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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Das Estratégias de Manipulação

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O linguista Noam Chomsky detalhou 10 estratégias para a manipulação (a primeira resumida na imagem) usando a comunicação social, mas não terá imaginado a vitória de Roger Stone personificada por Trump: mentir constantemente como estratégia, desde que se diga o que várias minorias (descontentes por motivos diversos, mas também irados, lúmpenproletariados e disponíveis para "pogrom") querem ouvir; tudo assumido. A crise de 2008 alargou as minorias e veremos o que resultará desta. Aliás, quem tenta impor a onda Roger Stone à portuguesa saiu-se bem. Lançou duas questões com alto perfil de manipulação, o RSI e o congresso do PCP, e teve êxito: o debate (com intervenientes conscientes das estratégias de manipulação) passa horas sem fim à volta das duas transcendências.


Vejamos.


Feitas as contas, o salário anual líquido de um jogador de um grande clube português de futebol é equivalente ao RSI anual em Rabo de Peixe. Se considerarmos a quantia que a organização do MotoGP em Portimão diz que deixou de realizar, temos o equivalente a 40 anos de RSI nessa freguesia do concelho de Ribeira Grande nos Açores. Note-se que o valor do RSI calcula-se com base nos seguinte valores mensais: 189,66 euros, por titular; 132,76 euros, pelos restantes adultos; 94,83 euros, por cada criança ou jovem menor de 18 anos. 


Já com o congresso do PCP, é sensato defender o adiamento considerando a impossibilidade de mudar de concelho. Quanto ao resto, e analisando com o olhar de alunos e profissionais da educação, mas sabendo que há mais nas mesmas condições oculares - desde logo, utentes de transportes públicos e trabalhadores das fábricas -, a primeiras interrogação será: mas estas pessoas que discutem isto vivem em que planeta? É que impera um manto de silêncio sobre as milhares de aulas diárias, e naturalmente sobre as restantes situações referidas, realizadas em salas lotadas e em muitos casos até sem máscara por orientação da DGS e onde não se evitam os tais 3 c´s (aproximação física, espaços fechados e aglomeração de pessoas). 


Espera-se que o rescaldo da aprovação do orçamento proporcione debates menos dados a estratégias de manipulação e que a grave situação pandémica nos aproxime do real; e que, já agora, se esmiúcem finalmente dois temas: os tais 81% de desconhecidos nos números totais dos locais de contágio por covid-19; os critérios para as vacinas.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

os professores e as faces da quarta revolução industrial

 


 


 


As novas contas do Ministério das Finanças ("os custos das progressões dos professores em 2018 baixam de 90 para 37 milhões"), escaparam a uma geometria política variável na manipulação de números e argumentos que há mais de uma década degrada a carreira dos professores. Ou seja, o concreto fragilizou a argumentação governativa. Tem sido assim com os últimos executivos e nem os governantes da educação diferem (dá ideia, tal o grau da coisa, que o presente é um ajuste de contas que vem de 2007 e 2008, como se não bastasse o desprezo profissional que se intensificou desde aí). Aliás, o que surpreendeu os governos, e quem os apoia de modo clubista, foi a capacidade dos professores mediatizarem argumentação e desconstruirem falácias com solidez. Já era tempo, e como sublinha Klaus Schwab (2017:64) na "A Quarta Revolução Industrial", de "(...)os governos se adaptarem ao facto do poder estar a mudar de agentes estatais para não estatais e de instituições estabelecidas para redes dispersas. As novas tecnologias e os grupos sociais e as interacções que promovem permitem que praticamente qualquer pessoa exerça influência de um forma que seria inconcebível há apenas alguns anos.(...)". A educação está num pré-caos e num impasse: o Governo terá de rebuscar o faseamento da recuperação do tempo de serviço e a plataforma sindical não poderá assinar uma versão que não o contemple. A mesa negocial não valorizou o aparecimento de um sindicato digital, nem, e pela enésima vez, o efeito das redes sociais e do grau de saturação dos profissionais, e o executivo adiou o inadiável. Agora, terá de ser célere e inteligente numa solução salvífica para as faces. 


 


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Faces, Picasso

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

rever a matéria dada

 


 


 


 


A troika e as avaliações, os fanatismos ideológicos, o casino financeiro, os offshores, os paraísos fiscais instalados, e há muito, em países europeus, o experimentalismo a que sujeitaram Portugal, a febre dos mercados e os jogos de sombras que capturaram o orçamento do Estado, são algumas das razões que transportaram a manipulação para o auge.


 


Por mais que os mentores confessem erros, não existirá desculpa histórica. O prolongamento da crise de 2008 reforça a responsabilidade e as consequências tornam-na inapelável.


 


Recordo as 10 estratégias de manipulação enunciadas por Noam Chomsky. Publico as 4 primeiras.


 



"1. A estratégia da manipulação. O elemento primordial do controlo social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou a inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público manifeste interesse pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar".


2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.


3. A estratégia da gradação. Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram empregos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.


4. A estratégia do diferido. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é sentido imediatamente. Em seguida, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento."


 



2ª edição


 


 


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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Revisões

 


 


 


A troika e as avaliações, os fanatismos ideológicos, o casino financeiro, os offshores, os paraísos fiscais também, e há muito, instalados em países europeus, o experimentalismo a que sujeitaram Portugal, a febre dos mercados e os jogos de sombras que capturaram o orçamento do Estado são algumas das razões que transportaram a manipulação para um auge.


 


Por mais que os mentores confessem erros, não existirá desculpa histórica. O prolongamento da crise de 2008 reforça a responsabilidade e as consequências desastrosas tornam-na inapelável.


 


Recordo as 10 estratégias de manipulação enunciadas por Noam Chomsky. Publico as 4 primeiras.


 



"1. A estratégia da manipulação. O elemento primordial do controlo social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou a inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público manifeste interesse pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar".


 


2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.


 


3. A estratégia da gradação. Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram empregos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.


 


4. A estratégia do diferido. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é sentido imediatamente. Em seguida, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento."


 


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terça-feira, 2 de setembro de 2014

o público errou

 


 


 


Este post é de 24 de Setembro de 2012.


É impressionante como se esfumou o argumento que o MEC


usava para disfarçar os cortes a eito no sistema escolar.


 


O que sobra é uma falta de respeito pela escola pública,


pelos seus profissionais, alunos e encarregados de educação,


que me leva a repetir a interrogação:


"mas estas pessoas nunca mais são elevadas para uma qualquer fundação?"


 



Pede-me, o blogger Pedro Peixoto, que divulgue esta nota do Público que dá conta de um erro em relação às declarações de Nuno Crato sobre a redução de alunos. Ou seja: se a quebra de 200 mil alunos é referente a adultos, o argumento não podia ser usado para justificar os cortes; como o Público salienta na nota. Até já cansa um bocado escrever sobre isto e vou ver se arranjo fôlego.


Não sei quem é que tratou os dados. O que sei é que é hoje comum aplicar um modelo de regressão linear múltipla que melhor se ajuste aos dados em questão (aconselho a conhecida aplicação SPSS da IBM).


Se se estabelecer a redução de professores (y) como a variável dependente, podemos introduzir as seguintes variáveis independentes: aumento do número de alunos por turma (x1), aumento da componente lectiva dos professores (x2), agregações de escolas (x3), nova estrutura curricular (x4), diminuição da natalidade (x5), alteração nos fluxos migratórios (x5) e diminuição do número de alunos por eliminação do programa novas oportunidades (x6).


 


Se pretendermos saber a influência que as variáveis independentes tiveram na variável dependente, o SPSS nos dirá, nas tabelas de coefficients e ANOVA, e através da aceitação ou rejeição das hipóteses nula e alternativa e na significação global do modelo, que o modelo está situado bem à direita e rejeita a hipótese nula, portanto, existirá pelo menos um B=0 e uma relação linear entre a variável dependente e algumas das variáveis independentes seleccionadas.


 


O estudo do coeficiente de determinação permitirá perceber que o modelo explica mais de 98% dos casos de redução de professores o que será considerado muito bom.


 


Da análise individual dos parâmetros concluir-se-á que a variável independente x6 (diminuição do número de alunos por eliminação do programa novas oportunidades) aceita h0 e que, portanto, não influencia a variável dependente e que poderia ser retirada do modelo.


 


Também as variáveis, diminuição da natalidade (x5) e alteração nos fluxos migratórios (x5) aceitarão h0 e não influenciarão a variável dependente e poderiam ser retiradas do modelo e incluídas num modelo de regressão linear múltipla que tenha como objectivo perceber o que se vai passar em 2020, sendo seguro que as conclusões não acompanharão as epifanias de Passos Coelho quando remete para 2027 ou 2032 a possibilidade de sairmos da zona de empobrecimento. 


 


Importa referir que a utilização do modelo de regressão linear múltipla requer a verificação de alguns pressupostos.



  1. Pressuposto: se a distribuição dos erros é normal;

  2. Pressuposto: se os erros são variáveis aleatórias de média zero;

  3. Pressuposto: se os erros são variáveis aleatórias de variância constante – homocedasticidade -;

  4. Pressuposto: se as variáveis aleatórias dos erros são independentes;

  5. Pressuposto: se as variáveis independentes estudadas no modelo são não correlacionais – ausência de multicolinearidade -.


 

É também comum aplicar-se o teste de Durbin Watson (d*) para avaliar a veracidade da independência dos erros, ou seja, a sua auto-correlação ou de primeira ordem. Se os erros forem independentes não influenciam o valor do erro seguinte e nesse sentido a correlação entre erros sucessivos é nula. Seria natural que o estudo do d* aceitaria h0 como significado de que era conclusivo e que não existiria auto-correlação entre as variáveis do modelo.

 


Da matéria estudada também se observaria que a matriz das variáveis independentes permitia concluir que o módulo dos coeficientes de correlação e a respectiva dependência linear eram relevantes e que os valores eram inferiores a 0,8; portanto, não se verificava o problema da multicolinearidade.


 


 

domingo, 4 de maio de 2014

mas queriam que a troika fosse "prá-vida"?

 


 


 


 


Mas a permanência da troika não era de três anos? Como a resposta é sim, é até admirável que se discuta sei lá o quê. Temos excedente e liquidez como nunca? Pudera. Na anterior entrada do FMI, passou-se meio subsídio de Natal para certificados de aforro e as contas entraram nos eixos. É verdade que a corrupção não tinha esta dimensão nem o Estado estava tão capturado pelos aparelhos partidários e é por isso que agora foram necessários três anos. Se não melhorarmos nesses aspectos, a próxima será de dez e com bancarrota.


 


Nunca tivemos FMI por tanto tempo e ainda por cima com um Governo que se afirmava para além da devastação. Até custa ouvir comentadores e opinadores a afirmarem que não houve cortes no Estado. Só na Educação, e na última década, fecharam quase 4 mil escolas (sim, leu bem), reduziu-se em 60 mil (sim, leu bem) o número de professores do não superior na escola pública (grosso modo, eram 160 mil em 2005, 100 mil em 2014 e um corte de quase 40 mil com a troika) e cortes salariais que em milhares de casos atingem 6000 euros anuais líquidos (sim leu bem; atingem, porque com tanta conversa de campanha eleitoral ainda alguém se convence que os cortes não estão em vigor sabe-se lá até quando).


 


 



 


 


 


 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

da saga de nuno crato

 


 


 


 


Nuno Crato, na análise aos recentes resultados PISA, interpreta de um modo que permite concluir: mesmo sem a troika, Crato optaria pelos cortes curriculares, pelo aumento do número de alunos por turma e pela terraplenagem no esforço do sistema escolar nas últimas duas décadas. Refugia-se nos sete ministros do MEC na última década como se isso não advogasse que os progressos da nossa sociedade e da escola pública verificaram-se apesar disso. Crato não é humilde e não reconhece os erros; mas isso já se sabia desde o início.


 


A notícia do Expresso termina com uma afirmação que brada aos céus porque somos incapazes de nomear uma medida sua que tenha valorizado os professores.


 


 


"(...)A receita do sucesso passa por reforçar os as "disciplinas essenciais", como Matemática e Português, definir metas curriculares claras e "valorizar" os professores, defendeu."





domingo, 8 de dezembro de 2013

da velocidade e da história

 


 


 


 


Vivemos tempos tão velozes que nem as "narrativas históricas" escapam à voracidade. Bastam uns dois a três anos para que o revisionismo histórico se tente impor com a adulteração dos factos e a manipulação dos dados disponíveis. Não é nada de novo, mas o que apenas me surpreende é a velocidade com que se vão ajustando os discursos à volta dos testes PISA; tomando como exemplo esses relatórios por continuarem na agenda mediática.


 


Sobre Mandela passa-se algo comum, embora com um horizonte temporal mais distendido e com um impacto social e político incomparavelmente diferente. A velocidade com que se tenta canonizar o político é perigosa para a luta em defesa da democracia e dos direitos humanos. Desconhecer que Mandela foi um homem com defeitos e virtudes é injusto para o próprio. Mandela foi um político guerrilheiro e que lutou com as armas à sua disposição. Para além disso, e como sublinhei aqui, é fundamental perceber quem Mandela combateu e os motivos que o levaram a optar pela luta armada em detrimento da não violência. Tudo isso mais eleva o seu comportamento apaziguador que permitiu à África do Sul chegar à actualidade sem um banho de sangue generalizado.


 


É isso que leio no texto espantoso (o melhor que li sobre o assunto), que vai ao osso, de Roberto Carneiro hoje no Público, de que destaco um pedaço sobre as Comissões de Verdade e Reconciliação (CVR).




 


"(...)Faço o relato de um desses "julgamentos".


Um fazendeiro boer, homem rude e grotescamente inescrupuloso, fazia, do alto do seu 1,90 m de altura, uma descrição sádica do que fizera aos familiares de um jovem adolescente, com idade não superior a 16-17 anos, único sobrevivente do massacre levado a cabo na propriedade do primeiro.


"É verdade. Matei o teu pai à paulada. Quanto mais ele gemia, mais forte lhe acertava com o maço, na certeza de que o calaria. A tua mãe, que assistiu à morte do teu pai, cortei-a às postas, com que alimentei os porcos na pocilga. Às tuas duas irmãs, violei-as repetidamente e chamei os meus colaboradores directos para assistirem, e banquetearem-se de seguida com os corpos jovens e apetitosos que lhes oferecia, após o que as matei sumariamente, a seu pedido, em nome da preservação das suas honras."


E, continuava, por aí fora, caprichando numa prosa ignóbil, perante o nojo dos jurados, que, entre estupefactos e revoltados com tão animalesca descrição, se viam compelidos a escutar, indefesos, o incrível rol de barbáries e de violências em catadupa.


Findo o martírio de uma narrativa digna de uma besta repugnante, o presidente da CVR vira-se para o jovem negro, silencioso, por cujas faces rolavam grossas pérolas salgadas de um mar revolto que lhe invadia as entranhas, e interpela-o:


"Tens alguma coisa a dizer?"


"Sim", afoita-se o jovem, subitamente recomposto por uma notável serenidade.


Olhando de frente o sabujo criminoso, olhos nos olhos, diz-lhe numa candura de voz que nos deixou, a todos nós, gélidos: "Perdoo-te! (I forgive you!)"


Foi a estupefação generalizada na sala de audiências.


Encerrada a sessão pública, dirigi-me ao jovem que se mantinha cabisbaixo, a um canto, confortado por outros jovens amigos que, na circunstância, o procuravam animar após a duríssima prova a que se submetera. 


Num impulso irrefletido, interpelei o jovem: "Como foste tu capaz de perdoar àquele animal, àquela besta destituída de princípios de moral, àquela vergonha da espécie humana?" 


Respondeu-me ele: "O senhor é estrangeiro, não é? 


E, perante o meu assentimento de cabeça, rematou lesto: "Pois é. Não pode compreender. É que cada um de nós, sul-africanos, transporta dentro de si um pequeno Nelson Mandela". 


Dei-me subitamente conta, só então, de como a grandeza de alma do Madiba tinha modelado o espírito sul-africano elevando a capacidade de perdoar – de que ele dera testemunho eloquente – à condição estruturante da filosofia de vida do seu povo sofrido. E, mais, pelo exemplo superior, soubera fazer sentir a uma população ressentida, e ávida de vingança, que só no perdão se encontra a verdadeira e duradoura redenção humana! 


Escusado será esclarecer, que os jurados, longe do espírito reconciliador do Madiba, votaram por unanimidade a não-concessão de amnistia ao repugnante réu…"









segunda-feira, 18 de novembro de 2013

contra a função pública

  


 


 


 


O discurso contra a função pública é antigo e acentuou-se nos últimos anos. É um tratamento injusto e faz parte do ciúme social nas sociedades pouco desenvolvidas ou em crise. O actual Governo, coordenado em boa parte pelo lado pato-bravista dos partidos que o compõem, revelou esse sentimento e usou-o para dividir os portugueses.


 


 


Só quem está ao serviço dos lóbis que nos desgraçaram é que dá uma imagem diferente da Irlanda da que se lê na notícia. O radicalismo ideológico de Passos Coelho tornou-se a sua doença e do país.


 


 


terça-feira, 12 de novembro de 2013

de desplante em desplante - um MEC em roda livre

 


 


 


 


Sabia-se que não existiam "(...)dados socioeconómicos para as privadas(...)" (onde se incluem as cooperativas financiadas integralmente pelo Estado), mas também se sabia que "(...)A maioria esmagadora das pessoas interpreta os rankings como sendo a manifestação da qualidade de uma escola. Os dez primeiros têm uma publicidade fabulosa.(...)" e que "(...)nesse dia os jornais vendem mais…(...)". Sabia-se tudo isto e muito mais sobre os dados dos rankings. Mas o MEC, que, coitados, são uns ingénuos, disponibilizou os dados "incompletos", deixou que tudo acontecesse e agora vem um dos SE dizer o seguinte: "(...)Os rankings dos estabelecimentos de ensino devem ser analisados apenas “em contextos equivalentes”, defendeu nesta segunda-feira o secretário de Estado do Ensino e da Administração Escolar, João Casanova de Almeida, que recusou fazer quaisquer comparações entre os resultados obtidos pelas escolas públicas e privadas.(...)".




Leia-se a opinião do actual presidente do CNE sobre o assunto: "(...)Para David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), o Ministério da Educação e Ciência (MEC) deve proporcionar "melhor informação e mais detalhada" na divulgação dos rankings de estabelecimentos de ensino: "Tem de haver a publicação desta informação, mas o ministério tem de proporcionar melhor informação, mais detalhada, até para que se possa fazer o cruzamento de variáveis e se possam ter leituras mais complexas" dos resultados obtidos pelas escolas, disse à agência Lusa.(...)".




Qualquer que seja a opinião sobre os rankings, e perante a situação descrita, o mínimo exigível era que se fizessem rankings separados pelo tipo de dados recolhidos. São inúmeros os exemplos sobre o assunto do género do que foi apresentado pelo blogue de rerum natura.


 


"(...)Tome-se uma escola corrente de mais de 700 exames - a Infanta D. Maria, de Coimbra - e compare-se com o colégio S. João de Brito, com cerca de 250 exames. Ganha o colégio. Então, e se só escolhermos os melhores 250 da escola de Coimbra? É que o S. João de Brito matricula quem entende matricular, e a Infanta D. Maria matricula quem se apresenta à porta e vai cabendo…(...)"


 


 

domingo, 29 de setembro de 2013

a manipulação está no auge

 


 


 



 


 


A troika e as avaliações, os fanatismos ideológicos, a corrupção e as fortes influências dos mentores, o casino financeiro, os offshores, os paraísos fiscais instalados em países do eurogrupo, as diversas campanhas eleitorais, o experimentalismo a que sujeitaram Portugal, a febre dos mercados, os jogos de sombras do bloco central e por aí fora, são alguma das inúmeras razões que transportam a manipulação para um estado de vale tudo.


 


A primeira página do Público de ontem é elucidativa do desnorte que se apoderou do quarto poder.


 


Não me esqueço das 10 estratégias de manipulação enunciadas por Noam Chomsky. Recordo as 4 primeiras.


 


 


"1- A estratégia da manipulação.


O elemento primordial do controlo social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou a inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público manifeste interesse pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar".

2- Criar problemas e depois oferecer soluções.


Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A estratégia da gradação.


Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram empregos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A estratégia do diferido.


É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é sentido imediatamente. Em seguida, porque o público tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento."






quinta-feira, 23 de maio de 2013

directamente da estratosfera

 


 


 


 



 


 


 


 


Afirmar a aceleração deste processo só é possível num país completamente desgovernado.




Sem esquecermos o desvario em que caiu o sistema de remuneração das reformas que até deve tremer com este avolumar de entradas, só por desconhecimento é que se pode associar estas "fugas" à criação de horários em número igual ou parecido.

domingo, 27 de janeiro de 2013

publicidade, anedotas e comícios

 


 


 


 


Sou de um tempo em que a publicidade interrompia os filmes e era um excesso e uma perda de tempo. Desenvolvi um mecanismo mental de rejeição que já nem decifro as mensagens, apesar de reconhecer que tenho perdido coisas muito boas.


 


Acontece-me o mesmo com as anedotas. Talvez a brejeirice machista ligada a esse fenómeno me tivesse irritado tanto que estimulei um bloqueio que nem os sorrisos amarelos disfarçam e que quem me conhece bem já desistiu do uso desse meio de socialização.


 


Nas manifestações acontece-me o mesmo com as intervenções vindas dos palanques, que são sempre ruidosas e com vozes à beira de um ataque de rouquidão.


 


Ontem, na manifestação, existiu mais um coro de berraria. Só mais tarde dei conta do racismo do líder da CGTP, que classificou de escurinho o representante do FMI. É grave e inadmissível. Não sei se o homem já se retratou. Deve pedir desculpa e demitir-se de seguida. A expressão é indesculpável. É o tipo de racismo que vem bem de dentro.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

da festa bancária

 


 


 


A mistificação austeritarista vai tapando as crateras.


 


 


Ricardo Salgado: "É uma vitória sobre as agências de raiting"

relatório FMI - demitido um dos autores

 


 


Como escrevei neste post, considerei relevante que o socialista espanhol Carlos Mulas Granados assinasse o encomendado relatório FMI. Hoje soube-se que o PSOE o demitiu por assinar relatórios com pseudónimo.


 


Quando os estudos destas organizações internacionais se centram nas áreas que dominamos, fica sempre a sensação que os conteúdos são mais políticos do que técnicos e que existe um espécie de fim da história ideológica que aglutina as famílias que governam. E mais: há muito emprego aparelhístico e bem pago nestes domínios a par de um profundo desconhecimento da história dos países.


 


 


Coautor de estudo FMI sobre Portugal foi demitido




"O vice-presidente da Fundação Ideas, vinculada ao PSOE, demitiu hoje o diretor da instituição, Carlos Mulas Granados - um dos coautores do estudo do FMI sobre Portugal -, depois de comprovar que recebeu por trabalhos que assinou com um pseudónimo.(...)"

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

desigual

 


 


 


 


 


Como em qualquer outra causa, a defesa da escola pública faz-se com actos.


 


A última década delapidou essa recente conquista democrática. Através da desvalorização da cultura organizacional das escolas e do valor dos seus profissionais, a agenda do "tudo está mal na escola" conquistou espaço, tornou a contenda muito desigual, originou o aparecimento de falsos defensores que se escondiam numa oposição conjuntural recheada de falsidade e que eram denunciados logo que assumiam o poder formal.


 


Apenas os partidos de fora do arco de poder, e as instituições que funcionam como satélite, ergueram uma voz que o olhar da opinião publicada que estrutura o voto desvalorizou.


 


Assistiu-se nos últimos anos ao aparecimento de diversas vozes de professores. Organizados em movimentos ocasionais ou com o risco dos franco-atiradores, os professores do não superior conseguiram uma defesa que parecia impossível. É, contudo e repito, uma luta desigual.


 


Hoje ficou a saber-se o que já se desconfiava. Até o relatório do FMI, e na sua versão inicial, "(...)sugeria corte para metade das escolas com contrato de associação já este ano e criticava o elevado número de estabelecimentos de ensino(...)".




Veremos os próximos episódios.


 


Governo "limpou" original do relatório do FMI