Para além de tudo, temos, como sempre, os valores.
Impressionou-me ouvir a Igreja reivindicar superioridade moral na Educação de crianças; e logo em crianças carentes de adopção. Das duas uma: já não há produção de espelhos ou espera-nos o fim do mundo.
A maioria dos eleitores europeus (e dos eleitos) defende o euro como garante da paz, da solidariedade entre povos e dos restantes ideais europeus. Ou seja, pensam em política e desconhecem o amanhã em termos económicos e financeiros. Essa supressão do futuro, que arrasta os mais conscientes economistas, não impede conclusões fundamentadas sobre um passado recente em que a Europa austeritarista foi um erro grave que sucedeu a outro: um desenfreado investimento público estimulado por Bruxelas como fuga para a frente. Ambos foram respostas descontroladas à hecatombe bancária mundial de 2007 (é fundamental não esquecer). Enquanto a Europa enlouquecia e se dividia nas "soluções", os EUA e a Rússia assistiam com políticas expansionistas. O caos europeu chegou ao paradoxo "solidário" bem caricaturado na imagem ou nas inúmeras referências pela "turba dos valores" ao facto de gélido Schäuble se deslocar em cadeira de rodas. A discriminação na Europa da entrada do século XXI parece não ter limites e isso volta a colocar a política no lugar central do problema.
Se o processo de constituição do direito é fenomenológico e normativo, impõe-se a interrogação: quais são os momentos dos normativos vigentes? Os especialistas responderão: direito só há um o vigente e mais nenhum.
A vigência é o modo de ser do direito e engloba duas categorias: a validade e a eficácia. Para Kant, por exemplo, "a validade sem eficácia é inoperante e a eficácia sem validade é cega".
Um Estado que se afirma de direito, como o nosso, e em que a validade e a eficácia são acusadas da dissolução na espuma dos dias, é fundamental o exemplo, desde logo, dos primeiros dignitários do Estado.
Olhamos para o estado de boa parte das figuras políticas, e dos mais variados quadrantes, e ficamos perplexos. E ficamos ainda mais preocupados se considerarmos a atmosfera que exibem primeiro-ministros e muitos dos "capitães" partidários como é o caso de Duarte Lima. Argumente-se o que quiser, mas é indisfarçável a crise da democracia.
"Vê lá que a filha da minha empregada senta-se ao meu lado na faculdade", é um espanto misturado com indignação que pode ser escutado aos filhos da geração ainda adolescente no 25 de Abril e nas que se seguiram.
E nesse grupo encontramos, para além dos óbvios e imutáveis conservadores, MRPP´s, esquerdas minoritárias diversas, socialistas e sociais-democratas de vias avançadas e até os freaks da altura.
Não direi que é uma desilusão, pois para isso tínhamos de estar iludidos e não era caso para tal. É uma espécie de tristeza, de ligeiro choque e de surpresa com o estado em que ainda estamos com quase quarenta anos de democracia. Às vezes até parece que regredimos e que eliminámos a memória.
"(...)até os alunos foram recompensados do seu esforço intelectual recebendo um prémio em dinheiro, dinheiro directo! - a mais alta perversão dos valores morais que esta classe política indigna cometeu(...)"
Miguel Real (2011:20).
"Nova teoria do mal".
Lisboa. D. Quixote