da idade da reforma, poder vir a ser colocado perto de sua casa.


E quem paga a despesa de décadas nas estradas e em estadias com famílias a pagarem duas e três rendas? Quem paga o desgaste de centenas de milhar de quilómetros ao volante?


Com condições tão pouco atrativas, não é de admirar que, nos dias de hoje, não se consigam aliciar os jovens para virem a ser professores.


Não me espanta nada que a muito anunciada falta de professores já esteja aí com mais de trinta mil alunos sem professores neste ano letivo, mais de cem mil no próximo e mais de trezentos mil dentro de 2 a 3 anos.


É, para mim, muito natural que sejamos um país sem grande progresso em comparação com os seus pares, com baixos índices de escolarização que se irão agravar enormemente nos próximos anos, fruto do indecente ataque aos profissionais da educação iniciado em 2005 por Maria de Lurdes Rodrigues e o governo Sócrates e habilmente continuado pelos governos que se lhe sucederam.


Um país que, no futuro próximo, apenas irá colher aquilo que semeou; sem futuro, a que está condenado pela postura política e social de perseguição e injúria à classe fundamental para o desenvolvimento e progresso de uma nação. Mais do que um flagelo económico, este é um flagelo social numa terra movida por um monstro corrosivo que turva a razão e ataca com o ódio da cegueira chamado “inveja”. “Os professores ganham muito, trabalham pouco e têm muitas férias”, a isto se reduziu o imenso e importantíssimo trabalho de grande investimento e sacrifício pessoal e profissional desempenhado pelos professores.


Está a chegar, a passos largos, o dia em que o país irá implorar por professores e não os terá. Depois, irão providenciar-se remendos para tapar a enorme cratera aberta diante de todos, recrutando-se profissionais sem habilitação profissional especializada nem qualificações à altura, recorrendo-se a professores dos PALOP, espanhóis, entre outros, quando se negligenciou e perseguiu excelentes professores que o país formou ao longo de décadas. Alguém deveria responder perante a justiça por este e outros crimes que a nossa classe política tem cometido contra a nação ao longo de décadas.


E quanto ao povo, longe de estar inocente, apenas terá aquilo que merece pagando por ter acreditado nas mentiras disseminadas pela máquina de propaganda política sendo conivente com esta matança profissional que encurralou o ensino neste beco sem saída.


Relativamente a esse clima de suspeição, o que dizer daqueles que, com responsabilidades acrescidas, vêm a público falar mal da classe? Comecem por investigar o obscurantismo por detrás de certas nomeações para cargos públicos, políticos e editoriais de órgãos de comunicação; comecem por averiguar a transparência dúbia na eleição de certos dirigentes escolares; comecem por dar a devida atenção a tantas irregularidades, atropelos à lei, cunhas, corrupção, peculato e crime, antes de se virarem para os professores.


E a ávida língua afiada de alguns docentes, seria muito mais útil se a apontassem na direção do envelhecimento da classe e do elevado desgaste a que está sujeita, com excesso de trabalho e de trabalho burocrático, de instabilidade e baixos salários. Afirmarem que professores em mobilidade por doença não lecionam, só alimentam falsas ideias sobre os professores. Muitos, coitados, mesmo em mobilidade por doença, ainda acabam por ser obrigados a meter baixa médica por não aguentarem, sendo o mais doloroso o azedume e má-língua dos colegas de profissão.


Em vez de exigirem melhores condições de trabalho, maior estabilidade profissional, redução dos quadros de zona, aposentação mais cedo por desgaste profissional, vinculação mais célere, ajudas de custo para alojamento e deslocações, menos burocracia, mais proteção social e judicial, valorização da classe, da carreira e salarial, fim de cotas e de obstáculos à progressão na carreira, devolução do tempo de serviço roubado e a resolução de tantos problemas reais e diários dos docentes, estupidamente, os professores continuam a preferir embarcar nestas ciladas que colocam professores contra professores e mancham a profissão na praça pública optando por dar tiros nos próprios pés. Guarda-se o mal dos outros num cofre longe da nossa consciência e dizem-se as maiores blasfémias com a mesma facilidade com que se respira.


Que se investiguem os oportunismos de alguns e não se tome a parte pelo todo, apenas isso.


De quando em quando, num país onde quase tudo funciona mal, num exercício de fuga da realidade lá se volta novamente a atenção para os professores como culpados de todos os males… e o pior é que alguns facilmente alinham nisso."



Carlos Santos

domingo, 1 de novembro de 2020

"Calam-se As Palmas"

 


Captura de ecrã 2020-11-01, às 11.41.28.png


(recebido por mensagem devidamente identificada com solicitação de publicação)


"Calam-se as palmas.


Calaram-se as palmas e fecharam-se as janelas.


Calaram-se as palmas e a Alice morreu.


Despiu a bata no final do turno, saiu do Hospital, conduziu até casa, mas antes, antes de chegar à meta, interrompeu a viagem.


Suicidou-se.


Eu não sei as razões para a Alice desistir de tudo isto.


Sei que se fartou de um país que a mandou emigrar e a cujo apelo resistiu.


Sei que se cansou excessivamente de palmas sem eco.


Sei que, pelo caminho perdeu a identidade, oculta num escafandro pesado de suor e da dor dos outros.


Sei que existem incontáveis Alices na minha profissão. Que chegam a casa destruídas por um dia de trabalho sem fim, por uma batalha invisível de quem salva vidas (e não apenas as do Covid) ou de quem mediu vezes demais a frequência cardíaca daqueles que não chegaram a ter segunda oportunidade.


Estou certa, porém, por ser esse o nosso superior desígnio, que a Alice se revestiu, como todos os enfermeiros, de infindável compaixão para aguentar ter dois braços apenas. Num cenário de incompreensível amadorismo político, a saúde ficou para trás. A saúde de quem a perde, a saúde de quem a deve salvar.


Provavelmente, todas as famílias portuguesas têm no seu seio, ou conhecem, um enfermeiro. Provavelmente, todas as famílias portuguesas bateram palmas à janela aos profissionais de saúde quando tudo isto começou.


Nós estávamos “na linha da frente”, grandes heróis, estes que se confrontam com o destino determinados a cuspir-lhe na face e prosseguir.


Mas prosseguir a que custo? Quando é que um penso rápido substitui um profissional qualificado, preparado, confiante? Quando é que medidas avulsas com uma estratégia utópica e fictícia na sua ação dão lugar à primazia da saúde num verdadeiro cenário de guerra?


Quando é que as palmas superam a inação política?


Regresso todos os dias a casa com a exaustão no corpo e o medo no peito. Beijo os meus filhos ao de leve porque nem sei bem se vim sozinha para casa. E tenho tanto, tanto receio do que trago no corpo e na mente.


Confesso, há imagens que não me abandonam. O desespero dos outros, de não salvar os outros, que foi o que nos fez abraçar a profissão, o desespero de não saber com o que conto no dia seguinte.


Podemos continuar a fingir que não se passa nada neste país e que os nossos enfermeiros e restantes profissionais de saúde apenas tratam das arrastadeiras. Mas há um peso que todos vamos pagar, mais depressa do que se imagina. Cada vez mais Alices estão entre nós. Exaustas, exauridas, cansadas de prosseguir na estrada. Bizarramente sozinhas no meio de um incompreensível caos.


Esgotámos um tempo precioso e já não podemos fingir que está tudo controlado.


Silêncio, por favor. Baixe-se o pano.


Chega de palmas.


Morreu um enfermeiro, morreu um de nós.


Talvez algum político, daqueles que assinam decretos que fazem lei de verdade, se lembre de nós e nos dê a dignidade de sermos uma profissão de risco, honrando a nossa carreira e o nosso estatuto.


Talvez nesse dia perceba que não é com palmas e fintas infantis que se combatem guerras.


Talvez tudo o que baste seja apoiar verdadeiramente pessoas. Conceder-lhes o valor que têm e não fazer disso uma oportunidade para poupar mais trocos.


Talvez nesse dia perceba que a farda de anjos que caminham e sobrevivem nos escombros de si próprios não tem verdadeiramente preço, mas tem um custo.


E esse custo chama-se, simplesmente, Vida.


Natércia Lima (Enfermeira, mãe, filha)"

quarta-feira, 23 de maio de 2018

"A Depressão dos Professores"

 


 


 


Um texto de Carmo Machado com um retrato do estado a que isto chegou. O texto foi publicado pela revista Visão e colo-o na totalidade porque é um testemunho impressionante.


 



"A Depressão dos Professores.


Deparamo-nos por essas escolas do país, com colegas que arrastam pelos corredores a sua precariedade gritante. E nós, os que ainda possuímos alguma sanidade, nada podemos fazer.


Muito se fala hoje de stress, de stress ocupacional e de burnout (reconhecido pela Organização Mundial do Trabalho como uma síndrome que afeta várias profissões) mas nem toda a opinião pública estará consciente do facto de que esta é uma doença ocupacional com sintomas físicos, psíquicos e comportamentais que tem nos professores o seu principal alvo. Muito se fala também da elevada percentagem de atestados médicos passados aos profissionais do ensino mas poucos tentarão ou conseguirão compreender as razões pelas quais é esta uma das classes profissionais que mais frequentes visitas faz ao psiquiatra.


Em três décadas de ensino, ganhei algumas (poucas) certezas. Uma delas é a de que é completamente impossível ensinar se não estivermos na posse de um equilíbrio emocional total. É terrível quando, perante situações sistemáticas de indisciplina, a ansiedade se instala em nós, o choro ocorre amiúde, a insónia se repete e o pânico de ter de voltar a enfrentar uma determinada turma se transforma na nossa realidade quotidiana. Já vi muitos colegas de profissão em situações como a que vos descrevi cuja única escapatória foi o atestado médico. A fobia escolar é, a meu ver, o pior que nos pode acontecer. Confesso mesmo que, ao longo da minha carreira, já experienciei esta fobia escolar relativamente a uma turma. A simples ideia de ter de enfrentar aqueles alunos insubordinados e insolentes provocava-me uma tamanha sensação de angústia que, pela primeira vez, coloquei a hipótese de abandonar o ensino.


Já o tenho dito várias vezes e repito: é impossível sofrer de depressão e ser professor. A profissão docente - e falo de ser professor à séria, com vocação e empenho, profissionalismo, competência pedagógica e científica, não daqueles meros vendedores de aulas que, por necessidade e como última alternativa, enveredaram pela carreira de professor - exige uma leveza de espírito, elevadas cargas e recargas diárias de energia, agilidade mental e física, capacidade rápida de resolução de problemas e de conflitos de vária ordem, adaptação a situações imprevistas, capacidade de resposta fácil e rápida dentro da sala, uma listagem infindável de competências incompatíveis com um professor cuja caixa de ressonância tenha avariado. E estar deprimido é isso mesmo.





SIM, sei do que falo porque também eu já estive à beira deste descalabro e lembro-me de que, por esses dias, tanto se me dava que houvesse indisciplina ou que os professores fizessem greve ou que fechassem a escola ou que o mundo acabasse. Basicamente, tudo o que vinha na minha direção e que à escola dizia respeito, fazia ricochete e não entrava. Eu encontrava-me à beira de mim própria e nesses casos, o que menos nos importa é exatamente aquilo que contribui para chegarmos a esse limite. Felizmente, consegui travar a situação a tempo, antes de atingir o precipício.


Mas nem sempre é assim. Todos conhecerão, nas suas escolas, um ou mais casos de colegas que, em situações de desequilíbrio emocional, insistem em manter-se ao serviço e cumprir com as suas obrigações profissionais, convictos de que o que estão a fazer é o melhor para si e para a escola. Alguns não querem faltar para não prejudicar os alunos, outros não têm noção do estado em que se encontram, outros ainda não saberiam mesmo o que fazer se tivessem de ficar em casa. E assim, deparamo-nos por essas escolas do país, com colegas que arrastam pelos corredores a sua precariedade gritante. E nós, os que ainda possuímos alguma sanidade, nada podemos fazer.


Não preciso de ser psiquiatra para saber que a minha colega sofre de depressão ou outro distúrbio do foro psiquiátrico e que precisa de ajuda especializada. O pior, porém, é que os alunos também sabem e não têm, perante ela, a mesma condescendência que nós tempos. Diria mais: não têm qualquer tipo de condescendência. Pelo contrário, as situações de humilhação em que os alunos colocam um professor nestas condições dentro da sala de aula são gritantes, obrigando muitas vezes os colegas da sala ao lado a intervir. E nós acudimos-lhe mas pouco mais podemos fazer. O pior de tudo é que nem a escola a pode ajudar... A escola pública parece não possuir um enquadramento legal que permita a um diretor retirar tempo letivo a um docente com estas características, atribuindo-lhe outro tipo de tarefas, menos humilhantes para a sua condição e nas quais se sentiria menos exposto.


E qualquer coisa pode acontecer numa sala de aula, sabemo-lo. Ter trinta alunos perante nós, se problemáticos e indisciplinados, exige uma enorme resistência e sagacidade que um professor, cuja caixa de ressonância avariou, deixou de possuir. Carl Jung escreveu: a depressão é como uma mulher vestida de preto. Se ela aparecer, não a afaste. Convide-a para entrar, ofereça-lhe um assento, trate-a como uma convidada e ouça o que ela tem a dizer. Mas primeiro, digo eu, temos de afastar de nós esses outros convidados que se encontram na sala, geralmente em número de trinta e a que chamamos alunos.


Não há como escapar a este flagelo. Todos os dias sou confrontada com situações angustiantes de colegas em sofrimento e não consigo, por mais que tente, ficar indiferente. É mesmo impossível ignorar a colega que literalmente, num passo arrastado, caminha como um autómato para a sala de aula onde, numa luta desigual, terá de enfrentar um grupo cruel de trinta adversários que, à mínima oportunidade, transformarão a aula numa batalha campal, derramando pelo chão os últimos restos de uma dignidade há muito perdida.


Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015)."



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

digam-me que isto não aconteceu (1)

 


 


 


 


Recebi por email o texto que colo de seguida. O testemunho foi enviado com pedido de divulgação por parte do destinatário original. Pelo óbvio, suprimi os dados de identificação.





Bom dia, colega,


Agradeço as suas palavras de compreensão.
Trata-se de facto de um grupo com grande poder. Lembro que, na altura da compra do Externato pelo (…), na reunião de tomada de posse vieram à escola indivíduos do topo da hierarquia. E se não me falha a memória, o próprio (…) (cujo pai fora amigo da fundadora do Externato, primeira mulher em Portugal a formar-se em medicina veterinária). A opção pelo (…) partiu da parte da fundadora do Externato de duas vertentes: uma, a da ingenuidade – quem conheceu o carácter do pai, não conhece verdadeiramente o carácter do filho, a amizade obstruiu a visão da situação; por outro lado, e neste caso por parte dos filhos da senhora, que são bastantes e estão internamente divididos nos seus interesses particulares, o conhecimento de que o (…) tem dinheiro para os salvar da “enrascada” em que estão metidos. Precisam de vender a todo o custo. E é isso que fazem.
Na reunião a que me refiro, notei que os tais indivíduos não se abstinham de nomear os conhecimentos políticos que tinham. E, desconfiada pelo nosso futuro, não pude deixar de pensar, já naquela altura, que aquilo me parecia uma ameaça velada. A mesma que, já mais descaradamente, se fez sentir aquando do fórum anual que se realiza na (…), no (…) e à qual todos os profs (…) devem (carácter obrigatório) comparecer. Neste fórum esteve presente o (…)e o presidente da Câmara de (…). Mais uma vez, o (…) salientou os seus contactos governamentais. É como se dissesse: “escusam de nos ameaçar, podem falar mal de nós à vontade, com os nossos conhecimentos na esfera do poder, safamo-nos sempre, temos imunidade, vejam quem trabalha connosco e para nós!” Este último trecho nem sequer é o que eu calculo que pensam, foi dito. Eles salientam muito quem dos ex-governos trabalham com e para eles. O (…) faz gáudio em salientar esse aspecto, ele é um indivíduo sem pudores, descarado, com segurança em público.
Na reunião de antes de ontem, no Externato, sei que houve ameaças veladas, relativamente à eventualidade da participação na entrevista. E, mais uma vez, partiram do topo da hierarquia da (…), onde tudo se decide.
A nossa escola foi, durante os anos em que lá trabalhei, uma escola familiar. Tinha espírito de escola, principalmente, enquanto os seus fundadores foram vivos. O fundador foi um indivíduo com visão e espírito de missão, preocupado com o nosso bem estar e o dos alunos. Tudo fez pela escola que fundou, pagando os nossos salários com endividamento à banca, quando já na 2ª metade dos anos 80, e muitas vezes nos anos 90, o Estado não enviava a tempo e horas a 1ª tranche de pagamentos que cobre os meses de Agosto a Dezembro. E nem sequer nos fazia sonhar que esse percalço acontecia. Era um indivíduo de esquerda, que não procurava louros de vitória, não se expunha nem se vangloriava. Era coerente com os seus princípios, rígido e firme nos seus propósitos, mas com um fundo humano que se mostrava pelas acções. Falava pouco, agia muito. O espírito com que criou a sua própria numerosa família foi o espírito com que fez pagar do seu bolso os estudos a alguns filhos da terra, carecidos financeiramente, mas com capacidades intelectuais notórias. Nunca ouvimos da sua boca a mais leve menção a este facto. Este espírito morreu com ele, em Fevereiro de 2002. Manteve-se no entanto a vontade de manter este carisma que nos deixou: o de que estávamos a trabalhar para um bem comum. E se trabalhávamos mais horas do que seria estipulado, fazíamo-lo porque gostávamos de o fazer, não por medo ou coação. Tínhamos brio na escola que defendíamos. Sentíamo-nos em casa, fazíamos o melhor que sabíamos. Era uma casa e causa de todos. Era espírito de missão educativa.
Numa RG, pouco depois da compra pelo (…), a gestora administrativa da escola disse uma frase que não me saiu da cabeça “…não quero dizer que, ao comprarmos esta escola, tenhamos dado um tiro no pé”: ora, todos sabemos que, em política, quando se nega uma coisa é sinal de que ela é verdade. O que equivale a dizer que o (…) considerou que, se tivesse podido voltar atrás, não teria comprado o Externato. Com os cortes introduzidos pelo Estado às escolas, os lucros previstos à partida não se concretizariam. Havia que proceder a cortes internos (as nossas cabeças), para não haver muita discrepância entre as ambições e a realidade. Ainda assim, nesse mesmo ano, quiseram ter “os dois pés iguais”, porque compraram uma escola profissional na (…).
Infelizmente para todos nós, as oligarquias no poder continuam a existir e a ser economicamente poderosas e, quaisquer que sejam as forças partidárias que ocupem esse poder, qualquer boa vontade vai ser esmagada pela ditadura económica que não se compadece com a dignidade humana e com as pessoas como seres humanos que constituem de facto esta nação. Somos meros colaboradores, ou seja peões de que o poder partidário dispõe a seu bel-prazer no tabuleiro dos seus interesses próprios.
Infelizmente, na conjuntura actual, não creio, caro colega, que nos possamos libertar dessa gente pelo voto. Apenas pela denúncia sem tréguas e pela revolta activa. Pela força da palavra apartidária. O que, temo, levará ainda muitos anos até produzir efeitos. Resta-nos não deixar cair a voz da denúncia dessas ilegalidades e ter esperança.


Cumprimentos,


terça-feira, 11 de setembro de 2012

carta aberta ao primeiro-ministro

 


 


 


Encontrei-a aqui.


 


 


Exmo. Senhor Primeiro Ministro.


Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.


Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.


Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.


A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado “The Garden Party”: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos.

Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. 

Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter,para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.


Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14.º andar, explicava, a desolação que se contempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa. e do seu robótico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.


Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes  termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.


Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.

 


De V. Exa., atentamente,

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 18 de julho de 2012

digam-me que isto não está a acontecer

 


 


 


 


Este email vem identificado e só não escrevo o nome da autora para não a expor mais.


 


Olá Paulo!

Espero não o incomodar com este mail, mas é do género "é agora ou nunca". Estava eu há pouco nos profslusos e espreitei outros blogs sobre educação e novidades e desgraças para os contratados e até que vi a sua página sobre avaliação do desempenho docente. Este tema desde julho passado que me faz arrepiar!

Sou professora contratada numa escola TEIP no grupo 400- História e tive no ano passado como avaliador um prof. de Geografia que é o Coordenador de Departamento. Eu e mais duas colegas do meu grupo.

Como nos 2 anos anteriores estive a dar aulas na Madeira, a avaliação era algo quase desconhecido para mim. Lá fiz o meu relatoriozinho com todas as evidências a que tive direito e, como não tive um ano nada fácil, por motivos de saúde fui operada e tive um irmão com cancro em estado terminal que como sabe quem por lá passa não é fácil... com os antidepressivos para aguentar os filhos, os alunos PIEF, e a dor de ver alguém tão amado a sofrer e apoiar os meus pais que perdiam o seu 2º filho, etc...

No dia da fatídica entrevista com o colega, este começou por me saudar dizendo, e estas são frases que no meio da incredulidade e humilhação consegui reter na minha memória: " Olha ...a minha impressão é a de que te andaste a arrastar o ano todo, Penso que não deste o teu melhor...Queixavas-te imenso dos teus alunos PIEF...Vi-te muitas vezes sentada no sofá enquanto as tuas colegas estavam no computador... Durante os conselhos de turma achei que alteraste algumas notas de forma um tanto ao quanto leviana e sem mostrares o rigor necessário... Não realizaste nenhuma visita de estudo nem fazes parte de nenhum clube...foste a única que ao longo do ano me pediste para sair mais cedo de uma reunião de departamento (para ir a um velório,  reunião pós-laboral que já durava há mais de 2 horas na qual pedi logo no início), ...E, também, no dia da entrega do relatório de auto avaliação foste a última a entregar!" (bom...alguém tinha de ser o último!!)  A conversa seguia nestes moldes quando eu finalmente consegui balbuciar " Olha para que estás com esses ataques eu nem sequer pedi aulas assistidas...não está em causa a minha  nota devido às cotas aqui da escola !" Ao que ele me respondeu:" Olha, não vás por aí porque pelo que eu me andei a informar sobre as tuas aulas, elas até nem eram grande coisa!" ......As acusações continuaram com argumentações mesquinhas que nunca imaginei um colega de trabalho ser capaz. Ainda me "compensou" dizendo que estava a ter em conta a minha situação e a morte do meu irmão!

A sensação que tive foi de uma grande humilhação. Chorei por desespero e por pena de mim. Apresentou-me a pontuação de 7.1 valores. Mas não foi a pontuação, mas a forma que ele encontrou de me descartar. O facto é o seguinte: éramos 3 professoras e neste ano só haveria lugar para duas, sendo que a outra era novinha e disponível...e mais não digo! Meses antes uma colega veterana da escola perguntou-me quem era o meu avaliador ao que me respondeu "estás f.....porque ele só gosta de colegas novinhas..." Passei um mau bocado e sabe o pior? amanhã volto a ter entrevista com ele... é de novo o meu avaliador. Arrependo-me amargamente de não ter reclamado, fica comigo até ao juízo final! Desta vez vou reclamar e pedir todas as argumentações por escrito.

Desculpe o desabafo, pois já me sinto mais aliviada para encontrar a fera!

Um abraço!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

testemunhos

 


 


Este comentário da Ana Sousa deve ser lido com toda a atenção.


 


 


"Não me tenho cansado de deixar testemunhos das consequências dramáticas deste descalabro que estão a impor à escola pública nas caixas de comentários dos blogues que visito regularmente.

E esgotei. 
Esgotei a capacidade de sequer pensar na ruína das medidas, na incongruência dos números, na insensibilidade de quem põe a engrenagem a funcionar, rumo à destruição que se adivinha.

O que se tem vivido recentemente é só o prólogo de uma obra cujos capítulos, crescentes de intriga, começarão a ser escritos em Setembro, quando as salas de aula abarrotarem de personagens vivas, com boca, olhos e tudo, aos magotes de 30, para aprender com afinco os saberes estruturantes que as metas de aprendizagem definem como essenciais, a testar em exames rigorosos. 

Só a partir de Setembro poderemos aceder aos sucessivos capítulos desta espécie de epopeia surreal que começou há pouco a ser escrita e que, infelizmente, ficará para as gerações futuras como A DIVINA COMÉDIA… de Crato.

Entretanto, não dá para esquecer as lágrimas e o pesar dos colegas que, na passada sexta-feira 13, receberam o passaporte para umas férias de pesadelo, onde era suposto recuperarem forças e motivação para o seu vigésimo e tal, às vezes até trigésimo, ano de serviço e de investimento profissional. 
Mesmo que os repesquem no meio desse período, a deriva a que foram condenados em boa parte desse pseudo tempo de descanso já ninguém conseguirá apagar das suas memórias. E a desconfiança no desfecho da narrativa perdurará no seu espírito para sempre.

Resta-nos imaginar quantos serão os capítulos e quem escreverá o epílogo, pois que o enredo todos conhecemos."