Só quem se distrai com facilidade pode acusar os professores portugueses de remeterem as causas da sua luta para as questões salariais. Bem sei que os tempos são o que são, que não se vive do ar e que o acordo financeiro entre os sindicatos e o governo tem como pano de fundo um leve desassossego material.
Noutro dia, um economista da área do bloco central, talvez mais do PSD e cujo nome não me recordo por agora, atirou-se sem contraditório à massa salarial dos professores responsabilizando-a pelo défice orçamental actual. Fiquei estupefacto. Em dois ou três anos o dito passou de 2,8 para 8 ou 9 e, nesse período, os professores viram as suas carreiras congeladas. Mas mais: "o volume salarial da função pública passou de três por cento do produto interno bruto para menos de dois".
Por aí o caminho é difícil mas já o foi mais, por incrível que pareça. Estamos melhor do que há quatro anos.
O que me preocupa nesta fase é a inexistência de interlocutores que discutam, e que decidam, sobre o muro de má burocracia que asfixia a possibilidade do ensino e que associado aos desígnios da OCDE afoga o poder democrático das escolas. E escrevo-o com a mais firme convicção: a mesa de negociação está preenchida por interesses que ficam à porta das salas de aula.
ResponderEliminar"a mesa de negociação está preenchida por interesses que ficam à porta das salas de aula."
Excelente.
Nem mais.
ResponderEliminar"A «revolução conservadora» tinha graça há duas décadas quando valia a pena construir o edifício. Hoje, ele está deficiente. Em primeiro lugar, chamem os professores. Os professores-professores — não os técnicos em Ciências da Educação que não dão aulas há vinte anos. Chamem os professores que contactam com os alunos, que dão aulas, que passam pelos corredores e sabem do que se fala quando se fala de educação. A tentação da reforma a todo o custo cria vítima insuspeitas; para legislar sobre o «modelo de avaliação dos professores» a primeira coisa que fizeram foi afastar os professores. Não queiram fazer a reforma curricular afastando-os de novo. Basta ouvir, tomar notas, recolher histórias reais. Isto não são os cientistas da pedagogia que o podem fazer; eles não têm histórias reais para contar — aliás, lendo o que eles escrevem nas introduções aos programas escolares e nos materiais ideológicos produzidos pelo Ministério da Educação, até é legítimo supor que não falam Português."
Ele(s) não nos quere(m) deixar comprar "umas calças brancas"...
ResponderEliminar( ) sérgio