Aqui por casa. Lidos com muito gosto.
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"Não ouviste, que estás a fazer com esse pau, tornou o pai a perguntar, e o filho, sem levantar a vista da sua operação, respondeu, Estou a fazer uma tijela para quando o pai for velho e lhe tremerem as mãos, para quando o mandarem comer na soleira da porta, como fizeram ao avô." De José Saramago em "As intermitências da morte".
Lembrei-me do livro de Saramago ao ler o seguinte:
Recebi por email a seguinte mensagem que partilho com todo o gosto: "Andando por "aí", encontrei esta mensagem do realizador Miguel Gonçalves Mendes sobre a pouca afluência que o seu filme (e documentário) José e Pilar tem tido nas salas portuguesas. Nada de novo, continuamos a maltratar o que é nosso. Vi o filme no sábado e recomendo-o vivamente. Além de nos revelar mais sobre o escritor e a sua mulher, revela-nos um outro homem e uma outra mulher. E faz-nos pensar em nós próprios, acreditem. Por isso, ponham nas vossas agendas e vão ver antes que saia das salas de cinema".
Verei o filme na primeira oportunidade.
"Era uma vez um rei que fez uma promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez."
José Saramago,
em Memorial do Convento.
Os católicos mais-mais-à-direita refilaram por causa dos casamentos gay. O PR recompensou-os com o funeral de Saramago. Se também é assim na economia, por que não um poeta?
Liguei-me à rede há pouco. Viajava de carro e sintonizei a antena dois da RDP. Morreu Saramago.
No princípio não lhe conhecia a voz. Depois, quando o lia, ouvia-o. Escrevia tão bem como falava. Quase que não se distinguia nos registos. Suspeito que quem escreve muito e bem tem muito trabalho; devia ser por isso.
Foi quase amor à primeira vista. Sempre em crescendo até ao indizível memorial de convento. Até aí, nada escapou; uma espécie de subida ao cume. Depois disso falhei algumas vezes. Algum receio de desencanto. Nunca reli o memorial. Assim de repente, reler gente do mesmo nível tem valido. O recherche de Proust e o Ulisses de Joyce aumentaram o encanto.
Saramago tocava no português rectangular e dava-lhe dimensão global; e emoção; e dignidade; e humanidade. Afinal, a verdadeira razão da língua de Camões.
Já vos tinha dito, que a obra começa e acaba com a mesma frase: no dia seguinte ninguém morreu. A morte adormeceu. Adormeceu de amor. Como compreendo o José Saramago. Valeu. Tive pena de chegar ao fim. O último terço do livro é um fascínio.