segunda-feira, 27 de abril de 2026

"São os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos" concluiu a OCDE em 2018



Título: "São os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos" concluiu a OCDE em 2018.

Texto:

"Os professores portugueses são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos", concluiu a OCDE há menos de uma década e reforçou-o na semana passada com outra conclusão: "os professores portugueses lideram na pedagogia". E o que disse o ministro da Educação? Mostrou-se "surpreendido com os resultados". É na linha de um texto (2014) do actual secretário de estado da Educação: "temos maus professores".

No fundo, é uma súmula da tragédia que proletarizou os professores, que são uns azarados com a sucessão de governantes. De facto, há políticos, académicos e lobistas viciados no financiamento do orçamento do Estado que são os responsáveis por este legado. Para além de se terem transformado numa confraria de "bullies" dos professores, asfixiaram a democracia escolar. Resume-se em semelhantes e célebres afirmações de governantes: perderam-se os professores, mas ganharam-se os pais; há professores a mais e os excedentes devem emigrar; os directores são os braços direitos do poder que resolverão a falta de professores.

Se se considerar que a OCDE concluiu, em 2018, que "a indisciplina reina nas salas de aula e coloca Portugal no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula, que os seus professores são, na Europa, os mais desgastados e os que mais preenchem burocracia inútil e que são vítimas de uma organização de trabalho que os adoece (mas, repita-se, "são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos") e que a mesma OCDE concluiu em 2025 ("reportado por 62,1% dos professores, sendo muito mais alto, 73,6%, entre quem tem 5 ou menos anos de experiência"): "Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina; a sua maior fonte de stress é o trabalho administrativo; e em nenhum país a taxa é tão alta", temos de concordar com quem considera os professores portugueses uns heróis num país que não é para professores.

E o que mais impressiona é o silêncio do mundo político e o manto de mutismo que caracteriza as campanhas eleitorais. A direita finge que acompanha os protestos dos professores quando a esquerda governa e vice-versa. Logo que se passa para governo, ou para suporte parlamentar, assume-se a condição de amnésico. É também o exemplo da extrema-direita da estridência, do oportunismo, da divisão e da regateirice, que é oriunda dos partidos que governam e que até prometeu uma central sindical, em plena explosão de indignação dos professores, quando a esquerda governava.

Aliás, ser professor tornou-se, há muito, uma gestão da mágoa, do desgaste e da revolta contida. Acima de tudo, uma sociedade adoeceu quando mais de metade dos professores relata "agressões físicas ou verbais por parte dos alunos”. Apesar de, e como já escrevi, ser injusto generalizar até pela dificuldade dos estudos empíricos: "cada aluno não é um potencial agressor, nem cada professor um provável agredido". E convém recordar que a OCDE concluiu também em 2018: "há um respeito mútuo e generalizado entre professores, alunos e encarregados de educação". 

Nota: com a mudança do blogue da SAPO para o blogger, a exportação ficou com alguns problemas de formatação. Vou corrigindo e republicando alguns textos, como este, mais intemporais. Actualizo-os com notícias recentes, embora na Educação a inércia do poder político seja toda uma escola. O texto tem ligações que meterei nos comentários.

Da Blogosfera: Escola Portuguesa

 "Os professores no tempo da IA"

domingo, 26 de abril de 2026

Assim vai o mundo



"Donald e Melania Trump e J.D. Vance foram retirados do jantar, que decorria num hotel. Nenhum está ferido e já foi anunciada a detenção do suspeito."

sábado, 25 de abril de 2026

O Correntes faz hoje 22 anos





52 anos depois do 25

de Abril, o Correntes faz

hoje 22 anos de existência.

Olhei para os blogues como

actos de cidadania e liberdade

de opinião e fiz coincidir a 

data de início com a do dia 

"inicial, inteiro e limpo".


Obrigado por passar por aqui.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

IA: são os professores dispensáveis?



Pelo Público, em 23 Abril de 2026. O texto tem 4 ligações. A leitura na edição online do Público é de acesso gratuito. Como acordado, o texto está publicado no blogue (mas sempre depois da publicação online do Público).


Texto:

Dificilmente as democracias ocidentais e as suas escolas públicas regressarão à primazia da busca desinteressada do saber. Este modelo inscrevia a matriz greco-romana na "Ideia de Europa", tornava a profissão de professor indispensável e entusiasmante e influenciava a maioria das escolhas dos estudantes na segunda metade do século XX.

Mas tudo mudou com a crise petrolífera de 1973 e com as políticas de Thatcher e Reagan para cortar o financiamento das políticas públicas e desregular os mercados e os impostos dos mais ricos. Iniciou-se aí a crise do exercício de professor e da generalidade das profissões da administração pública. Portugal chegou com 20 anos de atraso a este fenómeno.

Estes factos empurraram, poucas décadas depois, os países ocidentais para algumas encruzilhadas:

1. A consolidação da perda de atractividade da profissão de professor;

2. A entrega de crianças e jovens à selva digital;

3. A crise de 2008, com a solução perversa, e politicamente devastadora nas escolhas dos eleitores, de entregar os volumosos financiamentos salvíficos aos causadores da catástrofe — a banca;

4. E os avultados investimentos na inteligência artificial (IA) que não estão a gerar a necessária comercialização em massa que a torne rentável e lucrativa.

Chegados aqui, há sinais preocupantes que requerem toda a atenção também dos sistemas educativos e de quem contrata professores e organiza a sua carreira.

Por exemplo, Daron Acemoglu, que considera excessiva a euforia sobre a relação entre o crescimento económico e a IA, defende que não se deve centrar o uso desta tecnologia na automação e substituição de trabalhadores, mas sim no aumento da sua produtividade. Sami Mahroum acrescenta que a IA potencia três formas distintas e incompatíveis de organizar a vida económica — tempo de máquina, tempo pessoal e tempo de relógio — que terão efeitos na organização do ensino.

Além disso, perante os crepúsculos da democracia liberal e do capitalismo de mercado, surgem novos e poderosos conceitos interessados na "uberização" dos professores: a supremacia do capital-nuvem, dos cloudistas e das rendas (onde o dólar e o yuan já dividem o domínio mundial); a monarquia tecnológica; e o tecnofeudalismo.

Por outro lado, recorde-se que um líder da China, Deng Xiaoping, declarou em 1978 o célebre "ser rico é glorioso", que transformou uma economia agrícola fechada num colosso industrial capaz de ultrapassar, poucas décadas depois, as democracias ocidentais em domínios como a IA, a robótica, a computação avançada e as novas gerações de redes digitais. O desenvolvimento tecnológico na Ásia é, efectivamente, incomparável.

Em termos educacionais, a China anuncia uma remodelação do triângulo escolar composto por professor, alunos e conhecimento. Este último, historicamente apoiado em ferramentas tecnológicas, é substituído pela proclamação da máquina e da IA como o novo vértice essencial na relação do professor com os alunos.

Ou seja, a China, os EUA e alguns governantes das democracias ocidentais advogam, como em 1980 e através da proletarização dos professores, cortes significativos nos orçamentos da Educação. Talvez isso dê sentido à afirmação do ministro da Educação de Portugal no Parlamento: "a educação tem um número de profissionais cinco vezes superior ao do maior empregador privado, o Pingo Doce". Aliás, o mesmo gabinete governativo anunciou a desistência, para esperar pela IA, no apuramento do número de alunos sem professor e sustenta uma profecia de que a IA permitirá "aprender três vezes mais rápido".

Em regra, este novo extremismo liberal cita muito o pai da corrente, Adam Smith, mas parece não ter lido dois avisos na página 80 da "Riqueza das Nações" (ed. Gulbenkian de 2010). Primeiro, que os gestores profissionais tendem a concentrar-se nos seus interesses e a desvalorizar os dos proprietários das empresas (transpondo para a educação: o interesse de professores, alunos e sociedade). Segundo, como afirmou Smith, "as pessoas não são alfinetes" (ou seja, as escolas não são empresas).

Em suma, afastamos gravemente o humano do centro do organismo social. Acentua-se a desvalorização do ensino, especialmente nas humanidades, nas ciências sociais e nas artes, que se poderá agravar à medida que as consequências da IA no futuro das profissões se tornem mais nítidas.

Aliás, a Ministra da Educação da Estónia, o país mais digital da Europa, sublinhou recentemente a prudência elementar, como fariam os seus colegas da Finlândia ou de Singapura (três países dos primeiros lugares nos resultados PISA): confiança nos professores, turmas de 15 alunos e políticos "longe da sala de aula". É que, e ainda segundo estudos da OCDE, os três países estão nos lugares cimeiros, e, nisso acompanhados por Portugal, na lista de países com mais professores jovens que pensam desistir da profissão.

Contudo, não acompanham Portugal, bem pelo contrário, na lista de países onde há mais indisciplina nas salas de aula por perda de autoridade pedagógica dos professores. No fundo, Portugal chegou tarde a estas políticas mas acelerou a descredibilização dos serviços públicos perante um mundo que teima em ditar, obsessivamente: "diz-me quanto vales em dólares ou em yuans e dir-te-ei quem és".


Surpreendido?!! Mas a mesma OCDE disse, há cerca de uma década, que os professores portugueses são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos




Surpreendido?!! Mas a mesma OCDE disse, há cerca de uma década, que os professores portugueses são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos.

segunda-feira, 20 de abril de 2026