Mas que grande confusão. Só nos faltava mais isto. O modo como se atropela e desrespeita o nosso sistema escolar é mesmo de bradar aos céus. Vivemos num sistema sem um rumo claro e onde se determina com uma autoridade conferida por sabe-se lá quem; a cultura do atrevimento generaliza-se, digamos assim. Já não bastava a mediatizada "parque escolar" ser questionada por uma série de coisas, com saliência para a oportunidade em desenvolver nesta altura um programa com elevada incidência financeira, fica-se agora a saber que os arquitectos (arquitectos mesmo) copiaram uma ideia holandesa que se inspirou na velha escola pedocentrista (considerada de desequilíbrio na relação pedagógica) de montessori (Maria Montessori 1870), que se integrou na corrente da escola moderna (início do século XX), e que resultados tão desastrosos pode provocar se for aplicada como é referido aqui ou aqui.
Antes da análise detalhada para um registo de blogue, convém enunciar um pressuposto: se as ideias da "parque escolar" fossem aplicadas num investimento privado seria lá com eles; mas pegaram num investimento público deste montante e deram largas a coisas como as que pode ler a seguir; e isso é um exercício demasiado atrevido para não nos beliscarmos. Generalizam-no sem testagem por amostra, afinal a política obstinada que desgovernou o sistema escolar nos últimos anos. Nos casos da avaliação de professores ou do estatuto da carreira, por exemplo, os resultados são a desgraça que se conhece.
As novas escolas querem mudar o ensino em Portugal
"A sala de aula já não é o espaço mais importante da escola, acredita a Parque Escolar. A arquitectura poderá transformar o ensino?(...)"
Leu bem. A parque escolar decretou a subalternização das salas de aula. Ponto final. Se isso não acontecer, já conhecem os responsáveis: os professores.
"(...)Uma escola descentrada da sala de aula, em que os alunos se espalham por espaços informais, com os seus computadores portáteis, cruzando-se com os professores na biblioteca e discutindo projectos - é esta a visão que a Parque Escolar tem para o ensino em Portugal.(...)"
Ou seja, o pior do discurso bem-pensante do eduquês: o espaço escolar (e não a escola) destina-se à informalidade, ao entretenimento e à aprendizagem. O ensino fica arrecadado na memória dos desfasados da pós-modernidade.
"(...)A modernização das escolas anunciada pelo Governo de José Sócrates não é apenas um projecto em que as velhas escolas, com a pintura a cair e janelas que não fecham, passam a ter um novo rosto. A ideia é aproveitar as obras - e o ano escolar que agora termina foi de esforço para as escolas, obrigadas a trabalhar no meio de máquinas, e poeira - para modernizar também a concepção do ensino.(...)"
É o que sempre se temeu: este governo não se limita à organização do sistema, tem para nos oferecer uma nova concepção de ensino com pelo menos um século de existência. Só que desta vez recorre aos gadgets das tecnologias como outrora se sonhou com a construção do homem novo.
E quando se questiona exactamente o que está a mudar é que nos confrontamos com ideias de quem só conhece a capital (que deixou degradar durante 20 anos o seu parque escolar porque quem exerceu cargos políticos como profissão exclusiva, e de uma ponta à outra no espectro partidário, optou pelo ensino privado para os seus filhos e não "viu" o que acontecia à escola pública).
Veja-se.
"(...)Num modelo muito inspirado em experiências de países como a Finlândia ou a Holanda, a Parque Escolar propõe uma escola com espaços mais informais (é o conceito da learningstreet, ver texto nestas páginas), locais para pequenas exposições de trabalhos e, acima de tudo, uma biblioteca, que passa a assumir um lugar central, com jornais, revistas, computadores, Internet. No caso dos liceus antigos, mantém-se por vezes a biblioteca original como "memória histórica" e espaço mais formal, e cria-se uma nova.
A biblioteca deve ser um "espaço aberto à comunidade": juntas de freguesia ou outras entidades poderão usá-las para iniciativas abertas ao exterior. Os novos pavilhões gimnodesportivos e salas polivalentes podem ser cedidos ou alugados pela escola, que se abre ao bairro e pode ter fontes de rendimento alternativas. "A ideia é levar a escola para fora dos seus limites físicos, trazendo para dentro as pessoas de fora", explica Teresa Heitor. Em muitos casos pretende-se ainda instalar um Centro de Novas Oportunidades.(...)"
O país está repleto, e bem, pela rede de bibliotecas escolares e municipais desde o século passado. As bibliotecas escolares são há muito o que aqui se desenha. Só não são mais abertas às comunidades porque os clientes usam, e bem, a rede municipal. Estas políticas fazem recordar os tempos dos três e quatro pavilhões desportivos por avenida ou da desmultiplicação das piscinas municipais de tamanho desmesurado e insustentável.
Há mais exemplos como os enunciados. Até a ideia de alugar os pavilhões desportivos escolares às comunidades é apresentada como solução inovadora. Francamente. Há mais de 30 anos que o país conhece essa realidade.
A peça jornalística insere também, e obviamente, um depoimento de quem parece alertar para a sensatez. Tardiamente.
"(...)Será este programa ambicioso de mais sobretudo quando é preciso adaptá-lo a edifícios antigos? "A arquitectura está relacionada com a vida, tem que servir a vida, não é a vida que vai servir a arquitectura", defende Michel Toussaint, vice-presidente da secção regional sul da Ordem dos Arquitectos e professor de arquitectura na Universidade Técnica de Lisboa. "A questão patrimonial tem os seus limites, [senão] o edifício transforma-se num museu, ou então abandona-se e vai-se para outro lado. Se estamos perante um conjunto patrimonial, ele tem que ser conservado, sem dúvida, mas a forma de o conservar é também habitá-lo. A arquitectura não tem sentido se não for habitada. As escolas têm que continuar a ser escolas."
Quanto à concepção dos espaços de ensino, Toussaint lembra que um país como a Holanda, por exemplo, "tem uma tradição de experimentalismo na arquitectura, e isso tem muito a ver com a própria sociedade". Em Portugal "há outras tradições de ensino, outras condições financeiras, de organização social, de eficácia administrativa e até de experiência arquitectónica". Pode não ser fácil transferir experiências de outros países.(...)"
(1ª edição em 6 de Junho de 2010)
Paulo, meti um comentário duas vezes e não aparece? Podes ver o que se passa?
ResponderEliminarJá escrevi um comentário, vi-o lá e agora desapareceu. O que se passa?
ResponderEliminarTambém me aconteceu o mesmo e vi-o entrado.
ResponderEliminarViva Isabel, Susana e Rodrigo.
ResponderEliminarNão sei o que aconteceu. Peço desculpa. Já fui ver à pagina de gestão e não está lá nada pendurado. Não sei mesmo. Já enviei um mail para o Sapo. Vamos ver.
Que eu saiba isto nunca tinha acontecido.
Sabotagem da Parque Escolar?
ResponderEliminarÀs tantas
ResponderEliminarFuturamente o parque escolar será construído por catálogo: queremos uma escola tipo Rousseau ou tipo Pestalozzi ..., e porque não tipo Milú!
ResponderEliminar"A parque escolar decretou a subalternização das salas de aula".
ResponderEliminarNão me preocuparia com esta coisa do decreto, Paulo, como explico no meu cantinho.
Mudando de assunto: os teus amarelinhos jogam hoje. Quero assistir pelo menos a uma parte...
Viva Miguel.
ResponderEliminarClaro. Tensa razão. Mas a concepção das bilbliotecas fica e o dinheiro não é assim tanto para desperdícios destes.
Ver se me aguento para o jogo 2. Estamos em boa forma. Depende uma bocado do joelho do Bynum, embora o Gasol esteja agora muito mais agressivo do que em 2008, o Artest ajuda muito e o banco está tb mais efectivo. Por outro lado, o Garnet está um bocado desgastado. Se vencermos hoje...
Essa já está com o flagelo a tempo inteiro.
ResponderEliminarEste país está alucinado e nas mãos de oportunistas. Não são todos, mas os que existem têm influência.
ResponderEliminarAs escolas deviam ser modificadas de acordo com as práticas escolares dominantes. Deviam inquirir as próprias escolas e os professores...
ResponderEliminarContinuamos a ter um sistema em que se formam turmas e se fazem horários para tempos individuais de aulas e para os professores, a nível nacional. As excepções a este modelo devem ser poucas. Apenas conheço uma - a escola da ponte.
A arquitectura não deve condicionar as práticas pedagógicas. O arquitecto tem de obedecer às funções exigidas.
Acho que é de facto um abuso do poder arquitectónico.
"Caros,Antes de mais, deixem-me referir que sou Arquitecto de formação.E, por muito interessante e vanguardista que seja o programa recentemente adoptado para a concepção do novo Parque Escolar, não funcionará num país como o nosso. Tal como resultaram frustradas outras tentativas de aplicação em Portugal de modelos concebidos em países Nórdicos. Com graus culturais, formação e ideossincrasias diametralmente opostas. Infelizmente, este é mais um triste exemplo do eterno hábito, muito nacional, pacóvio e facilistista, de importar "tout cour" conceitos da Europa do Norte.Até os projectos-tipo para térmica e acústica são formatados para o rigoros clima nórdico. Um rematado disparate. À custa do dinheiro de todos. Uma vez mais sem a prévia consulta pública que a matéria em causa exigiria.Voltamos a assistir ao uso dos nossos filhos como cobaias. Impunemente. Quando seremos capazes de nos unirmos para dizer basta? Quando?!Cumprimentos,NSP"
ResponderEliminarVejam o exemplo do Complexo Escolar dos Arcos de Óbidos
ResponderEliminar- Antes da inauguração:
"O complexo dos Arcos irá ser a nova referência do ensino no concelho de Óbidos, para alem de ser uma escola "multimédia" é inspirada nas construções do mesmo âmbito do norte da Europa. Óbidos, 06 de Setembro de 2008". (TEXTO) MARIO CALDEIRA / LUSA.
- Depois, começaram os problemas de adaptação ao espaço físico do edifício:
"...A nova escola no complexo dos Arcos foi inaugurada como uma escola modelo, mas muitos tem sido os problemas de funcionamento.
Quadros modernos, mas quase sempre avariados, falta de insonorização nas salas de aula, falta de cortinas ou estores nas janelas, espaço de recreio muito reduzido para o numero de alunos, e ainda os problemas de adaptação das crianças a uma escola com uma diferença etária significativa...!!!" (texto) Óbidos do Reporter X
Li ontem esta reportagem. Muito bem Paulo.
ResponderEliminarback to basic...
ResponderEliminarà sala de aula.....
eles não sabem nem sonham.......
Abraço amigo,
NB
Oh meu caro Nicolau.
ResponderEliminarConcordo, mas como na história. Nada se repete exactamente. Terá de ser uma basic mais alargado
Abraço amigo tb.
Um basic, claro
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