"Tesla propõe prémio sem precedentes de um bilião de dólares para Musk"
Não sou muito dado à proliferação da comemoração de "dias", mas o "1ª Dia Mundial da Língua Portuguesa" é significativo. Já agora, talvez fosse, finalmente, o momento de atenuar, no mínimo, os efeitos do AO90. Para um português natural de Moçambique, e cidadão do mundo que tem esta língua como pátria, é interessante olhar para o mapa que se segue e que encontrei aqui.
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Se insistimos no desprezo pela cultura, o passo seguinte é a crise de identidade. Do local para o global é a fórmula construtora da paz.
Fotografia de Luís Moreira
A já muito falada síndrome de burnout provoca doenças, deprime e leva mesmo ao suicídio como aconteceu com a tragédia da France Telecom. Muito menos falada é a síndrome de boreout (tédio no trabalho) mas que tem uma incidência mais comum do que a burnout. No nosso sistema escolar, a boreout já atingia os professores com as inutilidades, os horários ao minuto, as mega-organizações e a hiperburocracia mas também contaminou os alunos que aumentaram o desânimo com a escola derivado ao retrocesso nas possibilidades de escapar à secular escola-industria. Voltarei ao assunto em próximos posts.
Sei que estamos numa fase "Roma dos últimos dias", mas não deixo de me surpreender com a "habilidade" dos políticos para irritar as pessoas. O "não sejam piegas" ou o "emigrem" de Passos foi mesmo um cume nem sequer atingido pela "irrevogabilidade"; concordo. Mas os "não fumem", "andem em transportes públicos" ou "usem a gravata da cor tal" de Costa também requerem um "não havia necessidade, que raio". Não sei se são tiques, se são mesmo conteúdos ou se se limitam à forma. O que já parece usar as duas componentes, forma e conteúdo, é o lamentável episódio Soares no CCB. Concordo com a ideia de concursos internacionais, embora, e no estado em que estamos, nem sei se isso significa mais isenção.
"Por que será que se riem quando digo que trabalho muito?", interrogava-se há pouco um humorista. Compreendo-o. Fazer rir, como de resto acontece com a maioria das actividades culturais, fica além da compreensão dos do poder vigente. Para estes, um banqueiro ou um facilitador de negócios são o grau elevado do exercício profissional e o valor do trabalho restante mede-se pela "possibilidade" da sobrevivência para baixo; é disso que se riem.
Conheço bem o grupo profissional dos professores. Gozam de boa reputação, como trabalhadores, nos inquéritos junto das populações, mas "irritam" o poder político vigente na última década e meia em Portugal. Os professores são uma espécie de intelectualidade que incomoda e foram escolhidos, não apenas por serem muitos, como alvo a abater. E não foi apenas através da incerteza geral que assolou a Europa a partir da década de setenta do século passado e que só cá chegou perto da viragem do milénio (os atrasos também têm vantagens).
Por cá, as últimas políticas dirigidas à carreira dos professores dilaceraram a atmosfera relacional e instituíram a humilhação, a indignidade e o stress profissional em matérias diferentes das questões financeiras do empobrecimento para além da troika. Começou até antes da chegada dos credores. A "proibição" de se ser professor com mais idade e a eliminação por se ser jovem, iniciaram recentemente um ciclo ainda mais acentuado neste caso de saúde pública. Não é especulativo afirmar que todas as semanas ouvimos relatos da consequência devastadora da humilhação profissional que percorre silenciosa as mentes e os corações dos professores e que torna ainda mais insuportável o estado a que chegámos.
Enquanto o novo primeiro-ministro italiano diz que se demite se o obrigarem a fazer mais cortes na Educação, em Portugal o primeiro-ministro mentiu em campanha eleitoral com promessas que fez nesse sector (na avaliação de professores era a custo zero) e, por incrível que pareça, o ministro da Educação e ciência está sempre pronto para cortes, chega a argumentar com estudos que só ele conhece no que se refere ao aumento de alunos por turma e corta em disciplinas da área das humanidades e das artes como quem muda de camisa.
E nem o factor financeiro serve de argumento para ajustar as mentes dos para além da toika. Se no número de professores já estamos quase em 1973, os outros indicadores aproximam-se vertiginosamente. Tudo isto fundamenta o que sempre se soube: o que demora a construir pode ser destruido num período temporal muito mais curto.
É inadmissível que o FMI tenha errado numa margem que pode chegar aos 300% nos cálculos do impacto da austeridade na economia. No caso português, e que vai para além da troika, os denominados sectores sociais, com os professores como os principais escolhidos, é que pagam tanta impreparação. E ninguém se demite? Nem o consultor Borges?
FMI reconhece que calculou mal o impacto da austeridade na economia
"No relatório em que reviu em baixa as previsões para a economia mundial, o FMI começou a corrigir algumas contas: por cada euro de austeridade, a economia não cai 0,5 euros, mas sim entre 0,9 e 1,7 euros."
Nem sei se a economia de escala aplicada à gestão escolar é muito estudada. Pelo argumentário do ME e dos seus satélites, vejo que queremos reduzir custos quando somamos duas unidades de gestão perdendo uma das cabeças ou tentamos eliminar serviços administrativos redundantes. Uma década depois, estamos no mesmo sítio ou com mais despesa nessas parcelas.
Escreveu-se muito a propósito dos novos descobrimentos portugueses: os mega-agrupamentos e a parque escolar.sa. Quinhentos anos depois da epopeia, os mundos que agora desbravamos já foram abandonados pelos que há dois séculos eliminaram o flagelo do abandono escolar. Mais do que copiar ou comparar organizações administrativas, importa debater o essencial: e o cerne está na coerência do detalhe (e só isto dava para milhares de caracteres).
Afirmar uma cultura organizacional e exercer uma liderança forte (forte é o chavão preferido pelos doentinhos do headmaster, mas, e como não sou psicanalista, devemos traduzir por democraticamente competente, legitimado pela convicção de que é capaz e pela aceitação esclarecida e mobilizada dos liderados) só está ao alcance da coerência sistemática dos detalhes, através da preciosa atenção às relações humanas e à estruturação do sistema de informação. E isto só acontece na escala humana, que tem de ser racional, como há muito perceberam os mais desenvolvidos.
Andamos ao arrepio da História e perdemos a ideia de possibilidade e de utopia. Também por isso republiquei esta entrevista, onde remeti para a escola uma indelével função democrática: "A cultura da escola é a cultura permanente da exigência, da finalidade e da regra, mas também do afecto, da amizade e do drama." E isso não se faz sem proximidade.
Ao que julgo saber o parlamento ainda existe e os deputados continuam com o exercício de mandatos. Recebi o seguinte email:
Caro/a Docente,
Em anexo segue um Requerimento do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, apresentado e aprovado hoje pela deputada Ana Drago em sede de Comissão de Educação e Ciência, com votos favoráveis de todos os partidos da oposição e a abstenção do PS. O objectivo deste Requerimento é ouvir a Ministra da Educação o mais brevemente possível, sobre as seguintes questões:
Ainda não há data definida para a vinda da Ministra, mas será a 26 de Janeiro ou a 9 de Fevereiro, algo que poderá sempre confirmar na página da comissão de Educação e Ciência:
http://www.parlamento.pt/sites/com/XILeg/8CEC/Paginas/default.aspx
Agradecemos que nos façam chegar sugestões e opiniões sobre esta assunto, de maneira a melhor nos prepararmos para a audição à Ministra da Educação.
Com os nossos melhores cumprimentos,
Assinatura legível.
A democracia mediatizada funciona por ondas e os picos de sinal contrário sucedem-se numa velocidade estonteante. As mais diversas agendas são condicionadas por essa voracidade.
A discussão à volta da natureza do ensino não superior oscila de acordo com a agenda mediática. Há uma corrente que se quer impor em Portugal: a da denominada charter school. Escolas públicas que passam a ser geridas, através de contratos com o estado, por grupos de professores ou por entidades locais. Recebem um envelope financeiro e os contratos são renovados, ou não, pelos resultados dos alunos.
Haverá professores das escolas públicas que aceitam o desafio. Trata-se de enfrentar uma lógica de mercado. Há, desde logo, duas questões cruciais.
A seguir à degradação organizacional das escolas públicas, que resultou dos agrupamentos e da perda de poder democrático, só faltava que se seguisse um período em que uma lógica de mercado (existe um quase mercado há muito) se impusesse com pontos de partida tão desiguais.
Tem sido comentado com indignação na blogosfera e com toda a razão: é, no mínimo, uma falta de respeito que o projecto de revisão não inclua as matérias acordadas.
"Os sindicatos de professores esperam que o Ministério da Educação (ME) corrija hoje o projecto de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), já que alguns aspectos do diploma não estão conforme o acordo assinado em Janeiro.(...)"
É lamentável. Museus gratuitos ainda se compreende desde que o sejam para todos, claro. Agora teatro e bailado? Ainda no fim-de-semana, em Lisboa, fomos a uma sala de teatro esgotada há muito; só que depois os lugares vazios davam nas vistas: o costume, ao que me disseram: levantam os bilhetes mas depois não põem lá os pés.
É uma coisa antiga: dá ideia que os pagantes militantes são apenas os clientes da província, que marcam os bilhetes com antecedência e não circulam pelo regime de oferta da capital.
Ora leia.
"Grande parte da cultura disponibilizada pelos organismos públicos é gratuita. Nos museus, nos palácios, nos teatros, no bailado, são mais os que entram sem pagar bilhete do que os que pagam.
Nos museus da rede nacional, por exemplo, 62 por cento das entradas não são pagas - esta é uma tendência que começou em 2005 e se foi acentuando. E apesar de em 2007 o número de entradas pagas ter voltado a ser ligeiramente superior ao das gratuitas, em 2008 atingiu-se a maior diferença: dos 1,218 milhões de visitantes registados, 465 mil pagaram e 752 mil não pagaram.
Nos monumentos, a divisão é mais equilibrada, com 51 por cento a pagar, mas nos palácios (que, tal como os museus, são geridos pelo Instituto dos Museus e da Conservação) verifica-se novamente que são mais os que não pagam bilhete de entrada do que os que pagam.
E se nos teatros nacionais - o São João, no Porto, e o D. Maria II, em Lisboa - a percentagem de entradas pagas é um pouco superior à das gratuitas, já nos espectáculos da Companhia Nacional de Bailado (CNB) é exactamente o contrário. Em 2008, dos cerca de 27 mil espectadores da CNB, 18 mil não pagaram. E no ano anterior a situação foi ainda mais evidente: dos 19 mil que foram assistir a um bailado apenas 4 mil pagaram o bilhete.(...)"