Sou de um tempo em que a publicidade interrompia os filmes e era um excesso e uma perda de tempo. Desenvolvi um mecanismo mental de rejeição que já nem decifro as mensagens, apesar de reconhecer que tenho perdido coisas muito boas.
Acontece-me o mesmo com as anedotas. Talvez a brejeirice machista ligada a esse fenómeno me tivesse irritado tanto que estimulei um bloqueio que nem os sorrisos amarelos disfarçam e que quem me conhece bem já desistiu do uso desse meio de socialização.
Nas manifestações acontece-me o mesmo com as intervenções vindas dos palanques, que são sempre ruidosas e com vozes à beira de um ataque de rouquidão.
Ontem, na manifestação, existiu mais um coro de berraria. Só mais tarde dei conta do racismo do líder da CGTP, que classificou de escurinho o representante do FMI. É grave e inadmissível. Não sei se o homem já se retratou. Deve pedir desculpa e demitir-se de seguida. A expressão é indesculpável. É o tipo de racismo que vem bem de dentro.
ResponderEliminarEntão o Arménio Carlos chamou "escurinho" ao senhor preto do FMI?
E isto é....racismo?
Como é que é?
E o Arménio Carlos devia demitir-se por lhe ter chamado o "rei mago escurinho" do FMI?
Calhando, poderia tê-lo chamado de "moreno tropical", não?
Mais simpático?
E prende-se esta gente com pentilhices do caraças, em vez de se preocuparem com o que fazer para ir para a frente com uma luta absolutamente necessária.
Intelectualices......
Penso que o Salassie devia vir a público desmontar o politicamente correcto do "escurinho" e dizer:
ResponderEliminar" Pá, Arménio! Eu não sou escurinho nem moreno tropical. Eu sou preto mesmo. Não dá pr'á ver?"
Ao que alguém lhe poderia responder:
"ó Salassie, o problema não é cromático. O problema é outro...."
"A expressão é indesculpável. É o tipo de racismo que vem bem de dentro."
ResponderEliminarTu acreditas no que escreveste, Paulo?
Agora a sério....um tipo de racismo que vem de dentro????
Continuando a brincar, porque só assim sei lidar com isto, explica lá como é o racismo que vem de fora.
Ia responder ao teu primeiro comentário exactamente com a mesma interrogação: a sério?
ResponderEliminarFrancamente, Fernanda.
Racismo que vem de dentro é uma espécie de eufemismo. Este racismo é profundo, não é aquela coisa cromática como a cor do cabelo ou dos olhos.
Cresci numa sociedade dominada por racismos vários. Sei bem o que passavam os meus amigos que eram vítimas da coisa.
Não conheço o homem da CGTP. Excedeu-se. Foi lá para as boas vindas e nunca mais se calava. Espalhou-se e deve assumir o erro.
Foi grave e ponto final. Se fosse uma pessoa de direita a cometer um erro daqueles o que dirias?
Tal como tu, vivenciei racismo ao longo da minha vida.
ResponderEliminarPrimeiro, porque nasci em África; depois, porque conheci a África do Sul e o apartheid. Depois, porque estudei e observei.
Chamavam-me "branca de 2ª", o que, francamente, nunca me causou qualquer trauma.
O que acho estranho é não te teres referido a outras intervenções feitas na manifestação e tenhas retido a do "escurinho" do discurso do Arménio Carlos, que não conheces mas que não te coíbes de chamar de racista.
É como ler a sequência do alinhamento das notícias de um qualquer Correio da Manhã.
Se um gajo de direita chamasse escurinho a alguém?
Qual era o problema, desde que não fosse daltonismo?
Sabes o que é bem, bem pior?
É chamarem-nos de piegas, preguiçosos, privilegiados, de pouco trabalhadores e de auferirmos grandes salários e reformas.
Aí, Paulo, quando um governante desta direita diz isso a toda a hora, aí sai uma caralhada valente.
"Cabrão deste copinho de leite!"
Pá, Paulo, aí uma mulher não é de ferro!
Fiz 3 posts sobre a manifestação (o último acabei agora) e apenas escrevi sobre isso da CGTP que foi o que vi numa peça televisiva. Não ouvi os discursos.
ResponderEliminarDesculpa, mas se tens essa vivência tens de discordar com veemência do que foi dito. Não vou fazer do incidente o cerne do que está em causa. A profissionalidade dos professores merece mais.
A linha editorial deste blogue procura a coerência.
"Fiz 3 posts sobre a manifestação (o último acabei agora) e apenas escrevi sobre isso da CGTP que foi o que vi numa peça televisiva. Não ouvi os discursos."
ResponderEliminarBom, então não vale a pena continuarmos a "falar".
"A linha editorial deste blogue procura a coerência."
Eu sei e admiro isso. Mas, de vez em quando, naturalmente, falha-se. E aí, não consigo, como comentadora, calar-me em nome da coer~encia, precisamente.
Onde falhaste na coerência foi nesta afirmação:"... e apenas escrevi sobre isso da CGTP que foi o que vi numa peça televisiva. Não ouvi os discursos."
Nas peças televisivas vê-se e ouve-se e retém-se o que nos induzem a ver, a ouvir e a reter.
Mais uma vez, a 3ª, repito que não me causa qualquer trauma de racismo a afirmação proferida por AC, na sequência e no contexto do seu discurso.
"A profissionalidade dos professores merece mais."
Eu agora diria numa frase o que penso desta afirmação. Mas ia sair uma coisa politicamente pouco correcta e até algo racista.
boa noite
O professor Marcelo deve ter lido este post e esta troca de argumentos entre o Paulo e a Fernanda, pois abriu o seu comentário da semana, na TVI, a cascar no Arménio Carlos por causa do "escurinho".
ResponderEliminarTeve (des)graça a argumentação do professor Marcelo, espantado por esse deslize vir de um homem de esquerda. Será que ele quis dizer que racismo é coisa de homem de direita?!? Sendo ele quem é...
Enfim, está visto que não foi só alguma comunicação social que tentou ignorar a manifestação. Até Marcelo a mencionou só para salientar o deslize do Arménio.
Desculpa, Paulo, mas esta história faz-me lembrar alguns alunos meus quando, ao relembrar a flexão verbal, em especial o Condicional dos verbos, aprendem a mnemónica de ser o modo da Maria (que ensino para ver se não o confundem e fixam melhor), identificando-o depois nos próprios testes como o "Modo da Maria"!!!
Dou de barato que o Sr. Carlos é quase sempre infeliz no que diz, mas, sinceramente, onde está o racismo nesta tirada? De resto, a falta de piada está, isso sim, na analogia dos três "troikos" com os reis magos.
ResponderEliminarQuanto ao argumento do "comentador" Marcelo, é de uma enormidade a toda a prova: o problema da anedota (?), alega ele, é ter sido dita por "um homem de esqueda, por um comunista". Palavra de honra!; há mais preconceito no Sr Sousa do que racismo no Sr. Carlos...
racismo
ResponderEliminarConcordo, Paulo.
ResponderEliminar:) Ana.
ResponderEliminarE até sou capaz de concordar, Lúcio.
ResponderEliminarSenti o mesmo.
ResponderEliminarSejamos coerentes Pedro; mas tentemos ser sempre coerentes.
ResponderEliminarCaro PGTP
ResponderEliminarA propósito, permito-me sugerir-lhe a leitura da crónica de José Diogo Quintela no "Público" de hoje: corrosiva, lúcida, pedagógica - como quase sempre.
Já li, Caro Lúcio obrigado. Concordo com a adjectivação e acrescentaria o registo humorado. Apenas me parece que o politicamente incorrecto é que tomou o lugar do politicamente correcto. Estamos no vale tudo e relativizamos em excesso. Recorda-me o relativismo cultural.
ResponderEliminarNeste caso, e em todos os outros em que se discriminam, temos de nos pôr no lugar do outro.
Aconselho, já agora, a leitura do texto da página 34, sobre a universidade de harvard, em que se defendem as comunidades de aprendizagem com um primeiro critério: integridade.
"Neste caso, e em todos os outros em que se discriminam (...)"
ResponderEliminarPois, mas o problema está precisamente aqui: o Paulo jura a pés juntos que chamar "escurinho" a alguém (que, por acaso, tem pele preta) é discriminação. Eu penso que não. (...a menos que ter pele preta seja um defeito - suspeita justificada em quem tudo faz para omitir qualquer referência à pigmentação do maior órgão do corpo de alguém). Quando aceitarmos que ter pele preta é uma característica como qualquer outra (ser alto, baixo, gordo, branco, careca, magro, narigudo, bochechudo, novo, velho...) os engulos politicamente correctos em relação às alusões à cor da pele (o indicador mais óbvio de alguém) deixarão de fazer sentido. Quanto ao mais, mantenho: o sr. Arménio Carlos faz amiúde figura de idiota - no caso, por se ter assenhorado de um palanque que moralmente não lhe pertencia e por ter feito uma piada com os Reis Magos cujo valor simbólico manifestamente desconhece.
Espero que um dia venha a ser assim Lúcio.
ResponderEliminarO racismo está ainda tão patente, e tem dilacerado tanto, que estamos longe da "naturalidade" que o Lúcio defende.
Ainda é bem diferente do alto, magro, novo e talvez quase parecido com gordo e velho.
Concordo com o conteúdo do comentário.
Concordo, mas "nunca juro a pés juntos", :) :) Obrigado :)
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