Da entrevista da ex-SE da educação, Ana Benavente, ao SOL:
Num dia em que se fala do jornal Independente, intriga-me como é que alguém ainda acredita no político Paulo Portas. Mas à esquerda também há perplexidades: como é que é possível que uma força política apresente a Correia do Norte como uma "referência"? Imagine-se se o acordo das esquerdas falhasse por causa dessa transcendência.
"Não sei como José Eduardo dos Santos dorme à noite. Não sei como Isabel dos Santos dorme à noite. Não sei como milhares de homens e mulheres de negócios dormem à noite. Não sei como o Governo português dorme à noite", escreve hoje na revista do Público Alexandra Lucas Coelho. É assim: a natureza humana empurra-nos demasiadas vezes para esta perplexidade.
O desnorte da maioria tropeça no rísivel todos os dias e o sistema escolar não escapa. Hoje foi uma deputada do PSD que se mostrou perplexa com a abertura de 600 vagas para a vinculção extraordinária de professores contratados.
"(...)“Estas 600 vagas deixaram-me um pouco perplexa e irei pedir que me justifiquem ou me dêem argumentos para o entender”, disse esta quarta-feira a deputada do principal partido do Governo na Comissão de Educação, Ciência e Cultura da Assembleia da República, durante a audição da Associação Nacional de Professores Contratados (ANPC).
César Israel Paulo, presidente da ANPC, fez um discurso duro e indignado, considerando que os docentes contratados estão a ser alvo de um "genocídio laboral" e classificando a situação como "uma vergonha".
Margarida Almeida, que também é professora, mostrou-se solidária. "Face ao discurso da indignação, nada tenho a contrapor".(...)A deputada acrescentou depois que "devem ter sido abertas as vagas possíveis para não contratar e depois despedir".
(...)César Israel Paulo lembrou que o problema da precariedade docente "tem mais de 15 anos". "Os professores contratados são eleitores defraudados, seres humanos descrentes face aos sucessivos governos que lhes têm proporcionado emprego precário, deslocações infindáveis para poderem trabalhar e, agora, para muitos, o desemprego sem qualquer indemnização, a passagem a excedentário após anos consecutivos de trabalho. Que país é este?", disse o dirigente, lançando um repto: "Senhores deputados, o que irão fazer a curto prazo para resolver o problema da precariedade docente, quando vão pôr fim a esta vergonha?".
Miguel Tiago, do PCP, e Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda, responderam que vão continuar a apresentar iniciativas no Parlamento para vincular os docentes contratados, lembrando que as mesmas têm sido sempre travadas pelos partidos que se alternam no Governo: PSD, PS e CDS.(...)"
É estranho como o PS se submeteu ao actual secretário-geral. É, pelo menos à superfície, um eucaliptal de uma árvore apenas. Bem sei que faço um exercício de indução, uma vez que parto do desastre que se assistiu na Educação. Mas se a Educação é propalada como a primeira prioridade de um país, a minha questão tem sentido.
Apenas atenua a perplexidade o facto de raramente ter encontrado um militante ou simpatizante do PS que criticasse abertamente as políticas educativas do ainda primeiro-ministro. Dava a ideia que estavam rendidos a uma agenda escolar com tiques de quase fascismo por via administrativa. Não acredito que fosse por desconhecimento e só pode ter sido por convicção, pela manutenção de um qualquer lugar ou por medo.
O calendário quebra rotinas e exige olhares menos habituais. Estou a pensar no ano que terminou e em algumas perplexidades. Apesar de tudo, não paro de me surpreender.
Troco palavras com quase todos os que me a requerem. Essa atitude permite-me perceber estados de espírito e características da máquina humana.
Há um grupo, que vou denominar de éticos-invertidos-e-severos (EIS), que é constituído por professores e por outras pessoas que se interessam pelas questões da Educação e que tomou como suas as razões do governo; por serem militantes ou simpatizantes do actual PS, por não valorizarem a actividade docente ou apenas por subscreverem as políticas.
Uma das minhas perplexidades focou-se na epidérmica reacção dos EIS aos mínimos comportamentos dos professores contestatários ou até aos actos daqueles que, uma vez por outra e por desígnio da oportunidade, se decidiram pela defesa do poder democrática da escola (PDE). Os EIS nada perdoaram. Um qualquer excesso de linguagem em defesa do PDE foi logo considerado um ataque à democracia, à liberdade, ao orçamento de estado, às obrigações do trabalho para alguns e à independência da nação.
Mas, e por outro lado, os EIS coabitaram, desfazendo-se em simpatias, com os mais diversos tipos de invertebrados: desde membros efectivos da hecatombe financeira, até a jogadores indispensáveis da rede de "sucateiros" (que me desculpem os sucateiros honestos), passando por professores que se aproveitaram de vazios de poder para darem largas ao mais despudorado dos oportunismos. A estes, os EIS nada criticaram. Entraram, recentemente, no estado de desejar-apenas-que-caiam.