O 15 de Agosto recorda-me sempre o filme imperdível de Gianni de Gregorio. E nem sei porquê, mas desta vez associo-o à difícil poesia de Rainer Maria Rilke: exige leitura repetida, mas o resultado é sublime. É um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, situado perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.
Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
Por isso me contenho e engulo o apelo
deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens,
e os argutos animais sabem já
que nós no mundo interpretado não estamos
confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.
Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo
nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,
suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente
do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?
Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)
Depois da poesia, um vídeo do filme - é um muito bom momento de humor -.
Curioso este teu gosto pelo Rilke...
ResponderEliminarConheci-o quando estudava Heidegger, um portentoso pensador que acabou ligado aos NAZIS e nunca o renunciou, nem na hora da morte. Rilke partilhava do mesmo ou idêntico modelo de reflexao e pensamento de Heidegger. Se não tivesse morrido em 1926 já pensei muitas vezes que seria também NAZI. Mas não passa de pura especulação. Às vezes também o associo a Nietzsche, sobretudo no mito do super homem.
Uma coisa é certa: a sua escrita é de uma enorme beleza.
Sem dúvida. E não só poesia. Cartas a um jovem poeta é muito bom. É onde diz que “estamos irremediavelmente sós”.
ResponderEliminarO vídeo sobre o filme italiano vale mesmo a pena. E o filme também, claro.
ResponderEliminar"Estamos irremediavelmente sós." Tem muita verdade essa afirmação. Ainda acredito que o amor tem uma força maior que qualquer anjo ou qualquer divindade. O amor pode vencer o irremediavelmente só. Mas nós optámos pelo ódio. Vivemos o universo do ódio e acreditamos mais no ódio. Eu já dou comigo a dizer que estamos mais irremediavelmente condenados do que sós. Mais do que condenados a sentirmo-nos irremediavelmente sós.
ResponderEliminarClaro, o amor. Mas a frase de Rilke está muito relacionada com a ideia de finitude. Deve ser lida nesse contexto. As cartas a um jovem poeta são essenciais para perceber Rilke, como, na minha modesta opinião, é essencial ler o "retrato do artista enquanto jovem" antes de se ler o monumental Ulisses do James Joyce.
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