sexta-feira, 8 de novembro de 2013

a alucinação tomou conta do sistema escolar

 


 


 


 


 


Exigir à escola que obtenha a excelência nos resultados escolares e que inclua os "que não querem aprender" e os que escapam à "normalidade" é a verdadeira quadratura do círculo que se torna uma alucinação terrivelmente exclusiva no mercado puro e duro.




Nem os países mais desenvolvidos - os que, por exemplo, eliminaram o analfabetismo no século XIX - encontraram uma saída democrática na alucinação vigente. Ao que vamos sabendo, instituíram soluções exclusivas em busca de uma qualquer excelência que acabou sempre por esbarrar no alçapão do aumento das desigualdades de oportunidades.




Portugal já tem indicadores de exclusão escolar que aumentarão em sentido proporcional à alucinação descrita.




Deixámos de pensar.




Se uma turma ou escola tem em maioria os que "que não querem aprender", a lógica de mercado dos resultados escolares será implacável. Por outro lado, se uma turma ou escola tem em minoria "os que não querem aprender", será "inaceitável" a sua presença desestabilizadora e os responsáveis escolares defrontar-se-ão com dilemas e exigências inumanas. O confronto com a história dessa minoria deixará à alucinação vigente um único caminho: o aumento dos indicadores de exclusão escolar.




O fim-de-semana será preenchido pela discussão dos rankings das escolas portuguesas. Repetir-se-ão os argumentos no duelo público-privado. Nenhum dos factores descrito ganhará: nem os excelentes quando abandonarem o regime de condomínio privado e se confrontarem com o mundo real e muito menos os destinados à exclusão.




Bem sei que advogar o fim dos mecanismos de mercado puro e duro (que é diferente de avaliar com rigor organizações escolares onde se incluem os resultados escolares) é considerado pouco ambicioso e falho de modernidade. Haverá mesmo quem considere falho de empreendedorismo. Mas também sabemos que as sociedades mais avançadas foram sempre as que colocaram a inclusão (mas a inclusão desde o pré-escolar) no topo das prioridades porque perceberam que a diminuição das desigualdades é proporcional ao aumento das classe médias e que manutenção da paz e da prosperidade só se consegue em sociedades não alucinadas. Mas mais: qualquer sistema bem sucedido na formação de pessoas foi construído com bases alargadas.




Aos advogados da alucinação falta-lhes o contacto com o real. Portugal é, e escrevo-o com tristeza, cada vez mais um país com um sistema escolar em profundo estado de alucinação.





6 comentários:

  1. Porque demorou tanto desta vez? Será a discrepancia entre a nota final e a do exame? No "condomínio privado" é vergonhosa.

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  2. O que os rankings escondem...

    Tome-se, como exemplo, os exames de 9.º ano e um certo concelho que tem dois estabelecimentos de ensino particular e cooperativo.

    Centremos a nossa atenção sobre um desses estabelecimentos, situado numa freguesia rural, longe de olhares indiscretos e de... pavilhão desportivo (prometida a sua construção à Câmara Municipal, nunca mais se concretiza).

    Olhe-se para o total de provas (118), divida-se esse total por 2 (cada aluno fez a prova de Língua Portuguesa e de Matemática) e chegamos ao número total de alunos que realizaram a dita prova: 59.

    Depois, dividamos 59 pelo número de turmas que frequentaram esse estabelecimento de ensino (3) e... conclusão: as turmas tinham entre 19 e 20 alunos.

    Ora, será que o Estado está a pagar 85 000 euros por turmas de apenas 19 ou 20 alunos?

    Não me parece que isso seja possível... Então, se as turmas tinham mais alunos, o que aconteceu aos restantes para não fazerem exame?

    Será que fariam "má figura"? Será que a média no "ranking" seria inferior? Será que isto passa despercebido a outros olhares?

    Recordo-me agora de uma intervenção de uma ex-professora desse estabelecimento de ensino na reportagem "Dinheiros Públicos, Vícios Privados". Referiu, na altura, que fora obrigada a atribuir classificações negativas, quando a média de alguns alunos até era positiva. A resposta à sua dúvida foi: "Arranja-te!". Sem mais comentários...

    Quanto ao outro estabelecimento de ensino particular do concelho, e fazendo o mesmo exercício, chegamos a um mais aceitável total de 23 alunos por turma.

    Aceitável? Esperem... Olhemos para o total de alunos por turma na Escola Pública vizinha que apresenta uma média de 27!

    Ou seja, quase todos os alunos da Escola realizaram os exames nacionais. E... não é que a dita Escola Pública ficou bem acima no ranking?

    E então? Onde está agora a anunciada superioridade (recordando as palavras de um certo "irrevogável") do ensino privado?

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  3. Brilhante este texto. Obrigado.

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  4. Obrigado João. Amanhã publico o post com o que me enviaste.

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