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terça-feira, 21 de março de 2017

Mudar com tempo: o modelo finlandês

 


 


 


A Finlândia incluiu mais competências transversais nos currículos nacionais (o processo iniciou-se em 2012 e apenas em 2016 deu os primeiros passos). E porquê a transversalidade? Por causa dos futuros profissionais, mas principalmente pelo tédio dos alunos (até nas raparigas que têm melhores resultados em todas as literacias). A ligeira quebra nas avaliações internacionais terá acelerado a recuperação da antiga interdisciplinaridade; ou melhor: da sua institucionalização. O processo tem cinco anos, não muda com a queda de um Governo (Crato&Rodrigues seriam impossíveis) e regista o pessimismo de 34% dos professores; 21% registaram benefícios. Toda esta sensatez num sistema com escolas com uma dimensão civilizada, descentralizada e autónoma. Não existem exames (mas existe avaliação), não existe avaliação do desempenho (do desempenho, sublinhe-se) dos professores e não existem serviços de inspecção (os sistemas bem sucedidos constroem a confiança): ou seja, estão há muito a contrariar as variáveis determinantes da escola-indústria (nunca li, nos inúmeros relatos do sistema finlandês, uma referência ao excesso de burocracia).


Em Portugal, parece que se queria recuperar a flexibilização institucional do currículo, e logo de 25% da carga horária, quase de supetão. Dizem que parou por causa das eleições autárquicas e da vontade do Presidente. Que não se conte este ridículo fora de portas e que se repita: para além do tempo, "isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia - o inferno acentuou-se (1998-2000) na anterior experiência de gestão flexível do currículo - num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de flexibilização curricular".


A imagem é de um pintor finlandês: um Anjo, mesmo que ferido como é o caso do escolar finlandês, justifica todos os cuidados e merece que se lhe dê tempo para encontrar outros caminhos.


 


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Hugo Simberg.


"O anjo ferido"


Museo de Arte Ateneo.


Galería Nacional.


Helsinski. 


Finlândia. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Boreout (6) Há alternativas à escola-indústria?

 


 


 


 


É intemporal a crítica à escola-industria e raramente as escolas escapam à normalização de horários, de currículos e por aí fora. É uma crítica fundamental, mas está sempre à mercê de "cíclicos inventores da roda". Uma análise séria exige muitos caracteres. Dividi esta discussão em capítulos a partir da síndrome de boreout (tédio no trabalho) que é uma evidência preocupante na escola portuguesa. Mais entre os professores, mas também, e de acordo com OMSáude, entre os alunos adolescentes.


 


Nos últimos dias mediatizou-se a experiência da escola de Carcavelos que pensa "fora da caixa". Conheço pouco do fenómeno em concreto e já ouvi opiniões divergentes. Salienta-se, desde logo, a vontade de reflectir. Na Educação, as mudanças (falar de revolução neste domínio é manifestamente exagerado) devem ser progressivas, paulatinas, discutidas e pensadas. A escola é, quase por definição, uma instituição em crise. Os caminhos "fora da caixa" exigem coragem, vontade, moderação, sensatez e amor à liberdade - também de ensinar e aprender -.


 


Importa, desde logo, mudar detalhes. Coisas aparentemente pequenas. Se pensarmos no que existe em Portugal, com aulas de noventa minutos, podemos questionar: estão todos os anos de escolaridade nas mesmas condições para este tempo de aula e mesmo as diversas disciplinas de um mesmo ano ou todas as aulas do mesmo professor a uma determinada turma? É certo que não. Deslocar o intervalo, por exemplo, para a conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor tem as vantagens que se queira imaginar para além de suscitar uma quebra de rotinas e uma "abertura" para a integração de novas ideias didácticas sem "beliscar" a leccionação dita mais tradicional.


 


Um exemplo da mesma família, que é, sem dúvida, um retrocesso a caminho da escola-indústria, é a calendarização a eito de todos os testes, de todas as turmas e em todos os anos de escolaridade. Condicionar deste modo a abordagem didáctica diferenciada a cada turma, só mesmo num modelo contraditório e conceptualmente perdido que advoga em simultâneo o ensino individualizado e diferenciado (para além do cultivo precoce do retrógrado "estudo para o teste" ou aquele mais "reivindicativo": só respondo a um conjunto de questões por dia). Olhando para a imagem, aquele pico de aprendizagem teria, se existisse, alguma explicação.


 


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quarta-feira, 6 de abril de 2016

boreout (5) a neuropediatria

 


 


 


Bem sei que é sempre necessário um olhar pragmático e que o sistema escolar está cansado das receitas vindas de fora. Mas não é avisado afirmar que estamos no fim da história. Luís Borges, um neuropediatra, toma posição sobre a escola-indústria (embora remeta o cerne da questão para os insuportáveis cadernos de encargos da formação de professores e das responsabilidades escolares e inclua ligeiramente a organização das sociedades): "encurtava as aulas, multiplicava os intervalos, mudava as metas curriculares, dava aos professores mais formação na área das neurociências e garantia aos miúdos mais tempo para brincar. Se pudesse, o neuropediatra Luís Borges mudava a escola. E medicava muito menos."

terça-feira, 5 de abril de 2016

boreout (4) escola para todos?

 


 


 


 



A Direcção Regional de Educação de Lisboa convidou-me para falar sobre segurança escolar. Foi em Óbidos, na Casa da Música. Dei uma vista de olhos na papelada e não encontrei o certificado, mas tenho a certeza que foi na primavera de 2004. Quando me telefonaram, lembro-me de lhes ter perguntado: "Sobre segurança? Então?". "Porque a tua escola estava mergulhada em indisciplina e insegurança e hoje isso é mais do que residual". Respondi-lhes: "Ok. Obrigado. Mas o que vou dizer não é, provavelmente, aquilo que vocês querem ouvir" (pressentia o que se viria a passar a seguir no sistema escolar - começou a desenhar-se em 2002 - de perseguição aos professores, embora nunca imaginasse que fosse tão mau como foi).




 




Dei um vista de olhos pelos tópicos que utilizei e faço uma síntese com a ideia de apresentar alternativas à escola-industria e focado na boreout:


 






  • participação empenhada em diversos programas que envolveram a segurança na zona envolvente, nomeadamente com os projectos escola segura e Malhoa;

  • dados todos tratados em sistemas de informação construídos na escola;

  • construção e desenvolvimento de um núcleo de comunicação social que produz o website escolar, o jornal escolar e uma página na edição impressa do jornal local com mais audiência;

  • eliminação, mas eliminação mesmo, da má burocracia (vulgo papelada) e construção de horários escolares adaptados, mas adaptados mesmo, ao projecto educativo e aos transportes escolares dos alunos;

  • trabalho persistente e muito bem preparado ao nível da rede escolar, com a preocupação de reduzir o número de alunos por turma e de encontrar outras soluções de escolaridade para os alunos com um percurso a indiciar abandono escolar;

  • ausência de campainhas; 

  • intervalos durante as aulas de 90 minutos adequados à conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor;

  • celebração diária dos aniversários de todos (o nosso quadro de mérito);

  • vasos com plantas todos os dias e não apenas nos dias das visitas institucionais;

  • papel higiénico, saboneteiras e secadores de mãos em todas as casas de banho;

  • regras simples, transparentes e exequíveis para os casos de indisciplina (começou com uma expulsão (embora a rede social não tivesse sido descurada), seguiram-se várias suspensões (em regime sumaríssimo e sempre em articulação com a associação de pais e com os encarregados de educação em causa) com leitura do texto da sanção em todas as salas de aula e em tempo útil, e nos últimos três anos nada disso aconteceu);

  • e, finalmente, o mais importante: a escola não é apenas inclusiva para os alunos (honra-nos muito que a DREL indique a escola para os alunos com necessidade educativas especiais) mas é-o também para os professores e para os funcionários (e isso significa confiança, mas confiança mesmo, e respeito pelas pessoas) como fazem as organizações bem sucedidas (mas só o modo como isso se faz dava para outra conferência). Temos todo o cuidado em proporcionar as melhores condições para a realização das aulas e nesta escola só resolve os problemas sozinho quem quer.


(1ª edição em 10 de Maio de 2010)


 


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segunda-feira, 4 de abril de 2016

boreout (3) a escala e os horários

 


 


 


Quem se dedica aos horários escolares tem muitas variáveis a considerar. As pedagógicas ocupam um lugar cimeiro, que vai da articulação com os transportes escolares ao tempo dos recreios, passando, naturalmente, pelas melhores condições de realização de cada uma das aulas. O aumento da escala, com os mega-agrupamentos associados ao modelo de gestão em curso, dificulta a construção de horários que não obedeçam a uma homogeneização nas diversas escolas agrupadas. Como a tipologia das escolas inscreve alunos com necessidades horárias muito diferentes, a homogeneização impede a diferenciação horária como variável fundamental para reduzir os efeitos da escola-indústria.

terça-feira, 22 de março de 2016

Um compasso de espera no boreout

 


 


 


Fiz mais três posts sobre o boreout, mas temporizei-os para a semana que começa a 4 de Abril de 2016. Até lá, o blogue estará num registo mais diverso. O recurso a temas de política educativa será não planeado ou através da habitual recuperação de posts antigos.

segunda-feira, 21 de março de 2016

boreout (2) há alternativas à escola-industria?

 


 


 


É antiga a crítica à escola-industria e muito raramente as escolas que conhecemos escapam à normalização de horários, de currículos e por aí fora. É um assunto muito interessante, que está sempre à mercê de "cíclicos inventores da roda" e que exige muitos caracteres. Decidi dividir em capítulos a partir da síndrome de boreout (tédio no trabalho) que atinge os profissionais da Educação mas também, e de acordo com OMSáude, os alunos com particular incidência os adolescentes portugueses.


Nos últimos dias mediatizaram-se boas experiências de escolas que eliminaram as tradicionais campainhas. É uma decisão que conheço bem e com muito bons resultados. Tem um alcance que influencia uma série de variáveis, a começar pela responsabilidade associada à autonomia e à elevação do clima de confiança. Se pensarmos no que existe em Portugal, com aulas de noventa minutos (a experiência, também a que vivi, iniciou-se em 1998, mas era possível nas tradicionais "aulas de 50 minutos"), podemos questionar: estão todos os anos de escolaridade nas mesmas condições para este tempo de aula e mesmo as diversas disciplinas de um mesmo ano ou todas as aulas do mesmo professor a uma determinada turma? É certo que não. Eliminar toques e deslocar o intervalo para a conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor tem as vantagens que se queira imaginar para além de suscitar uma quebra de rotinas e uma "abertura" para a integração de novas ideias didácticas sem "beliscar" a leccionação dita mais tradicional. Olhando para a imagem, os picos de aprendizagem distribuem-se e o ambiente escolar elimina os momentos de saturação nos diversos serviços; a segunda variável tem resultados garantidos.


 


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domingo, 20 de março de 2016

boreout (1) tédio no trabalho?

 


 


 


A já muito falada síndrome de burnout provoca doenças, deprime e leva mesmo ao suicídio como aconteceu com a tragédia da France Telecom. Muito menos falada é a síndrome de boreout (tédio no trabalho) mas que tem uma incidência mais comum do que a burnout. No nosso sistema escolar, a boreout já atingia os professores com as inutilidades, os horários ao minuto, as mega-organizações e a hiperburocracia mas também contaminou os alunos que aumentaram o desânimo com a escola derivado ao retrocesso nas possibilidades de escapar à secular escola-industria. Voltarei ao assunto em próximos posts.


 


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