"Palhaçada este controlo e monitorização das progressões... baseados em upload de ficheiros EXCEL!"
É o que não se pagou dos empréstimos. 40 mil milhões (na banca portuguesa) é cerca de 25% do PIB e o dobro da requalificação bancária; ou seja, poderá ser o verdadeiro valor da segunda variável.

A CGD não voltará a falir de imediato uma vez que chumbou nos testes de stress do BCE. Sempre que um banco português passou nestes testes, faliu na semana seguinte. O BES teve mesmo um excelente antes da necessidade de requalificação (o eufemismo dos média para as falências na alta finança que, como na imagem, jamais pisa a relva). Entretanto, a injecção de capital na CGD já serviu, garante a nova administração, de fármaco para o stress. Para o ano, a síndrome anual (um banco por ano desde 2008) deve atingir o Montepio.
Depois da falência generalizada, suportada pelos contribuintes, da banca privada (20 mil milhões em 8 anos), a "impossibilidade" de mais encenação incluiu a Caixa Geral de Depósitos (mais de 4 mil milhões só este ano). Mesmo sem pessimismos, é a confirmação da falência do sistema (espera-se que o regime sobreviva). Chega a ser caricato ouvir os comentaristas mais mediáticos; de uma ponta à outra do espectro ideológico. Parecem aflitos. E como é que chegámos aqui? Imparidades (escriturado (muito) superior ao executável) e dívidas "impossíveis" de pagar; coitados.
Sim, acontece muitas vezes. Ainda no último domingo, Marcelo Rebelo de Sousa conjugou dois verbos para os resultados do ensino privado nos rankings dos exames: arrasaram; esmagaram. Como é um professor de direito, temos de baixar o grau para lá do inadmissível e já nada nos deve espantar. O político estava fora de si e terraplenava resultados escolares como quem comenta o "seu Braga".
Exigir à escola que obtenha a excelência nos resultados escolares e que inclua os "que não querem aprender" e os que escapam à "normalidade" é a verdadeira quadratura do círculo que se torna uma alucinação terrivelmente exclusiva no mercado puro e duro.
Nem os países mais desenvolvidos - os que, por exemplo, eliminaram o analfabetismo no século XIX - encontraram uma saída democrática na alucinação vigente. Ao que vamos sabendo, instituíram soluções exclusivas em busca de uma qualquer excelência que acabou sempre por esbarrar no alçapão do aumento das desigualdades de oportunidades.
Portugal já tem indicadores de exclusão escolar que aumentarão em sentido proporcional à alucinação descrita.
Deixámos de pensar.
Se uma turma ou escola tem em maioria os que "que não querem aprender", a lógica de mercado dos resultados escolares será implacável. Por outro lado, se uma turma ou escola tem em minoria "os que não querem aprender", será "inaceitável" a sua presença desestabilizadora e os responsáveis escolares defrontar-se-ão com dilemas e exigências inumanas. O confronto com a história dessa minoria deixará à alucinação vigente um único caminho: o aumento dos indicadores de exclusão escolar.
O fim-de-semana será preenchido pela discussão dos rankings das escolas portuguesas. Repetir-se-ão os argumentos no duelo público-privado. Nenhum dos factores descrito ganhará: nem os excelentes quando abandonarem o regime de condomínio privado e se confrontarem com o mundo real e muito menos os destinados à exclusão.
Bem sei que advogar o fim dos mecanismos de mercado puro e duro (que é diferente de avaliar com rigor organizações escolares onde se incluem os resultados escolares) é considerado pouco ambicioso e falho de modernidade. Haverá mesmo quem considere falho de empreendedorismo. Mas também sabemos que as sociedades mais avançadas foram sempre as que colocaram a inclusão (mas a inclusão desde o pré-escolar) no topo das prioridades porque perceberam que a diminuição das desigualdades é proporcional ao aumento das classe médias e que manutenção da paz e da prosperidade só se consegue em sociedades não alucinadas. Mas mais: qualquer sistema bem sucedido na formação de pessoas foi construído com bases alargadas.
Aos advogados da alucinação falta-lhes o contacto com o real. Portugal é, e escrevo-o com tristeza, cada vez mais um país com um sistema escolar em profundo estado de alucinação.
Foi interessante regressar ao mundo mediático depois de um apagão de 24 horas e através da impressa do Público. Há muito tempo que não pegava num jornal sem notícias "desactualizadas" pela voracidade da informação.
Sorri com três destaques. Ricardo Salgado do BES, que se dizia ser o "dono" de Portugal, parece começar a apontar o dedo à banca que nos empurrou para o descalabro financeiro, Selassie do FMI demarca-se, como se esperava, do Governo e remete os 4 mil milhões e o relatório para as invenções ideológicas e radicais da PassosCoelho.SA e António Barreto da FMS parece apelar à revolução já ou daqui a um bocado. Veremos se o Governo passa a primavera ou se o bom povo português acaba por reeleger uma espécie de regresso ao Portugal pobre mas orgulhoso.
As boas intenções e a especulação financeira
Muito interessante a análise sobre compromissos de geometria variável.
Já lá vão mais de vinte anos com Cavaco Silva a implorar para que o deixem trabalhar: os resultados estão aí. Tenho a sensação que a sua economia doméstica está saudável.
Parece que o anterior ministro das finanças cumpria a máxima do acesso aos salões da "aristocracia" republicana: sê forte com os fracos e fraco com os fortes. Tenho ideia que, de tanto tocar com a testa no solo sem dobrar pelos joelhos, deve ter arranjado alguma hérnia discal.
Classificava como amendoins tudo o que se relacionava com benesses ilimitadas da oligarquia e tinha o contraponto nas despesas que "lhe interessavam" (representava o colectivo): cortes nos salários, e despedimentos, dos funcionários públicos e aumentos de impostos.
Agora aparece com ameaças adequadas à época euro 2012: a culpa é do sistema e o primeiro da coisanostra tem que ser definitivamente desmascarado. Dá vontade de lhe dizer: ó homem, desembuche que raio!
Teixeira dos Santos: "Importa saber quem beneficiou com o BPN"
O discurso que remetia para a função pública e para o estado social a fatia maior da responsabilidade pelo desequilíbrio das contas ficou desmontado com a situação espanhola.
Os gregos parece que estão fora de análise. O discurso oficial definia, e define, a coisa assim: os problemas da Irlanda eram causados por uma banca contaminada pelos produtos tóxicos norte-americanos, o problema português era principalmente do estado (o BPN, por exemplo, é suíço e dos offshores) e é por isso que estamos a ser alvo do mais elevado corte nos salários. O Governo português começa a patinar porque o caso espanhol desmonta os argumentos ultraliberais, e as palas ideológicas, do gerente Passos Coelho.
Não sei se Portugal "aguenta" mais um registo de inverdades.
Primeiro-ministro não afasta renegociações das condições de resgate com a União Europeia
El Pais diz que Passos Coelho é "campeão da austeridade e das teses alemãs"
Quando se anunciam agregações de escolas num modelo inédito no mundo conhecido e que comprova o trauma de grandeza das elites lusitanas, quando nos preparamos para demonstrar que somos tão estratosféricos que metemos 30 alunos onde só cabem 22, quando andamos a despachar e a contra-despachar diariamente matrizes curriculares com meses de atraso, quando temos um ministro que se engana no algoritmo implosivo e liga às escolas o detonador que seria para o MEC, quando temos um SE Casanova que envergonhou o país numa prestação televisiva inadmissível para uma nação mesmo que troikada, os spins lembraram-se de dar eco a uma demonstração de má aritmética em que a utilização de siglas quer dar um ar sofisticado a uma ensandecida parolice organizacional.
O crédito horário das escolas foi criado em 1997 com a ideia de premiar em equivalente financeiro as escolas mais organizadas. Eram, salvo erro, 140 horas com a possibilidade de conversão financeira até 20. A coisa foi sendo apertada até ao zero. Foi também nessa altura que implodiram, e bem, as horas extraordinárias nos horários dos professores.
Os novos "iluminados" atribuem um tecto de 30 horas convertido em contratação de professores. Ou seja, passam a vida a anunciar que o MEC investe muito em pessoas e que nada sobra para o resto e quando uma escola consegue um bom índice de eficácia só pode contratar pessoas e não pode investir noutra coisa. A sério. Este país não tem remédio.
A sofisticação vigente descobre a roda mensalmente, como a seguir se traduz para senso comum:
É evidente que Portugal tem feito progressos, como se constata em diversos indicadores, mas em matérias como a corrupção, o caciquismo, o tráfico de influências, o saque ao Estado e por aí fora, não saímos do registo denominado como terceiro mundo. É também evidente que a redução da classe média favorece os mais interessados no caos.
Cortes salariais põe Portugal a caminho do Terceiro Mundo
"Presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, considera um erro os cortes salariais. E admite que os impostos podem descer dentro de cinco anos, se o país limpar as contas públicas.(...)"
Quando comecei a prestar atenção ao Goldman Sachs e à presença de António Borges, salvo erro em 2006 ou 2007, como um guru do trágico subpraime e putativo candidato instantâneo a primeiro-ministro de Portugal, sou franco: fiquei desconfiado e escrevi vários posts sobre o assunto, sempre com a sensação que podia estar a cair no registo de teoria da conspiração. Mas não. Hoje ninguém tem dúvidas e Portugal perderá muito com a presença do citado António Borges nas privatizações.
O meu percurso profissional, em instituições públicas, privadas e de utilidade pública, ensinou-me a respeitar o que existe, a ser humilde perante procedimentos com história e que a inovação não é sinónimo de epifania e corresponde a trabalho e conhecimento do terreno.
Nao sei se será da educação em ambiente anglo-saxónico, se será da formação (sapiência e experiência) em treino desportivo ou se há alguma influência do código genético, o que sei é que percebi que era giro e fixe ter ideias ou achamentos mas acompanhadas do método e do tempo adequado para as desenvolver. Percebi cedo e não considero isso nada por aí além. Sensatez, digamos assim.
Não me surpreendem os relatos que vão me chegando das reuniões de rede escolar com elementos que representam o poder central: o desmiolo não é novo. Substituir o ensino ligado às tecnologias e afins pela pesca, agricultura e caça é uma ideia gira e até fixe. Mas exigir que, nesta altura do ano escolar que pressupõe variáveis estudadas e consolidadas, se encontrem respostas em exclusividade para a mudança é que já parece uma coisa demasiado impreparada, que é da família que nos empurrou para o estado em que estamos e que não é da responsabilidade da troika.
Se era habitual a terraplenagem da história organizacional das escolas do não superior provocar um recomeço anual a partir de um patamar próximo do zero, nos últimos anos acentuou-se.
Agregações que implicam nomeações de CAP´s, nova estrutura curricular, alterações no modelo de gestão escolar e na rede escolar são variáveis que deviam estar resolvidas em Janeiro e que se tornaram o alvo preferencial dos "reformadores" iluminados.
Como estamos em finais de Maio e está tudo por fazer, a azáfama deve ter tomado conta do MEC e isso não augura bons resultados.
Informações sobre carga horária semanal causam confusão nas escolas
E é a prova provada que fazer gestão não é uma brincadeira-de-Gasparzinho, que convém reunir o saber académico com o conhecimento do terreno e que falar demasiado devagar não é sinal de humildade nem de sabedoria.
Estamos, como nação e aos mais diversos níveis, mais uma vez numa encruzilhada e o pânico generalizou-se. O Governo devia decretar a abertura oficial da crise. E o que é que fazemos? Recorramos às fábulas, por mais repetidas que sejam.
Um escorpião e uma formiga preparavam-se para atravessar o rio e a formiga pediu, temerosa com o caudal, boleia no dorso do coabitante. O escorpião avisou-a que teria de executar a sua verdadeira função, mas não a demoveu. Perto do fim da viagem picou-a mortalmente. Antes do falecimento, a formiga ainda o interrogou: porquê? O escorpião foi peremptório: é da minha natureza.