sexta-feira, 18 de abril de 2025

O país desistiu do professor e abriu as portas a pequenos tiranetes

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Pelo Público em 18 de Abril de 2025. O texto tem 3 ligações. Exige a leitura na edição do Público ou no blogue. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título: O país desistiu do professor e abriu as portas a pequenos tiranetes


Texto:


Apesar de na primeira impressão se poder considerar uma conclusão simplista para um problema complexo, o país desistiu do professor quando mudou o poder escolar do professor, regulado pelo poder público, para o poder escolar dos partidos políticos, regulado pelos próprios. De facto, a desistência do país no professor iniciou-se na primeira década do milénio e teve consequências na perda de atractividade da profissão e na abertura de portas a pequenos tiranetes nas escolas.


Duas questões prévias:


1. Os partidos políticos são essenciais à democracia. O seu poder exige uma regulação célere e eficaz nas administrações central, regional e local (também nos descentralizados municípios, onde se dilui parte do poder escolar). Na verdade, o poder partidário tornou-se paulatinamente hegemónico, reduziu o espaço dos intermediadores independentes e assentou a sua limitação temporal na dança das cadeiras quando muda a maioria que governa;


2. Há uma diferença fundamental entre o professor que ensina e que transitoriamente pode exercer outras funções, e o conjunto de pessoas providas nessa profissão. O plural inclui quem só ambiciona funções em que não se ensina. Uma vez aí, considera desprestigiante o regresso à sala de aula, contesta a hierarquia remunerátória assente no exercício de professor e, não raramente, pertence a um partido de governo.


Mas descrevam-se as causas essenciais da desistência no professor e da abertura de portas a pequenos tiranetes. Desde logo, o país entrou neste século com 6,7% do PIB para a educação (estará abaixo dos 4%). Desinvestiu-se precarizando os profissionais. Usou-se, erradamente, o argumento despesista para retirar poder ao professor, omitindo-se que a massa salarial dependeu sempre do número de profissionais (e do seu estatuto) decretado pelos governos em acordo com o atomizado poder sindical. Na realidade, registou-se uma evolução assinalável da gestão orçamental das escolas nos primeiros 30 anos de democracia.


Por outro lado, quando o poder escolar era exercido pelo professor que transitoriamente exerce outras funções, a regulação era feita pelos poderes públicos e pelo interior da organização. A vida escolar era um laboratório da democracia, da livre expressão e do direito ao contraditório. As suas imagens - arena política, burocracia, democracia e cultura, que excluíam por inadequação as gémeas anarquia e empresa - acrescentavam inovação e renovação, limitavam os excessos corporativos e até os gravíssimos casos de assédio moral. A proximidade era uma força reguladora, que se enfraquecia com a incompreensível não limitação de mandatos nas funções de gestão. Digamos que já havia sinais de caudilho e da escola de tiranetes.


Além disso, a integração no poder partidário de profissionais avessos à sala de aula criou um monstro burocrático adversário da liberdade de aprender e ensinar. O conhecido universo de inutilidades organizacionais e informacionais inundou o sistema escolar de emprego partidário, controlou a gestão das escolas e influenciou - e influencia - a manutenção do que existe.


Aliás, essa atmosfera corporativa sustentou um desequilíbrio negativo para as políticas públicas de educação: se se sabia que nunca se deve entregar essas políticas a pedagogos (seria caótico um sistema baseado em pedagogias pedocentristas ou magistercentristas), também se comprova que não devem ficar nas mãos de "professores empregados" nos partidos políticos.


Em síntese, a educação é a arte do equilíbrio e a democracia a da regulação. Há soluções possíveis que oxigenam o exercício de professor: limite-se os mandatos na gestão das escolas para um período global inferior a uma década, eleja-se, pelo voto directo dos profissionais, um órgão de gestão colegial ou unipessoal (com a opção referendada, sem estatutos próprios e com a exigência de candidaturas pertencentes ao quadro da organização em causa) e recupere-se o poder dos conselhos pedagógicos. Testemunhe-se um legado democrático às novas gerações. A democracia fragilizou-se e é uma péssima lição ter as escolas expostas a pequenos tiranetes.

32 comentários:

  1. Muito, muito bom!

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  2. Subscrevo. Brilhante, como sempre, e claro como água. Muito oportuno, Paulo! Obrigada.

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  3. É isto. Brutal "A democracia fragilizou-se e é uma péssima lição ter as escolas expostas a pequenos tiranetes."

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  4. Leiam! Leiam! Leiam!

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  5. Obrigado, Rute. Há quanto tempo. Aquele abraço.

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  6. Muito bom Paulo!
    A escola tem de ensinar a democracia! E se queremos uma democracia forte temos de ter o exemplo dentro da escola!

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  7. Está aqui tudo. Brilhante. Assertivo e muito bem escrito. Magistral.

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  8. Afixem este texto em todas as salas de professores com letras garrafais.

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  9. Quase perfeito, Paulo!
    Acrescentaria que o país não desistiu de forma consciente, são os partidos do chamado “arco da governação” que amordaçam os professores e mentem ao país. Os diretores são instrumentos a soldo, mas conscientemente CONIVENTES e CÚMPLICES, na tarefa de amesquinhar, apoucar e perseguir os docentes, por isso nem querem ouvir falar de democracia ou eleições.

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  10. Olé 👏👏👏
    Que texto contundente e bem escrito!
    Nem mais!
    A análise da situação está feita!
    E a proposta também!
    Uma equipa de professores eleita pela comunidade a governar por determinado período . Sem se eternizar no poder.👏👏👏👏👏

    Renovação. Renovação . É a palavra de ordem. Já que até estamos na Páscoa!

    Por que esperam os movimentos de profs e sindicatos para avançar na organização de um grande movimento de professores na rua no princípio deste 3o período ???
    Temos que dar o nosso sinal de descontentamento na rua. 💪
    Não basta vociferar nos blogs contra os tiranetes com cheiro a mofo.
    Vozes de burro não chegam ao céu .
    Uma grande manif na rua contra o modelo de gestão que se avizinha.
    Ação!💪

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  11. Se já fomos capazes há 2 anos, com a nossa espontaneidade de ir para a rua em massa, em concentrações e manifestações por que o não seremos agora?
    Fomos nós que arrastámos as federações de sindicatos: FNE e Fenprof connosco. Apanharam o comboio connosco.
    Só o pequeno Stop nos acompanhou de início.
    Agora também adormeceu porque o André se candidata a PR. Enfim…

    Por que estais encolhidos? O que vos falta?
    Coragem?
    Estais adormecidos com a pequena RTS?

    Eu nem recebi nada. Nem receberei. Não sou professora, pelos vistos😞.

    Querem continuar a ser insultados, humilhados, ignorados, preteridos nas escolas onde estais ou para onde vão?
    Com honrosas exceções ❤️, são quase todos iguais: diretores ou diretoras. Tiranetes!
    E Ignorantes. Quanto mais ignorantes mais tiranos!
    Os verdadeiros líderes cuidam do seu povo. Conhecem no. Protegem no. Ajudam no quando está em dificuldade. São justos e equitativos. Repartem o bem e o mal por todos.
    Por isso são amados. As pessoas gostam deles e não se desviam quando os encontram.
    Não é isso que temos na maior parte das escolas pelos inquéritos do Movimento Escola Pública e pelos comentários e testemunhos nos blogs.
    Acordai!
    O começo do 3o período é a Hora.
    Temos que mostrar aà opinião pública a nossa posição.
    Este texto do Prudêncio no Público já ajuda, e muito, a despertar consciências.
    Agora temos que ser também nós a fazer o nosso trabalho
    Acordai!

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  12. Um texto esclarecedor e totalmente em linha com a realidade.
    A Educação, pública e privada, em Portugal sofreu uma degradação alucinante desde o início do século.
    O resultado está à vista.
    Profissionais que abandonam a profissão, muitos desmotivados, outros ainda mais desautorizados e prontos a sair se assim e quando o puderem fazer.
    Os resultados disto serão alunos muito mal preparados, mas que, fruto da imaginação política e dos diretores, passarão pelos pingos da chuva, chegando a lugares cimeiros onde comandarão o país.
    Por fim, o resultado disso será a loucura total, como se vê noutros países. Repare-se que Trump é um subproduto deste tipo de cultura, advindo de um pseudo-colégio privado, nos EUA, onde quem manda é o dinheiro e passa quem mais paga.
    Por cá será ainda pior, já que somos um país de miséria.
    O futuro avizinha-se muito negro, … a menos que todos façamos a nossa parte e não aceitemos determinados desmandos e loucuras que nos são impostos.

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  13. Finalmente, o país de “brandos costumes”, “sujeitos passivos” e habituado a assistir, inerte (como se tivesse sangue de barata), a todo o tipo de saque institucionalizado, e abusos de toda
    a ordem, verifica que é agora ou nunca que algo tem de acontecer, para virar todas as mesas de abusos ao contrário. Porque depois de se ter perdido a dignidade e a dedicação de uma vida a una profissão que ninguém respeita, pouco mais há mais a perder.

    É urgente uma nova revolução em todas as instituições portuguesas. E a educativa tem de escolher os seus líderes. Nada menos que isso. Porque a educação é a base de todas as sociedades. Não pode ter liderancas medíocres, pérfidas ou boçais. Senão, invista-se em penitenciárias, porque o país vai precisar. E quem sabe existam alguns diretores com muita experiência para essa gestão. Que não será o que se pretende em contexto educativo e nuna democracia. Senão, votar para quê, se os professores e educadores são exatamente a classe social sem voz ou impacto para a mudança no modelo de gestão da sua própria classe profissional?

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  14. Artigo lúcido e profundo. E, no entanto, tão simples.
    Dizer que o país desistiu dos professores é revelador da tragédia na nossa Educação. Desistir dos professores, é desistir de ser país. É desistir da ciência, do conhecimento, do progresso e do bem estar coletivo. É negar a democracia e o direito esclarecido de nos afirmarmos livres e democratas. Desistir do professor é matar à nascença a possibilidade de ser Homem cidadão, responsável e solidário. É abraçar a unicidade e esquecer que só na diversidade nos realizamos como pessoas e podemos ser mais felizes.

    Estou muito grato por mais um texto brilhante. Espero que seja levado a sério por todos os que tiveram a sorte de o poder ler. E, nunca o esquecer.


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  15. Muito obrigado, caro Agostinho. Aquele abraço.

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  16. Alexandra Pedroso Sampaio23 de abril de 2025 às 11:51

    Absolutamente de acordo. Quem,como eu, que viveu a escola durante 43 anos, sente como este é um retrato totalmente fiel do que se passa. É muito trite.
    Obrigada, Paulo.

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  17. Muito obrigado. Sei disso, minha cara Alexandra. Força aí. É péssimo legado, depois de tantos a erguer a escola pública.

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