Mia Couto é o escritor que se sabe. Estou-lhe ligado por um factor determinante: depois de muitos anos afastado fisicamente da minha pátria de nascimento, regressei muitas vezes a "casa" através da sua escrita. Mia Couto escreve muito bem e retrata como ninguém as idiossincrasias moçambicanas.
Já o conhecia de Moçambique, embora ele seja um pouco mais velho do que eu: 4 anos, coisa pouca. Mas na adolescência fazia muita diferença. Mia Couto era um jornalista de intervenção, digamos assim. Voltei a lê-lo, como escritor, a partir de 1987.
Hoje peguei no "Pensatempos". Coisa para ler numa tarde, já que o livro é naquele jeito de junção de crónicas já publicadas.
E dei com uma pérola que não resisto a contar-lhe.
Ora leia:
"Vou contar-vos um episódio curioso que envolve uma senhora africana chamada Honória Bailor-Caulker num momento em que ela visitava os Estados Unidos da América. Dona Honória Bailor-Caulker é presidente da câmara da vila costeira de Shenge, em Serra Leoa. A vila é pequena mas carregada de História. Dali partiram escravos, aos milhares, que atravessavam o Atlântico e trabalhavam nas plantações americanas de cana-de-açúcar.
Dona Honória foi convidada para discursar nos Estados Unidos da América. Perante uma distinta assembleia a senhora subiu ao pódio e fez questão de exibir os seus dotes vocais. Cantou, para espanto dos presentes, o hino religioso Amazing Grace. No final, Honória Bailor-Caulker deixou pesar um silêncio. Aos olhos dos americanos parecia que a senhora tinha perdido o fio à meada. Mas ela retomou o discurso e disse: quem compôs este hino foi um filho da escravatura, um descendente de uma família que saiu da minha pequena vila de Shenge.
Foi como que um golpe mágico, e o auditório se repartiu entre lágrimas e aplausos. De pé, talvez movidos por uma mistura de sentimento solidário e alguma má consciência, os presentes ergueram-se para aclamar Honória.
- Aplaudem-me como descendente de escravos?, perguntou ela aos que a escutavam.
A resposta foi um eloquente "sim". Aquela mulher negra representava, afinal, o sofrimento de milhões de escravos a quem a América devia tanto.
- Pois eu, disse Honória, não sou uma descendente de escravos. Nem eu nem o autor do hino. Somos, sim, descendentes de vendedores de escravos. Meus bisavós enriqueceram vendendo escravos".
Quer ouvir o belo Amazing Grace?
Ora clique.
Òlà Paulo como està?Venho de ouvir Madame Honòria, o que me tràz recordadaçôes éramos 4 Canadianos,sentàdos no châo na noite de natàl,no meio de 2000 Carameronaises,nâo sou religioso,mas tinham-nos dito para ir vêr,porque numca mais iamos esquéçêr. Antes de começàr a missa deu um pequeno espéctàculo,depois foi a missa como tàl,minutos depois ,de repente a vòz de 2000 mil pessoas a cantàr ainda hoje ,sinto um arrepio...jà voltei da cidàde de Québec,onde vi espétàculos,que pòsso pensàr que serâo ràros.O jàzz é sempre o rei da musica,foi homanageàdo vàrios jàzz man desaparecidos,trouxe vàrias fòtos,e algumas d'Àfrica vou-lhes enviàr pour duas para nâo lhe ocupàr todo o computer.Um abràço Manny
ResponderEliminarOlá meu caro Manny.
ResponderEliminarImagino a grandeza do que acaba de nos contar. Até sinto os seus arrepios....
Que sorte a sua ter o privilégio de assistir a jazz desse nível. Aguardo essas fotos que publicarei com todo o gosto. O meu email está no topo do blogue mesmo por baixo do nome. correntes.
Muito obrigado e um grande abraço.
Este Post está um espectáculo do principio ao fim! A histórias do Mia são mesmo de quem escreve "histórias abensonhadas "
ResponderEliminarAbraço
How sweet that sounds!....
ResponderEliminarAdmiradora incondicional de Mia Couto e da sua obra, não deixo de me deliciar com este post...sensível e oportuno (como sempre).
Obrigado. É mesmo isso: O Mia Couto tem histórias muito abensonhadas :) Esse livro também tem passagens fenomenais.
ResponderEliminarObrigado de novo. Abraço. Já lá vou ao "conteúdos".
Muito obrigado. Sons doces, isso. Um abraço e obrigado por passar e por comentar. Já lá vou ao d. quixote :)
ResponderEliminarObrigado pelo Amazing Grace.
ResponderEliminarConheço esse texto do Mia, mas não tinha ainda pensado no cântico em causa.
D. Honória veio precisamente lembrar que a maior parte dos africanos que foram vendidos para a América foram vendidos por outros africanos: África também merece um pedido de desculpas dela própria.
É isso mesmo meu caro Luís.
ResponderEliminarPor incrível que possa parecer, Àfrica também merece uma desculpa dela própria: e é uma grande lição para todos.
Abraço e obrigado.