domingo, 1 de novembro de 2009

das bandeiras/parte I

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(Este texto foi escrito em Junho de 2004. Resolvi reescrevê-lo e reeditá-lo. Talvez se percebam as razões).


 


 


 


Passei uma tarde encantadora. Foi um descanso merecido para um corpo que vai aturando maçaduras diversas. O dia solarengo ajudou, a cadeira de jardim encorpou-se de vez e as leituras estavam a condizer. Se a perfeição existe eu estive lá perto. Foram momentos de um prazer indizível. Argumentei-me em cadeia e fiz sínteses que me elevaram as motivações. Tenho tardes assim. Mas hoje, uma das leituras fez-me viajar para muito longe das letras que os meus olhos percorriam. Até vos vou citar o parágrafo, não agora, mas talvez só na segunda parte desta história. Fiz uma visita à minha memória. Um dos meus exercícios predilectos, pois não obedece a muitas formalidades nem aos necessários - para outros tipos de visitas, é claro - pormenores protocolares. A meu gosto. Entro por ali adentro, pesquiso à minha vontade e o tempo que eu quiser, realço o que mais me interessa, embora, e vezes sem conta, tropece em acontecimentos menos agradáveis.

Foi hoje o caso. Lembrei-me do meu serviço militar. Vinte e poucos anos, muito poucos mesmo: tinha zero tiros no meu currículo. De uma hora para a outra rapam-me os caracóis, enchem-me de fardas e de sei lá mais o quê e dizem-me: vais ser comando. A honra suprema de um jovem português. Chamavam-me de Prudêncio, o meu último nome, coisa que até aí me parecia exclusivo do meu pai. Fui obrigado a fazer uma tropa de voluntários com detalhes engraçados: perguntavam-me:  - és voluntário?; respondia: - não. Mas nos papéis punham a cruz no sim e quando mais refilasse pior: aprendi rápido e sentenciei:  - se tem de ser, vamos a isso.

Depois foi aquilo que se sabe. Mesmo com uma estrela aos ombros, já que ali éramos todos iguais, valha-lhes isso, –a dureza e a brutalidade diárias sucederam-se até o horror se instalar. Lembro-me, entre tantas outras coisas horrendas, de saborear um naco de pão duro barrado com pelos da barba e sangue. Ou então, de me deitar em terrenos cravejados de balas que tinham acabado de cair. Violência acumulada em meses e meses sem fim. Valeu-me a ausência da guerra. Não sei o que faria dos “inimigos”.

Como eu quero compreender os jovens que lutam no Iraque. Humanos que são, jamais quererão ouvir o nome do palco do único e infeliz dos teatros: o das operações militares.

Da parte que me toca, nunca mais "perdoarei", nem à Amadora nem a Santa Margarida, pelo facto de terem sido os solos dos meus horrores.

6 comentários:

  1. O primeiro parágrafo é uma hipérbole magistral: a tarde perfeita de um corpo já com "maçaduras", o "encorpar da cadeira de jardim", o argumento da horizontalidade. Dessa tarde prazeirenta o narrador é conduzido pela memória a um tempo em que a perfeição não estava ainda na cadeira de jardim. É um pouco do tempo perdido da juventude, essoutro dele próprio que foi o jovem comando. Tudo não passou dum faiscar da memória que sobrepõe o sofrimento passado ao aprazível presente da idade madura. Falta-nos mais dessa memória para compreender o discurso: a descrição, o detalhe e a crítica do sofrimento mais ou menos inútil do treino dos comandos.Luis Filipe Redes
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    (mailto:luis.filipe.redes@netvisao.pt)

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  2. Obrigado Luís, mesmo que 4 anos depois... Abraço.

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  3. pronúncia do norte1 de junho de 2008 às 20:47


    Essa nostalgia toda deve-se ao dia da criança? Ou à falta delas em casa?
    Texto bonito.

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  4. Obrigado. Este texto foi escrito em 2004 e já não me lembro do estado de espírito. Mas achei piada. Obrigado de novo. Abraço.

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  5. O primeiro parágrafo está brilhante. O texto é comovente.

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  6. Ganda texto Paulo. Ao ler isto "Foi um descanso merecido para um corpo que vai aturando maçaduras diversas. O dia solarengo ajudou, a cadeira de jardim encorpou-se de vez e as leituras estavam a condizer." vi o momento.

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