terça-feira, 15 de setembro de 2026

30 alunos por turma?!




Título: 30 alunos por turma?!

Texto:
 
O Ministro da Educação afirmou que turmas maiores não põem em causa qualidade do ensino. Defende “que a evidência científica diz é que até aos 30 alunos não há evidências de que seja mau para a qualidade do ensino”. E, já agora, qual é a evidência científica que diz o contrário?

Estou com alguma falta de paciência para os previsíveis descalabros destes reformistas da equação neoliberal.

Recupero o que escrevi num post de 2013: "Nuno Crato disse, enquanto ministro e numa inenarrável entrevista televisiva em que se pôs a dissertar sobre a relação entre a formação dos professores e o número de alunos por turma, que "uma turma com 30 alunos pode trabalhar melhor do que uma com 15. Depende do professor e da sua qualidade". Nuno Crato disse que concorda com o especialista norteamericano (é mesmo um hanushekiano). É um militar que andou por aí a apregoar o mesmo e revelou-se mais uma pessoa que nos deixa dúvidas quanto ao juízo ou ao conhecimento sobre uma escola do não superior. Temos de concordar: os professores portugueses têm azar com a sucessão de ministros. Nuno Crato afirmou a sua tese e nem sequer se escudou na troika; nesta variável está, também, para além dela."

O PISA 2025 diz que na China se lecciona turmas com 40 ou 45 alunos. Mas a China seleccionou 4 províncias para a amostra dos testes e é uma autocracia com uma disciplina autoritária nas escolas. O militar hanushekiano, citado por Crato, também se referiu a aulas de "ginástica militar" para 500. Também as leccionei, como Oficial em serviço militar obrigatório, na instrução de Comandos para cerca de 100 ou 200. São universos incomparáveis.

Já agora, recupero o que escrevi num post de 2009:

"William Golding, prémio Nobel da literatura em 1983 e professor no 1º ciclo durante 30 anos, foi taxativo numa entrevista à RTP2: " Com 30 alunos não há método de ensino que resulte, mas com 10 alunos todos os métodos podem ser eficazes". Essa entrevista descansou-me muito. Tinha leccionado cerca de 10 turmas do ensino secundário, cada uma com mais de 30 alunos, e estava preocupado com a profissão que tinha escolhido e com a minha memória. Já íamos em Maio e nem o nome dos alunos todos conhecia. Numa sociedade ausente como a nossa, e mais ainda nos tempos que correm, a relação entre os professores e os alunos atenua muito a taxa de abandono escolar para além de ser um indicador da qualidade do ensino. Nunca imaginei que 30 anos depois ouviria o ministro da Educação do meu país a defender uma coisa destas com a máxima convicção. Que tempos, realmente."

Nota: Aconselho este texto no blogue "Porque Falham as Nações com Turmas Numerosas" ou a sua versão no Público

A segunda começa assim: 

"O ensaio Porque falham as nações, de Daron Acemoglu e James Robinson, conclui sobre a história universal dos últimos três milénios: as nações não falham por causa da geografia, da cultura ou da ignorância, mas pela incapacidade em transformar políticas, instituições e empresas extractivas (que acumulam a riqueza em "elites" e oligarquias) em inclusivas (que distribuem a riqueza e diminuem as desigualdades). E sublinha que só a consolidação do modelo inclusivo durante décadas é que se repercute positivamente no crescimento económico, nas empresas, na cultura e na escolarização.(....)"

Notícias de uma Educação em estado de sítio





quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O modelo social-democrata de escola dificilmente sobreviverá

 




Texto:

O futuro é demasiado incerto para se antever o fim do modelo social-democrata de escola. Mas há sinais tão visíveis da impossibilidade da social-democracia até nas sociedades onde mais progrediu, que é previsível a não sobrevivência do que lhe está associado. 

E antes do mais, os modelos de sociedade não estão inscritos no nosso ADN. Religiões, regimes políticos, ideologias e leis são crenças que prevalecem se aplicadas e continuadas por maiorias. Claro que não é fácil que uma democracia persistente deslize rapidamente para uma ditadura. Mas isso pode acontecer se as democracias não conseguirem décadas de políticas inclusivas.

Além disso, devem antecipar criticamente o que as fragiliza e revisitar os valores oníricos dos momentos históricos mais determinantes. E, em 2024, Portugal comemora dois: os 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões, aparentemente em 1524, em Lisboa, e os 50 anos do início da vida democrática, acredita-se que de forma consolidada e não aparentemente, em 25 de Abril de 1974. 

Ao cruzá-los, encontrei uma declaração de Jorge de Sena no 10 de Junho de 1977: "vocês estão a comemorar um país que não existe e eu venho aqui dizer-lhes que país temos, pelo menos em minha opinião". É provável que a repetisse, se cá estivesse, já que democracia, humanismo, compaixão, fluxo migratório, comunidade e diáspora são categorias essenciais à analítica da actualidade. 

Também seria interessante ouvir os dois dialogantes de uma lenda datada entre 1974 e 1976 - o social-democrata e primeiro-ministro sueco Olof Palme e Otelo Saraiva de Carvalho -. O português terá dito: - "Queremos acabar com os ricos"; ao que o sueco terá respondido: - "Curioso. Há 20 que anos que nós queremos acabar com os pobres e não conseguimos". Se o Ocidente viveu de 1950 a 1970 o período menos desigual na História dos rendimentos por via da eliminação das grandes fortunas na segunda-guerra mundial, este suposto diálogo encerra a encruzilhada ocidental numa quadratura do círculo que faz da Educação um dos imperativos da social-democracia: instituir um ensino simultaneamente exigente e inclusivo. 

A esse propósito, o tempo dirá do alcance da obra de Joseph Stiglitz, "O preço da desigualdade" (2013), sobre a causa primeira, com origem nos EUA, da fragilização das democracias liberais e da impossibilidade das políticas educativas da social-democracia europeia: "os mercados têm de ser mais uma vez domados e moderados". Na verdade, nos EUA a desigualdade educacional é maior do que no Apartheid americano em 1950. E essa realidade, acrescentada da perda estrutural da atractividade da profissão de professor, alastrou-se a todo o Ocidente.

Por este caminho, só teremos o modelo "social-democrata" em escolas para ricos. Aí, haverá professores com carreiras decentes e devidamente formados. A dimensão das turmas será pedagógica, o currículo completo e as ciências e as letras estarão a par. A avaliação dos alunos será contínua e exigente. As regras disciplinares serão claras e “ancestrais”. O calendário de provas e exames será estável e tecnicamente sensato. Os conteúdos digitais serão internos, evitando-se os massificados e a desastrosa perda de tempo das crianças e jovens com a adição tecnológica. A natureza e a tecnologia não rivalizarão, como se aprendeu desde o lápis de carvão. Usar-se-á, pagando, o modelo mais avançado da Inteligência Artificial (IA) generativa, acautelando-se a incerteza sobre o final da história com a IA: “será sobre máquinas, mas também sobre humanos”

Nas escolas dos restantes, das massas, disfarçar-se-á a falta estrutural de professores, contrariando até a ONU. Reduzir-se-á os currículos. Os professores serão generalistas, como desenha a  OCDE/2035. Abordarão superficialmente disciplinas fundamentais e tendencialmente abandonadas: História, Filosofia, Literatura, Geografia e Artes. A monodocência (do 1º ciclo por cá) será o modelo escolhido. É irresistível para as contas certas, mas acelera a infantilização da educação. Há diversas formas de o aplicar. No caso português, a monodocência reduz o número de professores do 2º ciclo de 20 mil para 2 mil e do 3º ciclo e secundário de 70 mil para 10 mil.

Como compensação, os assistentes digitais da Google e da Microsoft apoiarão o monodocente e o aluno-rei. Dominarão o currículo e avaliarão os intervenientes. Não se usará a IA generativa por desconhecimento na utilização. Os raros acessos serão a modelos gratuitos. A dimensão das turmas será desprezada. A obsessão com exames e provas (como se obter dados, e para se perceber melhor, fosse suficiente para combater as causas das alterações climáticas), ou o seu contrário, atormentarão a organização das escolas. Os dirigentes escolares, organizados em associações de classe, serão autocratas de carreira. Alargarão o emprego partidário e executarão o objectivo fundamental: manter abertas as portas das escolas, custe o que custar. A avaliação de monodocentes continuará doentia. Haverá prémios de desempenho inspirados na meritocracia para massas expostas ao modelo de todos contra todos e a experimentalismos comprovadamente desastrosos da família do cheque-ensino. Os processos disciplinares e as reprovações dos alunos serão em ambiente de burocratização infernal, e sem apoios efectivos para os que "não querem aprender". 

Acima de tudo, a Educação não escapa ao conflito global. Os três tipos de capitalismo - demagogo, populista e autoritário - combatem uma democracia liberal que se esgota a tentar parar uma extrema-direita catastrofista. Assiste-se a um ubíquo desabar das ideologias, das revoluções e da história. 

Em suma, repita-se que os ideais de educação da civilização greco-romana fundadora da Europa são possíveis e coabitáveis com a técnica moderna. Não se receie uma educação centrada na ciência que nos ensina o que somos e o que nos rodeia. Pensamento crítico, colaboração, criatividade e comunicação devem sobrepor-se a amestração, consumo e violência. O futuro da educação exige narrativa, arte, ócio e contemplação. Nada disto é passado, e, sem isso, o modelo social-democrata de escola dificilmente sobreviverá.

Nota: este texto foi publicado no Público de 23 de Março de 2024. Com a mudança do blogue da SAPO para o blogger, a exportação ficou com alguns problemas de formatação. Vou corrigindo e republicando os textos, como este, mais intemporais. O texto tem ligações que colarei nos comentários.

Ministério da Educação, da Comunicação e da Inspiração


Na mesma linha e que serve como inspiração:

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A rápida desorientação com os os resultados PISA

Na verdade, o PISA 2025 da OCDE diz que os alunos portugueses regrediram na Leitura (estão piores do quem 2000), nas Ciências e na Matemática. Recorde-se que Portugal estava no fim da lista em 2000 (no 1º PISA) para além de ter partido muito atrás quando entrou em democracia na década de 1970. Melhorou e, em 2015, "ficou pela primeira vez acima da média da OCDE" (dados obtidos em 2014 com alunos de 15 anos que frequentaram o 4º ano em 2009 e o 6º ano em 2011 — portanto, sem as provas finais no 4º e 6º anos introduzidas em 2012).

"João Costa alega que descida nos resultados do PISA segue “tendência global”, mas diz que não foge a responsabilidades"

"Ministro da Educação admite regresso dos exames a contar para a nota no 4.º e 6.º anos"

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Alunos portugueses regridem, desastrosamente, na Leitura (estão piores do em 2000), nas Ciências e Matemática, diz o PISA 2025 da OCDE, e não deve haver responsáveis




Apesar de muitos investigadores desconsiderarem os resultados do PISA, há decisores de políticas educativas que os consideram como farol. O desastre que é a descida dos resultados do PISA 2025 (Leitura, Matemática e Ciências) em quase todos os países da OCDE responsabiliza também as recomendações da própria organização.

Antes do mais, note-se que estes testes são os resultados de 15 a 20 anos de políticas da Educação; mas não só. São aplicados, de três em três anos, a alunos com 15 anos de idade e nunca a todos os alunos de um país. São seleccionadas amostras, ao contrário do que acontece na avaliação externa das aprendizagens em Portugal. Por cá, até provas de aferição são aplicadas a todos os alunos de um determinado ano de escolaridade e sempre com uma fatal desconfiança nos professores que torna infernal a logística das provas: calendários, vigilâncias, correcções e secretariados (já agora, o PISA 2025 diz que os professores portugueses dão mais atenção aos alunos do que a média europeia, e que, pelo contrário, as famílias desvalorizam e não incentivam o trabalho e a aprendizagem.)

De facto, as políticas educativas avaliam-se 20 anos após a sua aplicação. Esta constatação — paciente, consensual e fundamental — evidencia factores determinantes para a queda das aprendizagens:

1. O aumento brutal das desigualdades educativas;

2. Um clima de fatal desconfiança nos professores que gerou escassez estrutural destes profissionais em todo o Ocidente e o descrédito de uma avaliação contínua exigente;

3. A mercantilização e queda dos orçamentos da Educação; 

4. A adicção tecnológica das crianças e jovens perante a irresponsabilidade de adultos inebriados por um intelectualismo vintage.

Na verdade, o PISA 2025 da OCDE diz que os alunos portugueses regrediram na Leitura (estão piores do quem 2000), nas Ciências e na Matemática. Recorde-se que Portugal estava no fim da lista em 2000 (no 1º PISA) para além de ter partido muito atrás quando entrou em democracia na década de 1970. Melhorou e, em 2015, "ficou pela primeira vez acima da média da OCDE" (dados obtidos em 2014 com alunos de 15 anos que frequentaram o 4º ano em 2009 e o 6º ano em 2011 — portanto, sem as provas finais dos 4º e 6º anos  introduzidas em 2012).

Era o resultado das políticas educativas das décadas de 1990 até meados de 2000. Foi por essa altura que a equação neoliberal atingiu o sistema educativo português. Foram 20 anos de políticas autocráticas e de fatal desconfiança nos professores (os professores portugueses são os mais atingidos pela indisciplina nas salas de aula e pela burocracia analógica e digital) e de descrédito de uma avaliação contínua e exigente.

Aliás, o país é também o mais instável nas avaliações externas das aprendizagens (repita-se: aplicadas sempre aos alunos todos e nunca por amostra reduzida). É uma área muito exposta aos fanatismos ideológicos e quase impossível de estudar. E tem vindo a piorar. Tudo muda a cada mudança de maioria política e sempre com a fatal desconfiança nos professores como pano de fundo. Por exemplo, as provas finais (2012) nos 4º, 6º e 9º anos obedeciam à referida logística infernal de vigilância e organização das provas (e originavam, logo no 1ª ciclo, rankings de escolas com esses resultados, quadros de mérito académico e centros de explicações; já agora, Singapura aboliu tudo isso em 2018 e continua no topo em 2025 em todos os domínios). Acabaram, com regozijo administrativo, digamos assim, porque infernizavam as escolas entre os meses de Abril e Outubro provocando interrupções sistemáticas e prolongadas das aulas - essa prática tão desconhecida pelos sucessivos governantes da Educação. Foram substituídas (2016) por desastrosas provas de aferição para os 2º, 5º e 8º anos (associadas a outras políticas trágicas que exaustivamente detalhei) que, por sua vez, deram lugar (2024) a um conjunto de decisões irresponsáveis e autocráticas que culminaram no caos vigente dos exames do Ensino Secundário.

Por fim, esta realidade agrava-se com a crescente falta estrutural de professores. Se até 2023 os governantes negavam o flagelo, a partir de 2024 os actuais prometeram resolver a tragédia de uma penada. Caíram na realidade num exercício de flagrante impreparação. A situação é muito preocupante. Aumenta o número de alunos por turma, usa-se serviço extraordinário a eito (estava praticamente extinto desde 1998) e 75% dos professores que experimentam a profissão declaram vontade de mudar na primeira oportunidade.

Nota: como os resultados são o que são, os atuais governantes não os assumirão. Claro que fariam o contrário se houvesse uma qualquer melhoria, como fizeram com o PISA 2015 com dados obtidos em 2014 com alunos de 15 anos que não fizeram as provas finais nos 4º e 6º anos introduzidas em 2012 — as quais, nesse domínio, se assumiram como um corte com o ciclo PS de 2005 a 2011. E podia ficar aqui a tarde toda a dar exemplos destes de outros quadrantes partidários.



Pudera!



segunda-feira, 7 de setembro de 2026

E depois, é preciso que se candidatem e não desistam nos primeiros anos de exercício

 


"Enquanto os educadores de infância e os professores do 1.º e 2.º ciclos representam cerca de 40% dos novos diplomados nos mestrados em ensino, os docentes das disciplinas específicas do 3.º ciclo e secundário correspondem a apenas 20% do total."

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Da Blogosfera: Escola Portuguesa

 

Autocracia com fins lucrativos

Articular como um infernal desperdício de tempo

 

Os programas escolares ou têm coerência vertical por quem os elabora ou nunca a terão. A coerência horizontal será apenas, e ainda bem, uma consequência de acasos felizes e nunca imperativos. Conhecer-se o que se leccionou no ano anterior ou se vai leccionar no ano seguinte, é uma tarefa inerente à profissão docente. O ponto de partida é saber por onde é que os alunos podem começar. Pouco interessa reunir periodicamente com quem lecciona no ano antecedente ou precedente, e muito menos no ciclo anterior ou seguinte. O argumento que advoga que na reunião se expia a atribuição da culpa ao ciclo anterior, resolve-se com cultura, desburocratização e ausência de reuniões desnecessárias e sem agenda. A socialização deve ficar para a pólis, ao critério dos sujeitos e sem imposições articulares.

É megalómano afirmar que a ideia de 2000 alunos num mesmo amontoado de escolas se justifica com a necessidade de articular. O que sabemos é que a redução da escala humaniza. Num outro sentido, conhecem-se algumas vantagens para os alunos na frequência das poucas escolas básicas integradas. Conhecemos que essas vantagens centram-se na oferta escolar que o desprezado primeiro ciclo português pode usufruir ao integrar-se numa cultura organizacional com outra dimensão. E isso só se faz numa escala que permita que cada aluno, e cada professor, e cada funcionário, se sinta como um sujeito da instituição. Esta asserção aceita o sucesso de todos os tipos de combinações: escola 1; escola 1+2; escola 1+2+3, escola 1+2+3+S, escola 2+3, escola 2+3+S, escola 3+S ou escola S.

Post de 24 de Julho de 2010.

Iniciar o ano lectivo

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