
(encontrei esta imagem aqui)
"(...) Afinal, onde pertencemos exactamente? Talvez não pertençamos a lugar nenhum. Nem isto, nem qualquer outra coisa, tem uma resposta a preto e branco. Eu cresci num contexto de ambivalência, de ambiguidade, de emoções misturadas, de relações amor-ódio e de amor não correspondido. E o meu bairro estava cheio de "potenciais reformadores do mundo", idealistas e ideólogos. Todos com a sua fórmula pessoal de redenção instantânea. Todos grandes oradores, mas ninguém os escutava. O bairro estava cheio de tolstoianos - pessoas que acreditavam na ideologia de Tolstoi -, alguns até tinham o mesmo aspecto e vestiam-se como Tolstoi. Deixavam crescer a mesma barba branca e usavam uma espécie de toga russa cingida por uma corda. Pareciam mais tolstoianos que o próprio Tolstoi. Quando, pela primeira vez, vi uma fotografia de Tolstoi na contracapa de um dos seus romances, estava convencido de que era alguém do nosso bairro. Não o vira eu muitas vezes? E não apenas a ele, mas também à família, aos irmãos. Era um dos nossos. Deste modo, eram tolstoianos, mas muitos deles tinham saído directamente de uma romance de Dostoievski porque tinham uma mente e uma alma muito torturadas, cheias de contradições, de raiva e de conflito. Diria até mais: aqueles doistoievskianos tolstoianos pertenciam, na realidade, a uma história de Tcheckov. O espírito real do bairro não era nem Tolstoi nem Doistoievski: era Tchekov. A nostalgia dos lugares longínquos. Em algum lugar para lá do horizonte estava a amada cidade de Moscovo, Moscovo...
Mas essa Moscovo - que podia ser Berlim, Viena, Paris ou Vaarsóvia, ou qualquer outra -, essa "Moscovo para lá do horizonte", não amava aqueles judeus. Queria-os longe da vista, longe da mente, longe do mundo, em alguns casos. Eles nem sequer podiam confessar o seu amor pelas culturas que tinham deixado para trás.(...)".
Amos Oz, "Contra o fanatismo",
edições ASA, páginas 72 e 73.