quarta-feira, 16 de setembro de 2015

a carta

 


 


 


Antes de lhe sugerir, caro leitor, que leia a carta (publicada pelo Público de 16 de Setembro de 2015) que Passos Coelho escreveu, em 2011, a Sócrates a pedir a troika, recordo um post que escrevi em tempos sobre um filme e uma carta:


 



"Querem ver que vai ler a carta toda". Levantou-se e saiu.


 


A cena passou-se no saudoso cinema King, em Lisboa, ao fim da primeira hora (mais ou menos, claro) de exibição do belo filme "A carta" de Manoel de Oliveira. Éramos uma dezena de espectadores e já estávamos reduzidos a metade. 


 


Confesso que não aprecio comentários dos espectadores nas salas de cinema, mas este foi inesquecível. Uma freira recebeu uma carta no seu quarto no convento, há uns minutos que a câmara nos dava um plano inamovível, a carta tinha umas quantas folhas e o saturado espectador tinha razão: leu a carta toda.



 


 Mas vamos então à carta que esclarece definitivamente o assunto:



 


Confidencial


Gabinete do presidente


Senhor primeiro ministro


“Recebi hoje informação, da parte do senhor Governador do Banco de Portugal, de que o nosso sistema financeiro não se encontra, por si só, em condições de garantir o apoio necessário para que o Estado português assegure as suas responsabilidades externas em matéria de pagamentos durante os meses mais imediatos. Ainda esta manhã o senhor Presidente da Associação Portuguesa de Bancos transmitiu-me idêntica informação.


Estes factos não podem deixar de motivar a minha profunda preocupação.


Não desconheço que o Governo tem repetidamente afirmado que Portugal não necessitará de recorrer a qualquer mecanismo de ajuda externa e é certo que a competência pela gestão das responsabilidades financeiras do país cabe por inteiro ao Governo.


Não disponho de informação sobre as acções e diligências que o Executivo estará a desenvolver para assegurar o cumprimento dessas obrigações. Porém, é do conhecimento público a situação do mercado que a República vem defrontando, desde há vários meses a esta parte, bem como o facto de o sistema bancário se encontrar sem acesso ao mercado desde há mais de um ano.


Atenta a especial sensibilidade desta matéria e as gravíssimas consequências que decorriam para o nosso país de qualquer eventual risco de incumprimento, é essencial que o Governo garanta, com toda a segurança e atempadamente, adopção das medidas indispensáveis para evitar tal risco.


Nestas circunstâncias, entendo ser meu dever levar ao seu conhecimento que, se essa vier a ser a decisão do Governo, o Partido Social Democrata não deixará de apoiar o recurso aos mecanismos financeiros externos, nomeadamente em matéria de facilidade de crédito para apoio à balança de pagamentos.


Considerando a extrema relevância desta matéria, informo ainda que darei conhecimento desta carta confidencial ao senhor Presidente da República.


Com os cumprimentos,


[assinatura]


Pedro Passos Coelho


Lisboa, 31 de Março de 2011


 


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