

Luís Afonso
"Bastou o primeiro-ministro grego anunciar que consultará o povo, através de referendo, sobre as novas e gravosas medidas de austeridade e perda total da soberania orçamental impostas ao país pelos "mercados" e seus comissários políticos em Bruxelas e nos governos de Berlim e Paris para cair a máscara democrática desta gente.
Na pátria da Democracia, o Governo decide-se por um processo democrático básico e Sarkozy fica "consternado" e considera a decisão "irracional" enquanto alemães e FMI se mostram "irritados" e "furiosos" com ela. E Merkel e Sarkozy assinam um comunicado conjunto dizendo-se "determinados" a fazer com que a Grécia cumpra as suas imposições e lhes ceda o que ainda lhe resta de soberania; só lhes faltou acrescentar "queiram os gregos ou não queiram" e mobilizar a Wehrmacht e a "Force de Frappe"...
Até Paulo Portas, ministro de uma coligação eleita com base em compromissos eleitorais imediatamente rasgados mal tomou posse, está "apreensivo".
O medo que esta gente, que tanto fala em Democracia, tem da Democracia é assustador. Aparentemente, o projecto de suspensão da Democracia por 6 meses (ou por 48 anos) estará já em curso. Pinochet aplicou no Chile as receitas de Milton Friedman suspendendo sangrentamente a Democracia. Como é que "boys" de Chicago como Gaspar ou Santos Pereira, que chegaram a ministros sem nunca antes terem governado sequer uma mercearia, o fariam em Democracia?"
Quando fiz o post anterior e me dei ao trabalho de fazer uma recolha de links, pressenti que qualquer coisa de grave se estava a passar na Europa. É fácil atirar pedras, mas haverá pessoas mais responsáveis pelo que existe. Na vida das nações, como na das instituições, não se deve brincar com o fogo. Se as pessoas sentem que já não têm nada a perder, as consequências são imprevisíveis. As imperfeições das democracias aguentam muitas travessuras, mas a corrupção e a ganância continuadas podem gerar o caos social. Note-se que quando refiro os dois fenómenos mais destruidores da democracia, estou também a incluir a responsabilidade de quem permitiu, objetivamente, que as pragas se alastrassem impunemente.
Não é só na Grécia que se fala na revolta dos militares.
O governo grego decidiu dar voz institucional ao povo. Atitude corajosa ou de quem já não sabe o que fazer? De um modo ou de outro, ou até por outra razão, o que é certo é que os gregos fizeram estalar os consensos nos bastidores do euroviete supremo e nos seus satélites. A categoria satélite pode, neste caso, ter uma influência determinante e ditar as regras do jogo.
Repare-se nas reacções.
Papandreou põe o povo a decidir sobre novo pacote e mais austeridade
Sarkozy e Merkel “determinados” a aplicar plano de resgate à Grécia
Bolsas europeias afundam-se após anúncio de referendo da Grécia
Barroso diz estar confiante no cumprimento da Grécia
Entretanto, os citados satélites movimentam-se.
Por cá, é mais no registo comediante e de avanços e recuos.
Offshore da Madeira. Governo volta atrás e mantém isenções fiscais
E os outrora eurocépticos e acérrimos defensores de referendos baralham-se e...