Espera-se decência e que não descolem da realidade. Os governantes da última década deixavam perplexas, tal o grau de manipulação, as pessoas minimamente informadas. O elenco governativo já conhecido parece receber boas opiniões. É evidente que uma década de queda acentuada requer tempo para reerguer o essencial, mas é fundamental que a sociedade perceba uma firme vontade de mudar.
Cavaco Silva syrizou e seguiu o tortuoso guião. Reconheça-se a perseverança, e a coragem, de António Costa e os méritos de Catarina e Jerónimo. Abrem-se crises nos partidos da direita. A radicalização foi penalizada e até Merkel a dispensa na imprescindível nova fase europeia; espera-se.
Post editado no facebook há cerca de uma hora com base nesta notícia do Público.
Prefiro continuar a pensar que Cavaco Silva syrizou e que estas coreografias servem para que também os "seus" não lhe apontem a porta mínima. A opção de dar tempo aos "seus" para fotocópias, varridelas para debaixo das carpetes e últimos jobs, é demasiado antipatriota para um PR; como seria também impensável que Cavaco Silva "desse tempo" a António Costa para conseguir um melhor acordo com os partidos à sua esquerda; afinal, um Governo em plenas funções é importante para a economia.
RAFAEL MARCHANTE / LUSA
A Grécia marcou umas legislativas recentemente, houve campanha eleitoral e votação; três dias depois deram posse ao Governo. Por cá é o que se vê. O PR fala em crise política. Qual crise? Onde é que a democracia não está a funcionar? Parece que a muito custo Cavaco Silva lá se decidiu a ouvir todos os presidentes das juntas de freguesia, mas com duas condições: audiências mínimas de uma hora e não mais do que três por dia.
"Funções governativas também significam 4000 empregos; são a prazo, mas bem remunerados e com bons contactos. A crispação é mais acentuada em quem sai e os chefes fazem o seu papel", disse um politólogo na TSF. Não fixei o nome, mas percebi que tinha um doutoramento em oligarquias.
O Shakespeare estava numa agitação incomum. O meu vizinho, o dono, esclareceu-me: o PAN reivindicou, em pleno momento histórico, alterações na dedução em IRS e o Shakespeare, um pastor alemão, parece que intuiu que vai ter mais biscoitos. É espantoso. Fui ver os partidos que ficaram atrás do PAN e dei com o Livre, Marinho e Pinto, Garcia Pereira e por aí fora. O povo é sábio e, afinal, de extremos a votar. Se a história relatada é, no mínimo, estranha, já a solução governativa que se desenha é histórica e podia ter sido simplificada; mas não seria a mesma coisa, realmente.
"A despesa com as cooperativas de ensino foi, nestes quatro anos, de 600 milhões. Inferior aos 900 milhões de 2007 a 2011", disse ontem Passos Coelho no parlamento (considerou-as não-públicas; baralha-se). Não se pode dar crédito a estes números, mas parecem próximos do real. Os governos de Barroso e Santana Lopes alargaram repentinamente as cooperativas de ensino "ilegais", os de Sócrates tornaram o financiamento escandaloso e os de Passos e Portas assumiram, mais até nos bastidores, a ideia da livre concorrência escolar em benefício dos supostos privados. Veremos o que vai acontecer a partir de agora. Haverá pessoas das cooperativas "legais" que se sentem injustiçadas com o clima de suspeição generalizado. Compreende-se. Têm razão. Também há muitos defensores da escola pública perplexos com muito do que se tem passado nas instituições do Estado. A uns e a outros não resta alternativa: continuar a defender o que é justo.
Ouvi há pouco Passos Coelho, e terminada a campanha eleitoral, ser coerente: o seu Governo teve as limitações da troika mas executou as "transformações da sociedade". Ou seja, a "destruição criadora" fez do além da troika o seu programa.
Foi também hoje que li que Merkel, Schäuble e Dijsselbloem estão "preparados para trabalhar com qualquer Governo legítimo". Em 23 de Outubro de 2015 escrevi assim (com o risco de me citar): "Ao excluir o BE e a CDU de qualquer solução governativa (sabia que o desenho é um Governo PS com maioria parlamentar?), o PR conseguiu vários objectivos: reforçar a união à esquerda (até apelou a dissidentes para os anular de vez), fragilizar a candidatura de Marcelo R. Sousa e facilitar as mudanças nos partidos da PàF. Ontem disse tudo o que as suas hostes queriam ouvir, nomeadamente que a coligação à esquerda ainda é inconsistente (António Costa ajudou ao declarar que o acordo ainda não está assinado). Daqui por uma dezena de dias a esquerda terá tudo preparado, o PR não terá outro remédio e os seus já estarão preparados para a indigitação de António Costa. O PR, tal como a Merkel, syrizou?". Uns dias depois, o PR fez um discurso mais conciliador, prepara-se para indigitar um novo primeiro-ministro e terminar da melhor forma possível o seu mandato.
O anunciado "fim da mobilidade especial na administração pública" é um momento emocionante para milhares de pessoas. Os tempos são de tal ordem, que nem percebi se é o cinismo de Passos e Portas ou se é já o possível Governo das esquerdas. Por incrível que possa parecer, haverá medo que mudará de lado e regressará alguma decência à vida democrática das organizações.
Helmut Kohl chegou a chanceler na mesma situação de António Costa. A sua força partidária (CDU com CSU) foi segunda nas eleições, os vencedores (SPD mais FDP) governavam, Kohl quebrou o arco, escandalizou a Europa e formou Governo com o pequeno partido (FDP) da coligação vencedora. "Golpe de Estado" mais maquiavélico é difícil. Às tantas, a syrizada Merkel (que é do mesmo partido que Kohl, mas com escola na RDA) avisou Passos que era melhor amarrar o irrevogável na PàF enquanto encorajava António Costa (a sua CDU governa com o SPD de António Costa) e fazia um guião a Cavaco Silva. Não será por acaso que António Costa, tal como Kohl, começou por falar em derrubar muros. Afinal, não é a Alemanha quem decide?
Não é bonito ver socialistas à "pedrada". Resumindo: Costa leva com Sócrates, Vara, Grupo Lena, Freeport, PPP´s e afins e Assis e Seguro com tecnoforma, submarinos, Relvas, Maria de Belém e BES, Duarte Lima e BPN e por aí fora. Há esperança? Alguma. Desde logo se o próximo Governo for apoiado, pela primeira vez, por forças políticas exteriores a este arco da governação (os próprios teimam em mudar a designação para arco da corrupção). Há um dado adquirido no conflito socialista: a temida pasokização deu-se na prevalência da "corrente de Assis" que desapareceu com a primeira guinada ao centro da Nova Democracia.
Estamos desgraçados com a hipótese, bastou isso, de comunistas e bloquistas integrarem o Governo. Passei pelo Bairro Alto e dei com uma loja só de latas de sardinha. Havia pão e vinho, mas a predominância do metal impressionava. Mais abaixo encontrei corredores com estantes vazias que me recordaram uma visita a Bucareste no tempo de Ceausescu. Não entrei e segui. Voltei atrás para confirmar e fiquei mais descansado: era uma loja de mobiliário e decoração.
A direita está assustada com a possibilidade de um Governo de esquerda correr bem. Há uma natural insatisfação com o não governo do vencedor eleitoral, mas percebe-se o temor com a severidade do julgamento histórico. A direita aproveitou a presença da troika para se radicalizar e isso será imperdoável. Para além disso, sempre que não se está seguro do valor da obra, mesmo com a aparência ilusória de um ou outro indicador, cresce a desorientação com a possibilidade da sucessão negar "o que se seguirá bom de mim fará".
Há sinais da existência de truques orçamentais, e derrapagens financeiras afins, que vão "exigir" que um novo Governo use a coreografia habitual do desconhecimento e execute os conhecidos cortes nos do costume. Lá acordará o "Compromisso Portugal" com apelos a reformas "estruturais" de mais do mesmo e lá aparecerão banqueiros a dizer que assim não aguentam. Espera-se, e como desta vez o arco da governação inclui, finalmente e bem, todo o parlamento com excepção do defensor dos animais, que se diga a verdade e não se goze com a paciência das pessoas.
O novo ministro da Administração Interna (mesmo que por uns dias) confirmou a aptidão moral de Ricardo Salgado para continuar à frente do BES com um parecer a propósito da prenda de milhões do cliente do BESA José Guilherme. Não é caso único a nomeação de ministros nesta condição, mas é grave para a saúde da democracia. Alastra-se e transporta um sentimento de impunidade: aguentamos com estes casos; é uma espécie de esquecimento que acentua o vale tudo. Não pode ser. Andamos a tropeçar em coisas assim. Um dia isto bate mesmo no fundo.
PS: voltei a publicar este post porque o apaguei sem querer; ficou a zeros nos comentários e peço as minhas desculpas.
Está difícil a hermenêutica do voto. Há décadas que se repete a sageza dos eleitores portugueses, mas desta vez evidenciam-se os fenómenos de rejeição: o fim da maioria absoluta à direita, a não vitória do PS, a impossibilidade do bloco central ou até do arco da governação (nessas hipóteses, o PSD ou o PS podiam "desaparecer" a seguir) e o Governo sem o partido vencedor. Pode ser que o último fenómeno traga alguma novidade, uma vez que será um exercício de alto risco. Terá sido essa a decisão da sabedoria popular? Colocar o PS ao centro, "excluir" uma direita que se radicalizou e obrigar a esquerda a, finalmente, governar?
Ao excluir o BE e a CDU de qualquer solução governativa (sabia que o desenho é um Governo PS com maioria parlamentar?), o PR conseguiu vários objectivos: reforçar a união à esquerda (até apelou a dissidentes para os anular de vez), fragilizar a candidatura de Marcelo R. Sousa e facilitar as mudanças nos partidos da PàF. Ontem disse tudo o que as suas hostes queriam ouvir, nomeadamente que a coligação à esquerda ainda é inconsistente (António Costa ajudou ao declarar que o acordo ainda não está assinado). Daqui por uma dezena de dias a esquerda terá tudo preparado, o PR não terá outro remédio e os seus já estarão preparados para a indigitação de António Costa. O PR, tal como a Merkel, syrizou?
Cavaco Silva usou como argumento a tradição da democracia portuguesa (é um tradicionalista petrificado) indigitou Passos Coelho e passou o "problema" para o parlamento. Até aqui tudo normal. Mas nas suas declarações discriminou o BE e a CDU, excluindo-os da democracia, e afirmou, ao que percebi, que não dará posse a um Governo apoiado pela maioria de esquerda. Sabia-se que o PR entende o seu exercício como coisa de facção, mas era impensável que terminasse essas funções públicas com uma exibição de parcialidade tão grave e lamentável.