quinta-feira, 23 de abril de 2026

IA: são os professores dispensáveis?



Pelo Público, em 23 Abril de 2026. O texto tem 4 ligações. A leitura na edição online do Público é de acesso gratuito. Como acordado, o texto está publicado no blogue (mas sempre depois da publicação online do Público).


Texto:

Dificilmente as democracias ocidentais e as suas escolas públicas regressarão à primazia da busca desinteressada do saber. Este modelo inscrevia a matriz greco-romana na "Ideia de Europa", tornava a profissão de professor indispensável e entusiasmante e influenciava a maioria das escolhas dos estudantes na segunda metade do século XX.

Mas tudo mudou com a crise petrolífera de 1973 e com as políticas de Thatcher e Reagan para cortar o financiamento das políticas públicas e desregular os mercados e os impostos dos mais ricos. Iniciou-se aí a crise do exercício de professor e da generalidade das profissões da administração pública. Portugal chegou com 20 anos de atraso a este fenómeno.

Estes factos empurraram, poucas décadas depois, os países ocidentais para algumas encruzilhadas:

1. A consolidação da perda de atractividade da profissão de professor;

2. A entrega de crianças e jovens à selva digital;

3. A crise de 2008, com a solução perversa, e politicamente devastadora nas escolhas dos eleitores, de entregar os volumosos financiamentos salvíficos aos causadores da catástrofe — a banca;

4. E os avultados investimentos na inteligência artificial (IA) que não estão a gerar a necessária comercialização em massa que a torne rentável e lucrativa.

Chegados aqui, há sinais preocupantes que requerem toda a atenção também dos sistemas educativos e de quem contrata professores e organiza a sua carreira.

Por exemplo, Daron Acemoglu, que considera excessiva a euforia sobre a relação entre o crescimento económico e a IA, defende que não se deve centrar o uso desta tecnologia na automação e substituição de trabalhadores, mas sim no aumento da sua produtividade. Sami Mahroum acrescenta que a IA potencia três formas distintas e incompatíveis de organizar a vida económica — tempo de máquina, tempo pessoal e tempo de relógio — que terão efeitos na organização do ensino.

Além disso, perante os crepúsculos da democracia liberal e do capitalismo de mercado, surgem novos e poderosos conceitos interessados na "uberização" dos professores: a supremacia do capital-nuvem, dos cloudistas e das rendas (onde o dólar e o yuan já dividem o domínio mundial); a monarquia tecnológica; e o tecnofeudalismo.

Por outro lado, recorde-se que um líder da China, Deng Xiaoping, declarou em 1978 o célebre "ser rico é glorioso", que transformou uma economia agrícola fechada num colosso industrial capaz de ultrapassar, poucas décadas depois, as democracias ocidentais em domínios como a IA, a robótica, a computação avançada e as novas gerações de redes digitais. O desenvolvimento tecnológico na Ásia é, efectivamente, incomparável.

Em termos educacionais, a China anuncia uma remodelação do triângulo escolar composto por professor, alunos e conhecimento. Este último, historicamente apoiado em ferramentas tecnológicas, é substituído pela proclamação da máquina e da IA como o novo vértice essencial na relação do professor com os alunos.

Ou seja, a China, os EUA e alguns governantes das democracias ocidentais advogam, como em 1980 e através da proletarização dos professores, cortes significativos nos orçamentos da Educação. Talvez isso dê sentido à afirmação do ministro da Educação de Portugal no Parlamento: "a educação tem um número de profissionais cinco vezes superior ao do maior empregador privado, o Pingo Doce". Aliás, o mesmo gabinete governativo anunciou a desistência, para esperar pela IA, no apuramento do número de alunos sem professor e sustenta uma profecia de que a IA permitirá "aprender três vezes mais rápido".

Em regra, este novo extremismo liberal cita muito o pai da corrente, Adam Smith, mas parece não ter lido dois avisos na página 80 da "Riqueza das Nações" (ed. Gulbenkian de 2010). Primeiro, que os gestores profissionais tendem a concentrar-se nos seus interesses e a desvalorizar os dos proprietários das empresas (transpondo para a educação: o interesse de professores, alunos e sociedade). Segundo, como afirmou Smith, "as pessoas não são alfinetes" (ou seja, as escolas não são empresas).

Em suma, afastamos gravemente o humano do centro do organismo social. Acentua-se a desvalorização do ensino, especialmente nas humanidades, nas ciências sociais e nas artes, que se poderá agravar à medida que as consequências da IA no futuro das profissões se tornem mais nítidas.

Aliás, a Ministra da Educação da Estónia, o país mais digital da Europa, sublinhou recentemente a prudência elementar, como fariam os seus colegas da Finlândia ou de Singapura (três países dos primeiros lugares nos resultados PISA): confiança nos professores, turmas de 15 alunos e políticos "longe da sala de aula". É que, e ainda segundo estudos da OCDE, os três países estão nos lugares cimeiros, e, nisso acompanhados por Portugal, na lista de países com mais professores jovens que pensam desistir da profissão.

Contudo, não acompanham Portugal, bem pelo contrário, na lista de países onde há mais indisciplina nas salas de aula por perda de autoridade pedagógica dos professores. No fundo, Portugal chegou tarde a estas políticas mas acelerou a descredibilização dos serviços públicos perante um mundo que teima em ditar, obsessivamente: "diz-me quanto vales em dólares ou em yuans e dir-te-ei quem és".


Surpreendido?!! Mas a mesma OCDE disse, há cerca de uma década, que os professores portugueses são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos




Surpreendido?!! Mas a mesma OCDE disse, há cerca de uma década, que os professores portugueses são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

domingo, 19 de abril de 2026

A escola pública está em queda e o país resignou-se






Texto:

A última vez que o investimento em educação, em percentagem do Produto Interno Bruto (PIBedu), esteve abaixo do mínimo democrático dos 3% a 4% foi em 1973, com 1,63%. Mas 52 anos depois, o executado em 2025 e o orçamentado para 2026 serão inferiores a 3%. Objectivamente, o PIBedu entrou em recessão, a escola pública está em queda e o país resignou-se.

E se vários indicadores descrevem o declínio da escola pública - queda das aprendizagens (mais acentuada onde faltam professores), indisciplina nas salas de aula e inferno burocrático (dados da OCDE) -, o PIBedu destapa cruelmente o desprezo pela democratização do ensino logo que se atingiu a sua notável generalização no final do século XX.

De facto, e apesar de não existirem dados seguros sobre o PIBedu para parte do século XX, é possível afirmar que se registou uma subida desde 1974, com dados mais confiáveis desde 1976, e que o investimento se manteve acima do mínimo democrático. O valor médio para o período de 1973 a 2021 foi de 4,23%. Em 2021, o investimento médio na Europa foi de 4,81% e Portugal registou o valor recente mais elevado: 4,78%. A Islândia investiu o valor máximo, 8,22%, e o Mónaco o valor mínimo, 1,42%.

Mas a queda da escola pública resume-se em quatro ou cinco parágrafos. Se Portugal entrou no século XXI com um PIBedu de 6,6% (no Eurostat para 2001), o desinvestimento iniciou-se dois anos depois com o "país de tanga" de Durão Barroso e acentuou-se com a "guerra aos professores da escola pública decidida num conselho de ministros de 2006" - confissão de António Costa, SIC, 18/04/2015, mas que os seus governos mantiveram. O PIBedu tornou-se o alvo mais apetecível, já que a sua massa salarial varia entre 75% e 85%, e sofreu a investida de José Sócrates apoiada por toda a direita - incluindo a que transitou para os extremados partidos -, que a agravou sempre que governou.

Acima de tudo, as políticas de precarização e proletarizarão dos professores, com a consequente perda de autoridade e de atractividade da profissão, começaram a reflectir-se no PIBedu em 2009 (5,6%). A década seguinte (2010) foi devastadora, apesar das várias intimações da Comissão Europeia a propósito do inominável desprezo profissional por milhares de professores contratados com décadas de precarização e pelos bloqueios à progressão salarial dos professores dos quadros.

A queda tornou-se indisfarçável na década vigente e comprometeu os governantes deste milénio. Efectivamente, as intoleráveis falhas de planeamento sobre a falta de professores foram sustentadas pelo marketing partidário, pela bolha mediática e pelos acordos com sindicatos amestrados. Ficou tristemente célebre o temos “professores a mais” de 2012, e terão destino semelhante o estado de negação do PS e o recente eleitoralismo da multiplicação milagrosa de professores.

Na verdade, os 8 mil milhões de euros orçamentados em 2022, 2023 e 2024 desceram até aos 3% com o natural crescimento do Produto Interno Produto. Baixar-se-á do mínimo democrático com os 7,4 mil milhões de euros que se prevê executar em 2025 e com os 7,7 mil milhões de euros orçamentados para 2026. O PIBedu cairá para cerca de 2,8%. Poderá, no final da década ou até antes, aproximar-se dos 2%. 

O facto do executado ser inferior ao orçamentado, descreve-se com os números das aposentações: desde 2001 que, anualmente, se aposentam entre 3.500 e 4.000 professores, valor que se manterá até 2030 e mesmo até 2034. Sumariamente, por cada 3 aposentações (10,2 mil euros brutos) entram 2 profissionais (3,4 mil euros brutos). Deste modo, se a folga orçamental permite ilusões eleitorais e acode a desesperos governativos na ordem dos actuais 118 milhões de euros, degrada a qualidade dos restantes indicadores ao sobrecarregar os exaustos professores com serviço extraordinário a eito (desde 1999 que não se atribuía serviço extraordinário) e com o prolongamento voluntário da idade da reforma que parece acolher privilegiados pela engrenagem.

Objectivamente, será difícil reverter a queda do PIBedu com as crescentes obrigações orçamentais na defesa e na saúde. E agrava-se com o desvio do centro de gravidade da política, e da sua mediatização, em direcção à extrema-direita e aos temas da demagogia estridente. E enquanto o país se convenientemente distrai, crescem brutalmente as desigualdades educativas. O sucesso escolar já não se faz de talento e esforço. O investimento financeiro das famílias é decisivo e tem um efeito de bola de neve.

Em síntese, as escolas para ricos, com propinas elevadas, farão a diferença, até no uso sensato, formativo e não adictivo das tecnologias, e acentuarão as desigualdades. Os colégios internacionais passaram de 9, em 2010, para 18, em 2021, e um grupo privado britânico de escolas para ricos já investiu mais de 300 milhões de euros. A escola pública ficará exposta à massificação das gigantes tecnológicas interessadas num "tutor de inteligência artificial por aluno", na telescola 3.0, na subalternização do papel dos professores e na alocação de hardware de baixa qualidade, e o que resta da inteligência natural parece incapaz de reverter a anestesia do país e a queda da escola pública.

Nota: este texto contribui, com uma torrente de literacia financeira, para o espírito da novilíngua da "nova" disciplina de Cidadania e Desenvolvimento.

Segunda nota; o texto foi publicado no Público, nas edições impressa e online, em 24 de Novembro de 2025. Online, o texto tem 10 ligações. A leitura na edição online do Público é de acesso gratuito. Como acordado, o texto está publicado no blogue (mas sempre depois da publicação online do Público). Com a mudança do blogue da SAPO para o blogger, a exportação ficou com alguns problemas de formatação. Vou corrigindo e republicando os textos, como este, mais intemporais. Na Educação, a inércia do poder político é toda uma escola.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ex-diretor da CIA apela à destituição de Trump

E depois de Abril

 






Ponto prévio: este texto foi publicado no Público de 14 de Maio de 2024. Com a mudança do blogue da SAPO para o blogger, a exportação ficou com alguns problemas de formatação. Vou corrigindo e republicando os textos, como este, mais intemporais. O texto tem 6 ligações.

Texto:

Abril celebrou, com uma manifestação inesquecível, os 50 anos de um dos momentos mais significativos da História da democracia europeia, e testemunhou a inquietação com os resultados eleitorais. E se votar e celebrar deviam transportar a esperança no futuro, passou Abril e regressou a engrenagem doentia à vida dos professores.

Tem sido assim nas últimas duas décadas, apesar das inúmeras formas de luta carregadas de genuinidade e autenticidade (algumas manifestações estão entre as maiores de sempre). Os professores já perceberam que, mais uma vez, nada mudará. Ouviram os apelos ao fim do medo nas escolas e à restauração das liberdades elementares, mas nada mudará porque foi exactamente com a asfixia da democracia que se iniciou a sua proletarização.

De facto, o poder político foi mal-agradecido com as gerações de professores que democratizaram o ensino; e habituou-se. Desfila na avenida sem remorsos, apesar de já ser impossível esconder a falta estrutural de professores e a queda das aprendizagens dos alunos. A ingratidão dos consecutivos governos resume-se nos incontáveis acórdãos dos tribunais a ilegalizar serviços mínimos aplicados "tacticamente" nas escolas. Por via disso, decorrem intoleráveis processos disciplinares, e persistem faltas injustificadas e descontos salariais.

Recorde-se que é factual a desistência, neste milénio, do Orçamento do Estado na Educação: de 6,3 % do PIB para 3,6%. Os sucessivos governos centraram-se no corte orçamental e na obtenção caótica de dados. Aceleraram a entropia na destruída carreira dos professores, ignorando os avisos a implorar por justiça e simplificação de procedimentos. Aliás, há incalculáveis situações brutalmente injustas e irreparáveis e outras tantas em vias disso.

Mas o novo Governo segue o manual da descida. A proposta do ministro da Educação de recuperação de 25% do tempo de serviço a partir de 1 de Setembro de 2024, é complementada com a revogação do “acelerador da progressão” do decreto-lei 74 de 25 de Agosto de 2023, e o processo estende-se até ao final da década. Não querendo maçar o leitor com tecnicidades, apenas lhe digo que esta proposta, que relaciona escritos de Franz Kafka e Nicolau Maquiavel, provocará mais injustiças. Além disso, sem a eliminação das quotas e vagas na avaliação do desempenho, milhares de professores não obterão qualquer efeito da recuperação do tempo de serviço, numa carreira que terá, até 2030, uma redução estimada de mais de 7% da massa salarial.

E cruzando os programas, eleitoral e de Governo, com as opiniões dos governantes da Educação, instalou-se uma apreensão que não se resume à recuperação de empresas privadas da Educação financiadas pelo Estado, ou à ausência de qualquer programa que enfrente a falta de professores.

Sumarie-se: se os professores explodiram, em 2022, de indignação e exaustão por causa da passagem dos concursos para as escolas, o Governo parece que a recuperará, acrescentando-lhe a municipalização, a desqualificação do exercício e a substituição de professores por conteúdos digitais massificados; se os professores não desistem de protestar contra o modelo de gestão das escolas, o Governo parece possuído pela criação da carreira de dirigentes escolares sem limitação de mandatos; se os professores teimam em protestar contra a farsa da sua avaliação alimentada por quotas e vagas, o Governo promete prémios de desempenho para dissimular a queda da massa salarial e agravar a divisão de profissionais.

Aliás e em suma, a secessão, a divisão, a separação, o confronto violento e o ódio tornaram-se as armas dominantes na democracia. E se a sua patente fragilidade desespera por mais união, mais cooperação e mais objectivos comuns na elevação da sociedade e das organizações, o Governo acentuará no ambiente escolar o individualismo e o salve-se quem puder, e não tardará em tentar colocar a opinião pública contra os profissionais. Se a democracia é a vontade da maioria em respeito pelas minorias, a receita para as escolas é a vontade das minorias em desrespeito pelas maiorias.

Acima de tudo, se a OCDE, a Comissão Europeia e outras organizações, há muito que alertam que é em Portugal que a indisciplina, a burocracia e a organização do trabalho mais adoece e desgasta os professores, também sublinham que estes são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos. E se é "entre os jovens que o legado do 25 de Abril é mais valorizado", não demorará que os historiadores concluam: a escola pública só não caiu mais depressa, porque milhares de professores são cravos que não murcham.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Só se desburocratizará quando o poder voltar à sala de aula

 





Texto:

"- Pensas que sou um homem culto e instruído? - Com certeza - respondeu Zi-gong. - Não é? - De modo nenhum - disse Confúcio. - Simplesmente descubro o fio da meada. Em "Memórias históricas" de Sima Qian."

Há muito que, ciclicamente, se anuncia a reforma e desburocratização dos serviços públicos, mas todos os estudos concluem: a burocracia escolar aumentou e agravou-se com a transição digital. De facto, o inferno não pára de crescer, em paralelo com a falta estrutural de professores, com a desautorização de quem ensina, com a indisciplina nas salas de aula e com queda das aprendizagens dos alunos.

Mas a má burocracia não é uma fatalidade. Não era a analógica e muito menos é a digital. Trata-se de descobrir o fio da meada e mudar. Só que mudar para que os alunos voltem a ter professores e para que a mudança não inscreva Giuseppe di Lampedusa - "é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma" -, exige conhecimentos sólidos que cruzem a organização escolar com os sistemas de informação.

É que, acima de tudo, só se iniciará a desburocratização quando o poder escolar voltar à origem, ao nível micro, à simplificação da organização e à confiança na relação, intemporal e contraditória, do professor com os alunos mediada por conhecimentos, destrezas, atitudes e valores. É, sobretudo, voltar à essência do poder escolar e ao que justifica a existência da escola. É onde tem que começar a análise e programação de um sistema de informação que assuma as palavras-chave da sociedade da informação e do conhecimento: confiança, simplificação e transparência. E a exemplo das notáveis automatizações do Multibanco (e do "Banco Online") e do Portal das Finanças, tem que partir de um binómio - obter informação para a fornecer em tempo real - e dos processos digitais de alunos, de professores e de outros profissionais, num coração de dados (biográficos, de comunicações e de frequência escolar) resultante do reconhecimento do que é padrão e essencial para o histórico e para a tomada de decisões; e nunca pode estar à mercê de chefias em roda livre informacional.

Para isso, é imperativo libertar a sala de aula do caos informacional obtido por um poder central que perdeu capacidade técnica a cada reforma orgânica descentralizadora para as CCDR, delegações regionais, CIM ou autarquias - e está em curso mais uma - e se tornou dependente do poder partidário e de empresas privadas. De facto, há centenas de plataformas não relacionadas - que obtêm informação repetida - imaginadas por chefias que os partidos colocaram num enxame de projectos e planos nacionais, ou nas estruturas descentralizadas, que infernizam a obtenção de dados escolares para a improdutiva troca entre si. Nessa linha e como exemplo, o Governo entregou à KPMG a trapalhada manipuladora do número de alunos sem aulas - agendada apenas para 2026 -, que recorrerá a um dos pesadelos diários da transição digital para quem lecciona: os sumários das aulas.

Acrescente-se que os programas de avaliação externa das escolas, da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, enfermam da mesma doença. Não elevam qualquer passo de desburocratização e, pelo contrário, estimulam as chefias escolares para a obtenção de informação numa balbúrdia intratável de grelhas, planos, projectos, actas, pareceres, inquéritos e relatórios.

Mas a mudança de poder em democracia obedece ao primado da lei. E se qualquer estudo sobre a fuga a ser professor identifica cinco causas - carreira, burocracia, avaliação do desempenho, gestão das escolas e indisciplina -, há duas alterações que são outro fio da meada: acabar com a injusta farsa administrativa que avalia numericamente professores, e ainda usa quotas e vagas, e com o modelo autocrático de gestão das escolas (a bem da inovação e da democracia, uma chefia deve mudar a cada oito anos) que desvalorizou os professores na escolha de quem as dirige. Alguns ministros da educação, como o actual, constataram-no, mas a engrenagem instalada, que também espelha o oportunismo de muitos professores, só "permite", e no espírito Lampedusa, mudanças aos níveis macro e meso.

Por fim, não se espere pela irrelevância do professor nas salas de aula do futuro. Desde a origem que ser professor é desafiar o amanhã e a incerteza. A degradação da profissão sintetiza-se assim: até à primeira década do milénio, ligava-se à escola de formação inicial para a actualização científica e pedagógica e prestava duas contas a qualquer momento: como geria o programa que leccionava e como avaliava os alunos. Mas tudo isso se perdeu. A formação contínua transformou-se, em regra, numa indústria de futilidades, e a desconfiança no seu exercício inverteu o ónus da prova, atomizou os chefes que obtêm informação, nivelou os procedimentos por baixo em busca de maus profissionais e tornou medíocre toda a organização.

Nota: este texto foi publicado no Público em 28 de Agosto de 2025. Com a mudança do blogue da SAPO para o blogger, a exportação ficou com alguns problemas de formatação. Vou corrigindo e republicando os textos, como este, mais intemporais. Na Educação, a inércia do poder político é toda uma trágica escola. O texto tem 3 ligações.