Soube pelo suplemento ípsilon que Abbas Kiarostami estava em Itália. Afinal um dos meus realizadores preferidos filmava na Toscânia enquanto decorria a revolução verde no Irão que, e segundo a opinião de Kiarostami, foi feita pelos filhos da primeira revolução.
O suplemento do jornal Público faz uma boa reportagem a propósito do festival "Doc Lisboa", aqui, desta vez com o mote "O Irão tira o véu". A obra "Shirin" de Abbas Kiarostami, também conhecida pela fita das "114 de mulheres do realizador" dá corpo a um texto de Vasco Câmara onde o cinema de Kiarostami é bem descrito.
Tem uma passagem muito interessante que diz assim:
"(...) Mas isso é o "Kiarostami´s touch": sempre uma textura sinuosa, vertiginosa, diríamos até perversa, por trás da aparente simplicidade; uma consciência aguda, tão aguda que chega a ser cruel, das transferências que se dão em frente ao ecrã. Kiarostami falará direito por linhas tortas, como as estradas que sulcam os ecrãs nos seus primeiros filmes (nem todas existiam, aliás; tornaram-se "reais" para os filmes). E é por aí que anda a dimensão política do seu cinema, por caminhos mais elípticos do que os da nova geração de cineastas iranianos - veja-se como Abbas, que deixou o campo e chegou à cidade, e à mulher iraniana, em "Ten" (2002), na altura em que os cineastas mais jovens começavam a esventrar e a expor Teerão, filmou uma cidade enfiando-se num carro.
Por isso, por esse lado mais oblíquo do seu cinema, alguns o acusam, no Irão, de fazer filmes apolíticos. Ou de filmar para audiências estrangeiras. Num perfil/entrevista no "Guardian" Abbas respondeu: "Se político significa ser militante eu não farei nunca um filme político; nunca vou sugerir a alguém que vote por uma pessoa ou pela oposição. Não estou a forçar as pessoas a reagir, estou a tentar atingir uma verdade na vida quotidiana. Sempre que conseguirmos tocar essa dimensão isso é essencial e profundamente político".
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