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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Fim do projecto MAIA - Muitos parabéns à Dália Aparício e ao João Aparício

Vale a pela lutar contra o inferno da burocracia. Muitos parabéns à Dália Aparício e ao Joao Aparício que submeteram a petição. 


Pelo Parlamento a 21 de Junho de 2023 e “Pela cessação do Projeto Maia” que hoje se concretiza.


Os peticionários que defenderam a causa no Parlamento. Da esquerda para a direita (fotografia de Eulália Paulo): Ricardo Silva, Dália Aparício, Paulo Guinote, Paulo Prudêncio e João Aparício.


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sábado, 22 de junho de 2024

Pelo Parlamento na discussão do Projecto Maia

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A delegação de peticionários: Ricardo Silva, Dália Aparício, João Aparício e Paulo Prudêncio. O Paulo Guinote e a Eulália Paulo não puderam acompanhar.

 

Estive (21 de Junho de 2024) pelo Parlamento na discussão do Projecto Maia. Acima de tudo, importa concluir que os partidos do "pacto de regime para a Educação" - que vigora desde os primórdios deste milénio para as questões essenciais e que é responsável pela queda da escola pública e pela estagnação dos notáveis progressos na Educação preparada nos 30 primeiros anos da democracia -, nada aprenderam, nem sequer com a falta estrutural de professores. A questão nuclear centra-se na desconfiança nos professores assente num inferno burocrático, e que dá asas ao clima escolar vigente.

 

Como várias vezes escrevi, trata-se de uma espécie de inversão do ónus da prova. Resumidamente, desde que há escolas que os professores sabem que prestam duas contas a qualquer momento: como gerem o programa da disciplina que leccionam e como avaliam os alunos. A espécie de inversão do ónus da prova foi o sinal máximo da desconfiança e do inferno da burocracia e a súmula da proletarização.

 

Se um professor necessita de 7.500 descritores para avaliar um aluno, ou de registar duas centenas de feedbacks por aula, é um problema seu. Se necessita de formação contínua para o realizar, volta a ser um problema seu. O que não é admissível, é que o queira generalizar e impor nas organizações, ainda por cima sem qualquer software moderno de tratamento da informação, e que o poder central estimule e verifique a aplicação.

 

No Parlamento, a petição MAIA discutida era clara. Veja o canal da Assembleia da República. O PS (as duas deputadas foram uma lástima), PSD e PCP fizeram figuras tristíssimas e o PAN, Livre, IL, BE e Chega não.

 

Estive por lá mais de duas horas. Os deputados deste último partido portavam-se de modo mal-educado e ruidoso. Como alguém disse, "são especialistas em vitupérios".

 

Assim, não vamos lá em relação à recuperação do exercício de professor.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Pelo Parlamento a 21 de Junho - “Pela cessação do Projeto Maia”

 


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Da esquerda para a direita: Ricardo Silva, Dália Aparício, Paulo Guinote, Paulo Prudêncio e João Aparício.


É sempre bom sublinhar que resido nas Caldas da Rainha e que a minha disponibilidade é mais efectiva se for por Skype. As solicitações para o mês de Junho obrigaram-me a muitas recusas, e a algumas "incompreensões", e a escrever assim:  "mas é tudo no mês de Junho? Assim de repente, entre Lisboa, Leiria, Porto, Guarda e Vila Real, para colóquios, conferências, debates, almoços, jantares e por aí a fora, teria os dias: 1 (2), 5, 6 (2), 8, 11, 15, 19, 21 e mais 2 que ainda não se acertou a data".


Contudo, tudo farei para integrar a delegação de peticionários que assistirá a um plenário no Parlamento a propósito do Projecto Maia. É um exemplo da burocracia que tanto tenho combatido (e com provas dadas na construção do inverso) ao longo dos anos. O inferno da burocracia originou, associada à proletarização da carreira, ao modelo autocrático de gestão e à avaliação kafkiana, a falta estrutural estrutural de professores. Baseou-se na desconfiança nos professores, afirmada numa espécie de inversão diária do ónus da prova e em muita impreparação na construção de sistemas de informação.


Em 23.06.2023 defendemos a petição (tem vídeo) e escrevi assim: "Foi com muito gosto que aceitei o convite dos colegas Dália Aparício e João Aparício para ajudar, em conjunto com o Paulo Guinote e o Ricardo Silva, na defesa da petição sobre o programa Maia no Parlamento. Foi um contra-relógio de argumentação, mas saímos com a sensação de missão cumprida. Tem o vídeo neste post ."


Sabemos como se processam as votações parlamentares, mas é sempre de esperar que os dois partidos maioritários se convençam que só mudando o clima escolar é que se inicia o longo processo de recuperação da atractividade da profissão de professor.


Também tudo farei para estar presente em homenagem aos colegas Dália Aparício e João Aparício.



"Cumpre-me comunicar que foi deliberado agendar a apreciação da Petição n.º 143/XV/1ª – “Pela cessação do Projeto Maia” na Reunião Plenária do dia 21 de junho de 2024, a partir das 10 horas (link para as ordens de trabalho das reuniões plenárias – http://app.parlamento.pt/BI2/).


Caso pretenda seguir o debate presencialmente, nas galerias da Sala das Sessões, poderá ser constituída uma delegação, com um limite de dez peticionários, devendo ser tidos em conta os seguintes procedimentos:



  1. A composição da delegação deverá ser comunicada, com a brevidade possível, para o endereço de correio eletrónico da Divisão de Relações Públicas e Protocolo – DRPP.Correio@ar.parlamento.pt, com conhecimento para o endereço peticoes@ar.parlamento.pt;

  2. O acesso às galerias da Sala das Sessões processa-se pela Porta da Receção do Palácio de S. Bento (junto à entrada principal), à qual se devem dirigir, munidos de documento de identificação, no dia indicado com relativa antecedência e ao mesmo tempo, de forma a garantir o acompanhamento a essa delegação de um funcionário parlamentar designado para o efeito;

  3. É aconselhável não serem portadores de volumes ou objetos pessoais como sacos, mochilas e máquinas fotográficas;

  4. Durante as sessões as pessoas presentes nas galerias devem manter-se em silêncio, sem se manifestarem ou aplaudirem.


Informa-se que o debate pode ser seguido através do Canal Parlamento, disponível na TDT, nos canais por cabo, no sítio da internet da Assembleia da República (www.parlamento.pt), na área do Canal Parlamento ou no Facebook do Canal Parlamento.


Com os melhores cumprimentos,


Teresa Diogo


Técnico de Apoio Parlamentar Coordenador


ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA


Direção de Apoio Parlamentar | Divisão de Apoio às Comissões


Palácio de S. Bento, Praça da Constituição de 1976 | 1249-068 Lisboa, Portugal


Tel.: +351 213 919 413


peticoes@ar.parlamento.pt"


sábado, 25 de março de 2023

O Ministério da Educação demitiu-se da desburocratização

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Após anos a anunciar que estava a estudar o assunto, e a agendá-lo para as negociações com os sindicatos, o ME "demitiu-se" do inferno da burocracia que criou e entregou-o à LABX - "Centro para a Inovação no Setor Público - unidade orgânica integrada na Agência para a Modernização Administrativa (AMA, I.P.)". Esta confissão de incapacidade é grave. Desburocratizar neste domínio é um acto de gestão, de política educativa e de domínio de sistemas de informação. É para professores decidirem. Acima de tudo, é para eliminar incontáveis procedimentos inúteis. Requer um decreto com um só artigo: a um professor não se pode exigir um qualquer procedimento que inverta o ónus da prova.


Esta decisão representa a falência da gestão do ministério que, durante décadas, foi gerido como se fosse uma empresa privada dos partidos políticos.


Escrevi (5.10.22) assim recentemente no Público ("Foi fatal não confiar nos professores"): "(...)É desafiante desconstruir, neste breve registo, este monstro que "adoeceu" os professores e que Governo e sindicatos reconvocam para a mesa negocial com um preocupante desconhecimento do universo informacional ao circunscrevê-lo à penosa tarefa burocrática de um grupo específico (directores de turma).""


Recupero um texto (resumo-o) que escrevi para o blogue e para a impressa do Público em 21.01.2009:



"Bloco da precaução:


Quem reflecte sobre o sistema escolar escolhe um ponto de partida. A minha opção concentra-se no tratamento da informação e sistematizei-a em 3 blocos: ensino, organização escolar e precaução.


Duas questões prévias:


Sabe-se muitas maneiras de ensinar, mas sobre o modo como cada um aprende a palavra-chave é ignorância. Então, é avisado não hierarquizar métodos de ensino;


Os critérios para a tomada de decisões obedecem à hierarquização de três categorias: delimitar, obter e fornecer informações. Deve ser feita uma análise aturada que estabeleça a informação que é estruturante para a obter e fornecer em tempo real com o recurso a novas tecnologias.


Situemos a argumentação e façamos a caracterização dos três blocos.


O bloco do ensino é o lugar que determina a actvidade que cada professor faz dentro da sala de aula; neste imenso universo é indiscutível que cada professor deve estar sempre preparado para fundamentar as opções científicas e didácticas e os critérios para avaliar os alunos.


O bloco da organização escolar é o espaço que cria as melhores condições para que cada aula se realize: é a sua primeira finalidade. Solicita aos professores duas informações: a classificação e assiduidade de cada aluno. Deve seleccionar a informação que pretende obter para a fornecer em tempo real e com a exigência da produção de conhecimento.


O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que está determinado de modo central por invenções técnico-pedagógicas. E é aqui que encontramos um elenco interminável de burocracia inútil que adoece os profissionais.


A institucionalização deste bloco, e a sua aparente autoridade, parte dos serviços centrais do MEC e alastra-se à organização das escolas. As invenções burocráticas devidamente preenchidas, são, por precaução, a única consciência profissional de muitas. Isso retira sentido de autonomia e de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência e de medo.


Este bloco, que foi construído paulatinamente ao longo de anos e que criou um inferno, é difícil de derrubar.


O que mais impressiona é a incredulidade dos que estiveram anos a fio do lado errado: começaram por crer nas virtudes dos dogmas, sustentaram as suas vidas na acomodação a cinzentos privilégios e acabaram como defensores acérrimos de burocracia monstruosa.


A situação dos professores explica-se deste modo: imersos num tentacular assombro burocrático, os professores, indignados e saturados, e sem liberdade para ensinar, ecoaram os seus protestos dos lugares mais recônditos do país até ao histórico Terreiro do Paço. Os incrédulos funcionários desta industria que move milhões ficaram atónitos e surpresos, mas ainda esperançosos: têm, em quem governa o MEC, um último e desesperado bastião. Não deve ser fácil assistir a uma queda sem fim e presenciar a ruína das convicções.


Contudo, foi possível identificar um conjunto denominado de "boas práticas" que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do seu arrastamento insuportável. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor.


Também por precaução se deixou de falar nisso."


domingo, 4 de dezembro de 2022

Plataformas Digitais e Universo Escolar


Não é surpreendente que se apontem as "empresas externas" (o outsourcing e as plataformas digitais) como uma das componentes mais desfavoráveis nas organizações modernas. A opção facilitou o aumento da escala, mas desprezou a gestão de proximidade como valor precioso e inalienável. A "gestão do exterior" satisfez os investidores porque permitiu a subida dos lucros com a redução de profissionais. Essa supressão cerebral (na maioria dos casos, e incluindo o escolar, sem qualquer relação com a 4ª indústria ou com a robotização) deslocou para o exterior a definição da informação a obter.


As instituições deixaram de agir livremente sobre os sistemas de informação. Foi uma dupla perda: se antes o poder era exercido por quem decidia sobre o financeiro, a partir daí surgiu um pólo paralelo: a informação. A "gestão do exterior" apoderou-se dos dois domínios e pode sempre argumentar: "é uma boa ideia, realmente, mas impossível de concretizar".


A dependência externa generalizou-se. Como disse Niklas Luhman, o homem perdeu "a posição de centralidade no organismo social e foi remetido para o exterior, passando a fazer parte do meio ambiente do sistema. Tornou-se uma causa para o aparecimento de problemas constantes e de complexidades crescentes" (com mais visibilidade, no caso escolar, para professores e restantes profissionais, mas com consequências para os alunos).


 



Já usei parte desta argumentação noutros textos.



terça-feira, 1 de novembro de 2022

A Escola e a Dança dos Homens (2)


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"Se houvesse um povo de deuses, ele governar-se-ia democraticamente. Um governo tão perfeito não convém a homens" (1). Esta conclusão explica o ministério da educação das últimas duas décadas, em que houve homens acima dos deuses e da democracia. Se a entropia social evidenciada em 2008 expôs a "lei de bronze da oligarquia" (ideia de Robert Michels) que condicionou os governos, na escola portuguesa a dependência ficou a cargo de uma dança de homens que descolou o discurso oficial de qualquer realidade. Quando se denuncia a tormenta burocrática de um centralismo distante das salas de aula e com forte tendência para sofisticar à exaustão a administração de inutilidades que excluem o conhecimento das disciplinas, não se pensa em funcionários. A sofisticação é obra de grupos de missão bem avençados e sem tabela de remuneração, escrutínio ou avaliação. Está para além de ser ministro ou secretário de estado, embora inclua a função de correia de transmissão tridimensional: rever programas curriculares e meta-procedimentos, organizar formação e produzir e comercializar literatura de apoio. É um bailado que inferniza qualquer ideia de autonomia, currículo, interdisciplinaridade, flexibilidade ou inclusão e que sustenta quatro pilares do neoliberalismo imposto pelos governos de Barroso e de Sócrates: carreira dos professores, estatuto do aluno, avaliação do desempenho (inspiraram-se, e só para avivar memórias, no modelo do Chile) e gestão das escolas. 






O Grupo de Missão, que estimula o conceito de Grupo Fechado, resulta desse triunfo que fez escola no sistema escolar. Corre patamares bloqueando canais participativos e mecanismos mobilizadores. O Grupo de Missão impacienta-se com o contraditório e pugna pela pirâmide da organização militar omitindo que um professor do 1º escalão pode leccionar a mesma turma que um do 10º e que a tarefa cimeira da escola é a sala de aula. Outro sinal negativo para a escola pública, é a publicidade dos Grupos de Missão. Visitam escolas e recomendam o modo organizacional, como exemplo de cooperação, sem sequer vislumbrarem a contradição. Invariavelmente, argumentam: mas os resultados escolares na escola pública não melhoraram nos últimos 45 anos? Claro que melhoraram. O essencial é sempre a evolução da sociedade, e basta comparar o Portugal de 60 e 70 do século passado com o actual, como demonstra a história mundial dos sistemas escolares. Quanto mais pobreza, mais insucesso e abandono escolares. Se temos 2 milhões de pobres, é natural que 50 mil crianças reprovem logo nos primeiros ciclos como diz hoje o Público. É uma realidade que está a montante da escola, por muito que esta atenue desigualdades. 


Daniel Innerarity alertaria os Grupos de Missão: os vossos "conceitos estão completamente ultrapassados" numa sociedade em rede, porque estão estritamente ligados a uma linha centralista e hierarquizada. Só persistem como um fatalismo histórico porque, e como alguém também disse, "as nossas elites são historicamente viciadas em viver à custa do trabalho dos outros; foi assim durante três séculos com a escravatura, também com o ouro e as especiarias e até com o colonialismo; na actualidade, é o que se vai conhecendo."


Escolhi uma imagem de "danças de deuses" na esperança de que um dia se cumpra o desejo de Rousseau e a lembrar-me como é cada vez mais difícil regressar a George Steiner (2): "Quem não estiver doente de esperança não tem a mais pequena hipótese de ser professor".


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(1) Jean-Jacques Rousseau, Contrat Social ou Príncipes ãu Droit Politique, Paris, Garnier, s/à, p 281.


(2), George Steiner (2005:148) "A Lição dos Mestres", Gradiva, Lisboa.


Encontrei a imagem do post na internet sem referência ao autor.






 

 

domingo, 9 de outubro de 2022

Da Falta de Professores na Europa: do Metro de Paris ao Inferno das Didácticas

Quando, em 2006, se apresentou o modelo de avaliação dos professores, a analogia mais humorada assemelhava-o ao metro de Paris. Ao que se saiba, ninguém na Europa aplicou semelhante labirinto. Mas Portugal, que se atrasou nestas políticas, aplicou-as a eito e tarda em removê-las.


Agora, no blogue Escola Portuguesa, o António Duarte encontrou em Espanha, e traduziu, uma explicação humorada para o inferno burocrático criado pelas didácticas da educação. Portugal será ainda mais sofisticado e holístico "relacionando-as com os conhecimentos básicos e as situações de aprendizagem"?


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sábado, 8 de outubro de 2022

Desconfiar da Desconfiança

O texto "foi fatal desconfiar dos professores" proporcionou vários debates. É evidente que o parágrafo seguinte não exclui os professores:



"A bem dizer, a transição para o digital acentuou a IOP.  Agravou-se com os mega-agrupamentos de escolas. O aumento da escala da gestão "exigiu" plataformas digitais totalmente preenchidas, com a ilusão de um controlo não contrariado pela avaliação externa das escolas. Buscando um pequeno exemplo perceptível, inseriram-se os horários dos professores em plataformas digitais e os sumários (a sua existência é um modelo de IOP) têm um limite temporal para o preenchimento em ambientes de exasperante lentidão ou de interrupção de servidores e de sinal de internet. Para lá do prazo, exige-se a justificação. Interrogar-se-á o leitor: mas é aí que se marcam as faltas dos professores? Não. As faltas são, e bem, sinalizadas por assistentes administrativos e operacionais. É, portanto, um ambiente de inutilidades diárias que desgasta e contribui para o tão estudado burnout."



Alega-se que são professores quem institui estes procedimentos. Claro que são e ocupam as funções mais diversas no sistema educativo. Não adianta entrar em pânico com a falta de professores e depois não estudar as causas. Aliás, o essencial remete-nos para a imagem (encontrei-a no blogue a Escola Portuguesa) e para a frase que inseri.


 


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terça-feira, 7 de junho de 2022

O Inspector Foi à Escola

Trouxe do blogue do Paulo Guinote, "O meu quintal".



"O inspector foi à escola


(…)


Vamos lá operacionalizar isto.


De cada vez que cada um dos 129 alunos da professora Joana resolve um item, ela vai escrever 129 pequenos textos que ajudem cada um dos seus alunos a perceber se cumpriu a tarefa com sucesso, se a cumpriu com algum sucesso, se tem de se esforçar e estudar um pouco mais ou se está completamente perdido relativamente àquele assunto, tudo isto acompanhado pelos respetivos smiles, desde a boca com a concavidade voltada para cima e os olhos a brilhar até ao esgar mais furioso, com os dentes a ranger, passando pelo estimulante piscar de olho, já que os coraçõezinhos não serão apropriados na relação professora-aluno.


Imaginando que a correção minuciosa da tarefa, a produção do pequeno texto descritivo e a busca do smile apropriado pode levar uns 15 minutos por item, que um teste de avaliação pode ter dúzia e meia de itens, que se fazem vários testes de avaliação por ano, nunca menos de meia dúzia (mas que, segundo as orientações superiores, devem ser muitos e frequentes), não sobra tempo para a senhora professora Joana escovar os dentes.


(…)


Em suma, o que durante séculos bastou para os alunos compreenderem em que nível se situava o seu desempenho, que era o feedback constante dado no decorrer das aulas e a nota atribuída pelo professor nos instrumentos de avaliação, agora não é suficiente. Vossas Excelências consideram que os atuais alunos, que andam muito distraídos com as “redes”, não conseguem compreender o que é um 31%, depois de, insistentemente, o professor o chamar à atenção para o fraco desempenho nas aulas. Talvez haja alguns para os quais 31% é suficiente. Então, cabe ao professor explicar, bem explicadinho e por escrito, que 31% é um nível insatisfatório, que o aluno tem de estar com mais atenção nas aulas, sem telemóvel, que tem de praticar mais, que deve trazer sempre o manual e o caderno diário, caneta, lápis e borracha, em vez de, como já aconteceu várias vezes, aparecer de mãos a abanar, pedir uma folha solta ao colega do lado, e ficar à espera que alguém tome a iniciativa de lhe emprestar uma esferográfica (se é que pretende escrever alguma coisa).


(…)"


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

A escola, os certificados e o monstro burocrático

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Pelo Público em de 7 Outubro de 2021. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título:


A escola, os certificados e o monstro burocrático


Lide (lead): 


Os professores portugueses são, na OCDE, os que mais preenchem burocracia inútil (ou que “desaparece”) como um forte contributo para o burnout.


Texto:


Se um currículo não se circunscreve ao cumprimento de programas escolares, também o percurso de um aluno não se resume às notas. Nesse sentido, foi elogiada a inclusão doutras informações nos certificados e diplomas (CeD). É expectável que os jovens, que são estimulados à exaustão para conseguirem avaliações que lhes "assegurem" o futuro, fiquem apreensivos com mais este registo do pouco tempo livre que lhes resta. Ou seja, a valorização do todo também devia resultar da humanização das avaliações e dos seus efeitos. Além disso, a história relata-nos exemplos nefastos com a institucionalização meritocrática - e o controle burocrático - até do voluntariado, com resultados opostos aos proclamados no elevador social.


O secretário de Estado e Adjunto da Educação, João Costa, explicou a ideia à Lusa: “Todo o trabalho extra feito pelos alunos desaparecia. Os diplomas limitavam-se às notas, sem fazer referência a mais nada.”.


Ora um leitor que tenha um familiar ou amigo professor, questionar-se-á: — Queixam-se que escrevem tudo em actas e os dados desaparecem? O desaparecimento referido é, obviamente, metafórico, mas explica o que os estudos concluem e a realidade confirma: os professores portugueses são, na OCDE, os que mais preenchem burocracia inútil (ou que "desaparece") como um forte contributo para o burnout; e é também por isso que a falta estrutural de professores é já inapelável em várias disciplinas. 


E perceba-se o tal monstro burocrático.


A participação de uma turma numa actividade extra é registada em inúmeras actas - em Word - durante um ano lectivo (reuniões de conselhos de turma, directores de turma, grupos disciplinares, departamentos, direcções, conselhos pedagógico e geral), enviada por incontáveis emails, arquivada nos servidores da instituição e numa plataforma digital (Drive da Google ou algo semelhante) e impressa e arquivada em quilómetros de prateleiras. Mas não consta dos processos, analógicos e digitais, dos alunos, de modo a evitar os procedimentos descritos que habitam um labirinto entrópico. Os analógicos são tratados como no século XIX e os digitais entregues a empresas privadas (em outsourcing) que limitam os campos de inserção da informação a notas, ocorrências disciplinares e faltas. E este inferno de repetição, que "elimina" a possibilidade civilizada de pesquisa como a função primeira, multiplica-se na restante informação escolar, com exemplos caricaturais: as notas dos alunos, que têm os relatórios nas plataformas do outsourcing, são novamente tratadas, pasme-se, pelos professores em Excel ou Word e enviadas e arquivadas do modo relatado.


Este ambiente demonstra o que falta fazer neste domínio, numa nação que até tem provas dadas na sociedade em rede. Imagine-se, em tom risível, o que seria se em cada concelho, ou até freguesia, existisse uma plataforma diferente para o Multibanco e para a Via Verde. Os utilizadores tinham cartões e identificadores para as diversas plataformas e os profissionais concelhios da banca e da Brisa aplicavam os procedimentos do universo escolar. É escusado detalhar os passos seguintes e os resultados para a economia.


E o tal leitor referido, também interrogará: — Mas não há escolas inconformadas? Há, claro que há ou tem havido. Criaram um software integrado centrado nos processos digitais de alunos, professores e restantes profissionais, depuraram com muito estudo a informação essencial e licenciaram-no na protecção de dados. Eliminaram repetições na obtenção de informação e proporcionaram um clima relacional e de inclusão com vantagens inquestionáveis para todos. Foram elogiadas por governantes, serviços centrais do Ministério da Educação (ME) e empresas internacionais. Mas a exemplo do "desaparecimento" dos dados, também esses registos foram obliterados pela governação seguinte. É como se as máquinas partidárias fossem mecanismos sem história das organizações e incapazes de aprender. 


Por outro lado, há mais de duas décadas que o ME constrói uma solução Via Verde que actualmente se denomina "E360". Avalie-se esse processo. Perceba-se a sua patológica situação. Se nalguns casos a inadequação dos governantes foi a causa da inacção, também se encontrará um ambiente como o descrito na célebre série da comédia britânica, "Sim, Senhor Ministro (Yes Minister)", que foi transmitida pela BBC desde 1980.


Mas é também notório que ainda prevalece uma tensão constitutiva das relações interpessoais sustentada na prevalência do poder de burocratas. Para José Gil (2005:44), "Portugal, hoje. O medo de existir", esse exercício sustenta a não-acção com o registo da “mínima palavra ou discurso em actas, relatórios, notas, pareceres – ao mesmo tempo que não se toma, em teoria, a mais ínfima decisão, sem a remeter para a alínea x do artigo y do decreto-lei nº tal”. E sublinha, Gil (2005:57), que é um duplo regime: "tenta-se inscrever freneticamente tudo, absolutamente tudo em actas, para que nada se perca ou reina a maior negligência nos arquivos que ninguém consulta nem consultará (espera-se).” Como é óbvio, os dados curriculares também "desaparecem" nos processos de professores e doutros profissionais.


Se esta ideia dos CeD se concretizar, o processo será digital e incluirá as experiências dos anos anteriores. Portanto, será interessante perceber o rigor da informação, o lançamento dos dados e a configuração dos CeD. Provavelmente, nessa altura já não seremos os destacados primeiros da OCDE na burocracia inútil dos professores porque não constaremos dos estudos. Desistiram de nos estudar porque os algoritmos da Inteligência Artificial da Google (do Gmail e da Drive) introduziram uma cláusula adicional humorada nos seus contratos: por prevenção de burnout das máquinas inteligentes, estas ignoram sistemas ininteligíveis de repetição no lançamento de dados.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Heranças

A desconfiança nos professores, que se instituiu em má burocracia, começou há mais de uma década, mas disseminou-se a partir daí. O "eduquês organizacional" alimentou-se também do modo digital. Os ficheiros que circulam nas redes escolares são intratáveis e atingirão valores não mensuráveis. Aquele anúncio da PT, que afirmava a capacidade em sediar na Covilhã toda a informação do planeta, não considerou o MEC e o sistema escolar.


A cultura anti-professor desenvolvida nos serviços centrais generalizou-se. Se considerarmos que o "modelo" exige impressão de documentos para uma leitura atenta e imparcial, estará na má impressão motivada pela racionalização de tinteiros de impressoras a explicação para a desconfiança nos professores que parece suportar-se no que pode ler a seguir. Tem os resultados depois da imagem.


 


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Daniel Kahneman (2011:91), "Pensar, Depressa e Devagar". 


Temas e Debates. Círculo de Leitores. Lisboa.


 


Resultados: 5 e 47.


 


4ª edição. Texto de 01 de Outubro de 2019. 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A Desconfiança como Herança

 


Texto de 01 de Outubro de 2019. A desconfiança nos professores, que se instituiu em má burocracia, começou há mais de uma década, mas disseminou-se a partir daí. O "eduquês organizacional" alimentou-se também do modo digital. Os ficheiros que circulam nas redes escolares são intratáveis e atingirão valores não mensuráveis. Aquele anúncio da PT, que afirmava a capacidade em sediar na Covilhã toda a informação do planeta, não considerou o MEC e o sistema escolar.


A cultura anti-professor desenvolvida nos serviços centrais generalizou-se. Se considerarmos que o "modelo" exige impressão de documentos para uma leitura atenta e imparcial, estará na má impressão motivada pela racionalização de tinteiros de impressoras a explicação para a desconfiança nos professores que parece suportar-se no que pode ler a seguir. Tem os resultados depois da imagem.


 


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Daniel Kahneman (2011:91), "Pensar, Depressa e Devagar". 


Temas e Debates. Círculo de Leitores. Lisboa.


 


Resultados: 5 e 47.


 


3ª edição.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Escolas no Meio da Ponte

 


 


1ª edição em 23 de Setembro de 2018.


"O fundamental é descobrir o fio à meada", disse Confúcio. Enquanto não temos mais classe média (o fio inquestionável da meada do sucesso escolar), o caderno de encargos da escola continua pesado. Mudar o acesso ao ensino superior (AES), por causa da saúde dos jovens e da industria dos exames e da desigualdade, será um fio comprovado que responsabilizará as instituições do ensino superior na escolha de alunos. A OCDE concluiu que os nossos estudantes são os mais ansiosos (e a Universidade do Minho diz "que a falta de autonomia dos nossos adolescentes é assustadora"), e haverá uns dois países, em quarenta e cinco, com um AES tão "stressante". Se dermos nomes às coisas, perceberemos a contradição educativa em manter este AES e, simultaneamente, lançar três eixos: flexibilidade curricular, inclusão e sucesso escolar.


O Governo ficou-se pelo mais fácil. Legislou os eixos e não tocou no AES. Parou a meio da ponte e estacionou as escolas por lá. Não teve suporte parlamentar, e muito menos selfie presidencial e autorização do eurogrupo, para o fundamental: a dimensão civilizada e democrática das escolas (mudar ordens de grandeza: turmas a eito, horários ao minuto - e recheados de trabalho inútil, esse flagelo da actualidade -, estatuto dos professores e de outros profissionais, mega-agrupamentos e gestão de escolas e hiperburocracia). Há um risco de derrapagem nas melhores intenções (flexibilidade curricular e inclusão) e de queda da exigência através de um sucesso escolar de gabinete e dos papéis. 


Obtive a imagem a meio do tabuleiro superior da Ponte D. Luís, no Porto. A ribeira é encantadora, mas a imagem não traduz a sua complexidade quando se passeia com atenção pelas ruas "ouvindo" portuenses e o que resta dos moradores: "estamos como um tolo no meio da ponte".


 


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Ribeira do Porto.


 


 

domingo, 24 de maio de 2020

Nem no Ensino por Internet e em Plena Pandemia

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O elogiado ensino finlandês consolidou há muito características determinantes que incluem a não avaliação do desempenho dos professores e a inexistência de serviços de inspecção escolar (mas existem, obviamente, os órgãos da justiça). A pandemia proporcionou-lhes um desafio formativo no ensino por internet. No resto da Europa não é tanto assim nos mecanismos de controlo, mas o que se passa em Portugal está muito distante e nem a crise serviu para qualquer avanço civilizacional que permita uma escola mais humanizada.


E não é apenas por causa do efeito sistémico do injusto acesso ao superior. Os especialistas em direito reconhecem que em Portugal se legisla mal e em excesso e, para além disso, o país tem mais de 20 anos de insucessos na organização de um sistema decente de gestão da informação escolar. A conjugação das duas insuficiências estimula um clima desregulado e de fingimento que tanto permite boas inovações como ilegalidades raramente penalizadas. Aliás, ainda no regresso à escola presencial tanto foi noticiado, com merecido elogio, o agrupamento que contornou o protocolo (pasme-se mas com um sorriso) como apareceu o ministro a prometer disciplinar a inflação de notas que é um produto antigo de um acesso ao superior que quase todos dizem querer mudar e que o próprio promete repensar; enfim. E é este ambiente de excessos, imprecisões, inacções, impreparações, desconfianças e irregularidades que cansa professores e alunos (os segundos cada vez gostam menos da escola, como se observou em estudos recentes).


E se a qualidade dos sistemas se regista nos detalhes, é a sua soma que faz a diferença. Por exemplo, os professores rapidamente se viram rodeados por excessos no processo digital. E não foi apenas por causa da "impossibilidade" da escola através da máquina. Como se recordam, os fantásticos professores passaram a leccionar, com os seus meios e de um dia para o outro, nas plataformas da google, microsoft, zoom, cisco webex, whatsapp, facebook ou moodle onde ficam os meta-dados com a devida notificação (por exemplo, presenças, com dia e hora, de alunos e professores) e se alojam conteúdos, tarefas, actividades e conexões digitais. Mas para o legislador é insuficiente. Como as escolas financiam plataformas digitais de empresas privadas, por causa do referido insucesso do Estado, para todos estes registos no tempo normal, os professores repetem o lançamento da informação para preencherem horários que deixaram de existir. Mas para o legislador ainda é insuficiente. As orientações centrais ainda prevêem a obtenção das informações de um modo que resulta em ficheiros digitais (em regra, em word ou excel e nas já célebres e infernais grelhas) com uma periodicidade que pode (o deve fica sempre nas entrelinhas) ser diária, semanal, quinzenal, mensal, trimestral, semestral ou anual. É o tal estímulo às ideias de fingimento e contorno do protocolo.


Em regra, apontam-se duas razões (aconselho a leitura do "Temos que parar para pensar" de António Galopim de Carvalho) para este universo estranhamente pouco estudado: impreparação na análise e programação de sistemas de informação e o "modo como há muito se preenchem os lugares no parlamento, nos gabinetes ministeriais e na máquina escolar". Parecem-me conclusões razoáveis (digo razoáveis porque não são exclusivas de Portugal; embora por cá se exagere, realmente), mas com elevado grau de acerto. De qualquer modo, é uma letargia que nem o ensino por internet, e em plena pandemia, inquietou verdadeiramente. E isso cria apreensão com a logística da anunciada "blended learning" (presencial e internet), ou dos seus derivados na sociedade das conexões, num futuro próximo que radiografará os países.


Duas pequenas notas:


1. O Público entrevistou Ruth Wagen, doutorada em comportamento organizacional pela Universidade de Harvard, que diz: “Em teletrabalho, não ceda à tentação de monitorizar as pessoas, de as pressionar ainda mais”.


2. A pandemia teve uma utilidade: caiu por terra a ideia da substituição de professores por máquinas.

sábado, 7 de março de 2020

A Escola do Futuro e a Solução Técnica 3D

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Controlamos "a fome, as epidemias e as guerras(...) e é provável que no século XXI os humanos empreendam uma tentativa séria de alcançar a imortalidade.(...) A abordagem da cultura e ciência modernas à morte é totalmente diferente(...): não a veem como um mistério metafísico(...), veem-na como um problema técnico que pode e deve ser resolvido" (em Homo Deus de Yuval N. Harari). Portanto, se já nem se equaciona que só não há solução para a finitude humana, por que razão transcendente é que não haverá uma solução técnica para resolver a escola? Tenho ideia que é uma questão de dimensões. A escola tem, e não é de agora, uma solução técnica 3D e a portuguesa refugia-se há tempo demasiado numa só.


Por exemplo, as dimensões da imagem - processo de ensino (1), escola como organização (2) e gestão da informação (3) - exigem que os decisores (onde se incluem os professores) sejam tridimensionais, mesmo quando se deslocam para um dos vértices: planear uma aula (1), requer o conhecimento das condições de realização (2) e da informação a fornecer ao sistema (3); fazer uma mudança curricular (2), implica o domínio da didáctica geral (1) e da informação a obter (e do modo de o fazer) (3); criar uma plataforma digital (3), exige conhecer a didáctica geral (1) e as condições de fornecimento da informação (2).


Ou seja, o problema técnico do Governo do nosso sistema escolar é a antiga navegação unidimensional, e exclusiva, na "escola organização". Agrava-se porque tem sido uma espécie de obsessão, instável e desorientadora, com a meta-escola: mais ou menos exames, mais ou menos currículo e programas, mais ou menos flexibilidade, inclusão ou administração do sucesso e excesso de procedimentos que provocam a repetição exaustiva na obtenção de dados. É como se não existisse processo de ensino e aprendizagem (daí a "fuga" ao real) nem gestão da informação (daí a hiperburocracia). No óbvio, e cíclico, insucesso das políticas, "reforma-se" desprezando uma comprovada e clássica ideia nuclear que resume a solução técnica 3D: num sistema escolar só se justifica o que sai da sala de aula para lá voltar.


Notas: Encontrei a imagem num resumo para o workshop "Modelo tridimensional de geometria variável" (quem chegar aqui pelo facebook encontra a ligação no blogue).


 

domingo, 3 de novembro de 2019

A Escola e a Dança dos Homens

 


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"Se houvesse um povo de deuses, ele governar-se-ia democraticamente. Um governo tão perfeito não convém a homens" (1). Esta conclusão explica o ministério da educação das últimas duas décadas, em que houve homens acima dos deuses e da democracia. Se a entropia social evidenciada em 2008 expôs a "lei de bronze da oligarquia" (ideia de Robert Michels) que condicionou os governos, na escola portuguesa a dependência ficou a cargo de uma dança de homens que descolou o discurso oficial de qualquer realidade. Quando se denuncia a tormenta burocrática de um centralismo distante das salas de aula e com forte tendência para sofisticar à exaustão a administração de inutilidades que excluem o conhecimento das disciplinas, não se pensa em funcionários. A sofisticação é obra de grupos de missão bem avençados e sem tabela de remuneração, escrutínio ou avaliação. Está para além de ser ministro ou secretário de estado, embora inclua a função de correia de transmissão tridimensional: rever programas curriculares e meta-procedimentos, organizar formação e produzir e comercializar literatura de apoio. É um bailado que inferniza qualquer ideia de autonomia, currículo, interdisciplinaridade, flexibilidade ou inclusão e que sustenta quatro pilares do neoliberalismo imposto pelos governos de Barroso e de Sócrates: carreira dos professores, estatuto do aluno, avaliação do desempenho (inspiraram-se, e só para avivar memórias, no modelo do Chile) e gestão das escolas. 






O Grupo de Missão, que estimula o conceito de Grupo Fechado, resulta desse triunfo que fez escola no sistema escolar. Corre patamares bloqueando canais participativos e mecanismos mobilizadores. O Grupo de Missão impacienta-se com o contraditório e pugna pela pirâmide da organização militar omitindo que um professor do 1º escalão pode leccionar a mesma turma que um do 10º e que a tarefa cimeira da escola é a sala de aula. Outro sinal negativo para a escola pública, é a publicidade dos Grupos de Missão. Visitam escolas e recomendam o modo organizacional, como exemplo de cooperação, sem sequer vislumbrarem a contradição. Invariavelmente, argumentam: mas os resultados escolares na escola pública não melhoraram nos últimos 45 anos? Claro que melhoraram. O essencial é sempre a evolução da sociedade, e basta comparar o Portugal de 60 e 70 do século passado com o actual, como demonstra a história mundial dos sistemas escolares. Quanto mais pobreza, mais insucesso e abandono escolares. Se temos 2 milhões de pobres, é natural que 50 mil crianças reprovem logo nos primeiros ciclos como diz hoje o Público. É uma realidade que está a montante da escola, por muito que esta atenue desigualdades. 


Daniel Innerarity alertaria os Grupos de Missão: os vossos "conceitos estão completamente ultrapassados" numa sociedade em rede, porque estão estritamente ligados a uma linha centralista e hierarquizada. Só persistem como um fatalismo histórico porque, e como alguém também disse, "as nossas elites são historicamente viciadas em viver à custa do trabalho dos outros; foi assim durante três séculos com a escravatura, também com o ouro e as especiarias e até com o colonialismo; na actualidade, é o que se vai conhecendo."


Escolhi uma imagem de "danças de deuses" na esperança de que um dia se cumpra o desejo de Rousseau e a lembrar-me como é cada vez mais difícil regressar a George Steiner (2): "Quem não estiver doente de esperança não tem a mais pequena hipótese de ser professor".


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(1) Jean-Jacques Rousseau, Contrat Social ou Príncipes ãu Droit Politique, Paris, Garnier, s/à, p 281.


(2), George Steiner (2005:148) "A Lição dos Mestres", Gradiva, Lisboa.


Encontrei a imagem do post na internet sem referência ao autor.