"(...)Era já uma Viena trágica. Não podemos esquecer o paradoxo: a matriz - se assim me atrevo a dizer - da nossa cultura moderna, do nosso modernismo, e até mesmo pós-modernismo, mas já à sombra de um anti-semitismo cada vez mais feroz, e, sobretudo devido á catástrofe de 1914-1918, o troço decepado de um império que procurava - já então - o seu futuro na direcção da Alemanha.(...). Veja bem que foi um presidente do município de Viena, Karl Lueger, um homem muito importante, quem lança verdadeiramente as bases do programa que será o do seu discípulo, Hitler, visando a eliminação dos judeus na Europa. Há um ponto de pormenor que me obsidia: a palavra, medonhamente feia em alemão, "Judenrein", que significa "limpeza étnica": regiões, cidades, organizações, onde deixará de haver judeus: É o clube de bicicleta da cidade de Linz que inventa esta palavra em 1906.(...)"
Steiner, G. e Spire, A. (2000:16)
Barbárie da Ignorância
Lisboa
Fim de Século
Os meus textos e os meus vídeos
quinta-feira, 1 de junho de 2023
Era já uma Viena trágica
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
das influências e da geografia
Talvez a geografia associada à política condene os povos não só à repetição dos gestos como à aprovação dos momentos mais trágicos da história. Por exemplo, a extrema direita parece ganhar terreno no centro da Europa.
"(...)Era já uma Viena trágica. Não podemos esquecer o paradoxo: a matriz - se assim me atrevo a dizer - da nossa cultura moderna, do nosso modernismo, e até mesmo pós-modernismo, mas já à sombra de um anti-semitismo cada vez mais feroz, e, sobretudo devido á catástrofe de 1914-1918, o troço decepado de um império que procurava - já então - o seu futuro na direcção da Alemanha.(...). Veja bem que foi um presidente do município de Viena, Karl Lueger, um homem muito importante, quem lança verdadeiramente as bases do programa que será o do seu discípulo, Hitler, visando a eliminação dos judeus na Europa. Há um ponto de pormenor que me obsidia: a palavra, medonhamente feia em alemão, "Judenrein", que significa "limpeza étnica": regiões, cidades, organizações, onde deixará de haver judeus: É o clube de bicicleta da cidade de Linz que inventa esta palavra em 1906.(...)"
Steiner, G. e Spire, A. (2000:16)
Barbárie da Ignorância
Lisboa
Fim de Século
terça-feira, 27 de novembro de 2012
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
tem sido assim
Sempre que há uma catástrofe natural, mesmo que não seja de interesse mediático planetário, há dois argumentos muito usuais e que se contradizem: é a maior desde que há registos (e parece que cada vez é mais assim) e à escala do planeta são abalos insignificantes.
A escalada produtiva que temos vivido tem contradições insanáveis e basta pensarmos na industria de armamento. O seu desmantelamento criaria desemprego em massa e a sua manutenção provoca o flagelo que se conhece.
Quando lemos periodicamente notícias do tipo, "Clima: "O tempo está a esgotar-se", alerta responsável das Nações Unidas", concluimos que esta instituição está com o poder muito reduzido e que as "bolhas" vieram para ficar.
Steiner, G. e Spire, A. (2000:100).
Barbárie da Ignorância.
Lisboa.
Fim de Século.
domingo, 25 de novembro de 2012
os intelectuais e a tirania
A crónica de ontem de Pacheco Pereira no Público aponta o dedo, e muito bem se me permitem, aos intelectuais que consideram que os portugueses não estão conscientes das dificuldades (como se pode ler na imagem que acompanha o post).
É frequente ouvirmos aplicar o determinante indefinido "todos" para atribuir responsabilidades aos portugueses pela bancarrota, pelo "fechar" de olhos à corrupção e pelos mais variados assuntos. Todos não, dizem muitos e com razão. Esse revisionismo histórico é injusto.
Por outro lado, é só pensarmos um bocadinho e encontramos amiúde exemplos da trágica e cínica associação entre a intelectualidade e a tirania; nem que seja pela condescendência. É sempre importante estarmos bem avisados.
Para Pacheco Pereira, os intelectuais não tiveram uma interpretação brilhante "dos tempos"; nomeadamente no século XX e pelos vistos também na actualidade.
Não sei em quem é que ele estava a pensar, antes e agora, sei que para além de Heidegger ("o maior dos pensadores e o mais pequeno dos homens"), também Sartre é tratado assim no excelente livro de George Steiner que acabei de ler:
"(...)Vou-lhe responder, com todo o respeito; o problema são as alianças extremamente perturbantes que se dão entre a mais alta filosofia e o despotismo. É Platão que vai (três vezes) ter com o tirano Dionísio de Siracusa. É o fascínio que a tirania e até mesmo o inumano exercem sobre a alta abstracção. Estive na China na minha qualidade de professor. Conheci lá colegas que as torturas dos Guardas Vermelhos tinham deixado estropiados. Fizeram chegar a Jean-Paul Sartre uma carta que dizia: "Diga alguma coisa, você, o Voltaire do nosso século, faça alguma coisa." Tinham até estudado em Paris, com Sartre. Ao regressar a França, Sartre dirige-se ao Vélodrome d´hiver para explicar que os boatos que correm sobre as sevícias praticadas pelos Guardas Vermelhos são propaganda da CIA americana. Sartre, durante toda a sua vida, desfilou mentiras, umas atrás das outras, sobre as tiranias.(...)"
Steiner, G. e Spire, A. (2000:59).
Barbárie da Ignorância.
Lisboa.
Fim de Século.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
herança pesadíssima
É impossível condensar num post tudo o que se pensa ou escreveu sobre um assunto e isso pode gerar equívocos.
A Alemanha, como de resto a França, a Itália, a Espanha, a Grécia, Portugal, a Inglaterra ou os Estados Unidos e por aí fora têm, apesar dos momentos trágicos, de ter orgulho na sua história e na sua cultura.
A actualidade alemã é particularmente difícil. Terminou há pouco a "inclusão" da região leste e tem de ser uma "pedra" chave numa Europa em crise e que tem de competir em desigualdade de direitos laborais com regimes ainda mais mergulhados na corrupção, a Rússia e a China, e com a pátria do mass-market planetário e das predações associadas, os EUA.
Convenço-me que a principal preocupação alemã passa por evitar a repetição do período 1939 a 1945. É uma herança pesadíssima.
Não se deve separar a biografia das possibilidades políticas e Merkel não foge ao exame. Haverá alguma controvérsia que só o tempo ajudará a perceber.
E é sempre importante sublinhar algumas evidências históricas.
Steiner, G. e Spire, A. (2000:45).
Barbárie da Ignorância.
Lisboa.
Fim de Século.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
da história e da repetição
Não sei se a história se repete, mas talvez a geografia associada à política condene os povos não só à repetição dos gestos como à aprovação, consciente ou não, dos momentos mais trágicos da história.
Foi assim em 1914-18 e repetiu-se de um algum modo em 1939-1945. A Europa central tem na região que inclui a Alemanha um pólo devastador, mesmo que não possamos incluir nesse fatalismo a totalidade das pessoas; e escrevi esta verdade tão óbvia para não ferir susceptibilidades.
Nota-se no país governado por Merkel uma qualquer necessidade de apontar o dedo aos preguiçosos PIIGS, dá ideia que dá votos, e o que ainda custa mais é registar a veneração de alguns dos apontados.
"(...)Era já uma Viena trágica. Não podemos esquecer o paradoxo: a matriz - se assim me atrevo a dizer - da nossa cultura moderna, do nosso modernismo, e até mesmo pós-modernismo, mas já à sombra de um anti-semitismo cada vez mais feroz, e, sobretudo devido á catástrofe de 1914-1918, o troço decepado de um império que procurava - já então - o seu futuro na direcção da Alemanha.(...). Veja bem que foi um presidente do município de Viena, Karl Lueger, um homem muito importante, quem lança verdadeiramente as bases do programa que será o do seu discípulo, Hitler, visando a eliminação dos judeus na Europa. Há um ponto de pormenor que me obsidia: a palavra, medonhamente feia em alemão, "Judenrein", que significa "limpeza étnica": regiões, cidades, organizações, onde deixará de haver judeus: É o clube de bicicleta da cidade de Linz que inventa esta palavra em 1906.(...)"
Steiner, G. e Spire, A. (2000:16)
Barbárie da Ignorância
Lisboa
Fim de Século
sábado, 30 de abril de 2011
do silêncio
Numa época de crise financeira e em que se fazem diagnósticos sem fim, é pertinente que nos interroguemos sobre o silêncio à volta de preocupações manifestadas por George Steiner.
"George Steiner, considerado um dos mais importantes pensadores actuais, lamentou que se viva um dos períodos mais selvagens da História e em que os dois grandes produtores de dinheiro são a droga e a pornografia. O professor da Universidade de Cambridge, de origem judaica, considerado um humanista pessimista, afirmou que o holocausto mudou o significado da condição humana e que se perderam certos ideais do progresso humano. A condição humana tornou-se profundamente problemática, frisou.(...)"
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
cultura
"(...) A cultura mais não é do que um convite, um convite ao cultivo da nobreza de espírito. A cultura fala discretamente: "Deves mudar a tua vida". A sabedoria que oferece é revelada, não por palavras, mas por actos. Ser "culto" requer muito mais do que erudição e eloquência. Mais do que tudo o resto, significa cortesia e respeito. A cultura, como o amor, não possui uma capacidade para obrigar. Não oferece garantias. E, contudo, a única possibilidade de alcançar e proteger a nossa dignidade humana é-nos oferecida pela cultura, pela educação liberal. Os artistas e os intelectuais não deviam ser reis, não deviam sequer ambicionar ser reis ou fazer parte de uma elite de poder. Mas uma sociedade que ignora o enobrecimento do espírito, uma sociedade que não cultiva ideias humanistas, acabará, novamente, na violência e na autodestruição. (...)"
Rob Riemen no livro de George Steiner, A Ideia de Europa, Edições Gradiva.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
nada de novo
"(...) Uma vez mais, não é nada de novo. Doistoievski descreveu-o em Os Possessos: hipocrisia, corrupção intelectual, fascínio pela violência, vício do poder e um conformismo infinito caracterizam demasiados intelectuais. (...)"
Rob Riemen no livro de George Steiner, A Ideia de Europa, Edições Gradiva.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
não há necessidade
"(...). Não há necessidade de discutirmos, mais uma vez, Heidegger e as suas tendências fascistas, ou o oficial das SS que chegava a casa e tovaca Schubert depois de mais um dia de carnificina. Vemos, repetidamente, que nem o conhecimento intelectual nem a educação liberal oferece qualquer garantia de juízo moral correcto, quanto mais uma ética melhor. (...)"
Rob Riemen no livro de George Steiner, A Ideia de Europa, Edições Gradiva.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
cada vez são mais os que pensam que esta selva é quase inaudita
George Steiner: "Vivemos num dos períodos mais selvagens da História"
"George Steiner, considerado um dos mais importantes pensadores actuais, lamentou hoje que se viva "um dos períodos mais selvagens da História", em que os dois grandes produtores de dinheiro são a droga e a pornografia.
O ensaísta participou nas V Conferências Internacionais de Filosofia e Epistemologia do Instituto Piaget, em Viseu, que durante três dias se dedicam a reflexões sobre a condição humana.
O professor da Universidade de Cambridge, de origem judaica, considerado um "humanista pessimista", afirmou que o holocausto mudou "o significado da condição humana" e que "perderam-se certos ideais do progresso humano". "A condição humana tornou-se, hoje em dia, profundamente problemática. Vivemos num dos períodos mais selvagens da História", frisou.(...)"
sábado, 6 de junho de 2009
silêncios

(encontrei esta imagem aqui)
""Temos tendência a esquecer que, por serem altamente vulneráveis, os livros podem ser suprimidos ou destruídos. Como as demais produções humanas, os livros são portadores de uma história, história essa cujos primórdios continham já em germe a possibilidade ou a eventualidade de um fim."
George Steiner sublinha assim a permanência incessantemente ameaçada e a fragilidade da escrita, interessando-se paradoxalmente por aqueles que quiseram - ou querem - o fim do livro. A sua abordagem entusiástica da leitura une-se aqui a uma crítica radical das novas formas de ilusão, de intolerância e de barbárie produzidas no seio de uma sociedade dita esclarecida.
Essa fragilidade, reponde Michel Crépu, não nos remeterá para um sentido íntimo da finitude que nos é precisamente transmitido pela experiência da leitura? "Essa tão estranha e doce tristeza que se encontra no âmago de todos os livros como uma luz de sombra."
A nossa época está prestes a esquecer-se disso. Nunca os verdadeiros livros foram tão silenciosos."
George Steiner, "o silêncio dos livros",
seguido de "esse vício ainda impune" de Michel Crépu,
editado pela Gradiva.
-
O discurso, em Davos, de Mark Carney, PM do Canadá, é corajoso. O texto - a prosa é mesmo sua e publico a tradução como recebi por email de...
-
O cartoon "One year of Trump" é de Gatis Sluka. Encontrei-o na internet sem restriçoes de publicação. Sabemos que o centro de gr...
-
O Correntes mudou de casa. A nova morada é em https://correntesprudencio.blogspot.com/ A mudança da SAPO para o Blogspot deve-se ao encerr...