O 15 de Agosto recorda-me sempre o filme imperdível de Gianni de Gregorio. E nem sei porquê, mas desta vez associo-o à difícil poesia de Rainer Maria Rilke: exige leitura repetida, mas o resultado é sublime. É um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, situado perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.
Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
Por isso me contenho e engulo o apelo
deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens,
e os argutos animais sabem já
que nós no mundo interpretado não estamos
confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.
Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo
nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,
suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente
do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?
Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)
Depois da poesia, um vídeo do filme - é um muito bom momento de humor -.
Rilke é um monte Olimpo para os tradutores...
ResponderEliminarNem mais. E mudando de assunto mas mantendo-me no post: o almoço de 15 de Agosto é uma obra de uma humanidade que impressiona.
ResponderEliminaruma humanidade ao estilo do "O carteiro de Pablo Neruda"...
ResponderEliminarmas o que angustia, é que cada vez mais apenas se vê essa humanidade em obras cinematográficas em vez de no quotidiano...
Um filme belíssimo. Não será tanto assim. Gosto de pensar na prevalência do bem. Mas é bom ler a "nova teoria do mal" de Miguel Real; sem dúvida.
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