segunda-feira, 4 de março de 2013

as marchas do silêncio

 


 


 


Passei o 2 de Março nas Caldas da Rainha, mas vou lendo que o silêncio marcou as grandes manifestações em Lisboa e no Porto. Dá ideia que as pessoas caminhavam desesperançadas e que carregavam o desânimo. Mais do que contar quantos eram (ninguém duvidará que foi uma manifestação histórica), importa que quem governa escute o silêncio antes que expluda o funil da civilidade.


 


 


2 comentários:

  1. «Poema à boca fechada (José Saramago)

    Não direi:
    Que o silêncio me sufoca e amordaça.
    Calado estou, calado ficarei,
    Pois que a língua que falo é de outra raça.

    Palavras consumidas se acumulam,
    Se represam, cisterna de águas mortas,
    Ácidas mágoas em limos transformadas,
    Vaza de fundo em que há raízes tortas.

    Não direi:
    Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
    Palavras que não digam quanto sei
    Neste retiro em que me não conhecem.

    Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
    Nem só animais bóiam, mortos, medos,
    Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
    No negro poço de onde sobem dedos.

    Só direi,
    Crispadamente recolhido e mudo,
    Que quem se cala quando me calei
    Não poderá morrer sem dizer tudo.»


    É importante que aqueles que tentam ignorar ou desvalorizar os milhares de silenciosos que se manifestaram em Lisboa acreditem que o seu silêncio produz muitos decibéis de ruído, pois quem assim se cala, como deliberadamente fizeram, não poderá morrer sem dizer tudo.

    ResponderEliminar