terça-feira, 4 de março de 2008

sua excelência (4)



circulo.jpg







Sua Excelência adoptava o padrão da complexidade.


Era como se lhe tivessem explicado o mito de Sísifo de pernas para o ar: a pedra redonda desce num infinito movimento uniformemente acelerado, e, nunca mais sobe.

- Como o universo é curvo, dizia, o círculo é a forma geométrica da excelência.

O lema de Sua Excelência deixava perplexos os geómetras da sua instituição. Considerava-se um caso exemplar de eficiência: mantinha todos ocupados o tempo todo e nunca admitia o fim de um procedimento.


Encontrava sempre pequenos pormenores a serem corrigidos: nem que fosse pela cor da tinta da caneta. Tinha o decreto respectivo na ponta da língua e emoldurado na parede, atrás da sua cadeira.

A instituição que Sua Excelência chefiava, movimentava-se aparentemente e obedecia ao princípio zero da reinvenção. O veredicto de Sua Excelência era aguardado no mais temeroso e pálido silêncio e nada circulava sem passar por Sua Excelência.

Sua Excelência confundia-se com o conceito de fim: tinham-lhe falado no fim da história. Isso intrigava-o e desesperava-o: qual seria o seu lugar? Passava horas a ler as crónicas de história contemporânea, no semanário regional editado na sua pequena cidade, à procura de luz. Nunca a encontraria, desconfiava ele ao adormecer.







(Reedição. 1ª edição em 11 de Setembro de 2006.)


7 comentários:

  1. E nada circulava sem passar por Sua Excelência. :-) :-)cruz
    </a>
    (mailto:cruz@hotmail.com)

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  2. Obrigado, Realmente, leste com vontade de ler.Paulo G. Trilho Prudencio
    </a>
    (mailto:pgtrilho@netvisao.pt)

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  3. Obrigado, Realmente, leste com vontade de ler.Paulo G. Trilho Prudencio
    </a>
    (mailto:pgtrilho@netvisao.pt)

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  4. Bem trabalhado. Chamou-me à atenção o mesmo que ao cruz. Vai por aí, sff :-)António Jorge
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    (mailto:antjor@hotmail.pt)

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  5. Obrigado.Paulo G. Trilho Prudencio
    </a>
    (mailto:pgtrilho@netvisao.pt)

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  6. Essa coisa da complexidade para mim é assim:
    Os problemas não devem ser simplificados, pois isso é ignorar a realidade. A representação de um problema deve ser suficientemente complexa para dar conta das variáveis mais relevantes, mas deve ser suficientemente simples para produzir inteligibilidade.
    A solução é que deve ser o mais simples possível e não ainda mais complexa do que o problema.

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  7. Subscrevo. Mas isso dá mesmo muito trabalho. "A solução é que deve ser o mais simples possível e não ainda mais complexa do que o problema". Isso, mesmo isso. Abraço.

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