Por Ana Paula Correia, Isilda Lopes, José Ribeiro e Maria Manuela Ferraz; aqui.
Apesar do ME afirmar que 40% dos professores concordavam com o desmiolo da avaliação do desempenho, há estudos que indicam números bem diferentes. Uma coisa é o medo e outras coisas mais, outra bem diferente é a raiz do pensamento.
A Pró-Ordem dos Professores realizou um inquérito, ao qual responderam mais de 2.500 docentes, que consideraram o modelo de Avaliação de Desempenho «injusto, burocrático e arbitrário».
O mau perder dos indefectíveis deste governo manifestou-se. É mesmo o esboroar do monstro. O argumento que defende que esta avaliação não deveria ser suspensa nesta altura é fraco. Nem sei se vale a pena, mas recorda-se que o desvario começou em Janeiro de 2008 e com ameaças de rápido-e-já-porque-senão-acontecia-sei-lá-o-quê. A questão é como com os direitos humanos: todos, já e sem mitigações; o modelo era mesmo mau e não conheço quem argumente o contrário a não ser com superficialidades ou generalidades.
Os preocupados com o meio do ano também se referem a uma caça aos votozinhos que dizem ter norteado a coligação positiva que se estabeleceu no parlamento. Este argumento vindo de quem vem até dá vontade de rir. Os professores que se bateram mesmo em nome da dignidade profissional e da democracia não são um punhado de votos e já deram provas de que sabem por onde não vão. É estranho ver um partido dito democrático a desvalorizar a união da oposição para derrubar um diploma monstruoso que fez tábua rasa do poder democrático das escolas. Celebre-se a democracia e a cidadania, apesar deste PS.
A coligação positiva que derrubou esta avaliação de professores no parlamento verá, ao que tudo indica, o exercício democrático promulgado pelo presidente da República. São vários os aspectos que impressionam na semântica da queda. Desde a mudança da magistratura de influência para uma mais activa, que no caso da avaliação de professores confere um desnorte nas convicções, até ao desvario dos apoiantes do governo e passando pela tardia, mas justa, mudança de posição dos partidos da direita.
Quem estava mesmo contra aquela avaliação só pode celebrar. Venceu a força da razão e veremos o que acontecerá aos modelos da mesma família que tecnocratas desatentos das pessoas tentaram impor. Os diversos sindicatos, e mesmo os dos professores, escusam de mostrar de forma tão evidente um ou outro ressabiamento. Quando os destinatários destas "reformas" têm voz, a coisa complica-se para o mainstream. E não adianta advogarem com a exclusividade dos professores. Há outros grupos que vêem modelos semelhantes serem consecutivamente adiados, porque já se intuiu do quase fascismo por via administrativa que estes desmiolos carregam.
O deputado Pacheco Pereira votou contra a suspensão da avaliação de professores. É a democracia. Esse facto legitima os que defendem que interessou mais a queda do monstro, e o abalo nas ideias subjacentes, do que as cores partidárias que votaram nesse sentido. Se os democratas que apareceram a defender a manutenção do desmiolo o estudassem bem e tentassem perceber o que se passou na France Telecom, talvez se arrepiassem com o que andam a afirmar. A história e o tempo talvez se encarreguem da elucidação.
Os argumentos do deputado do PSD revelam algo que já se suspeitava: há um conjunto de políticos de antiga influência que estão a ver a realidade a fugir-lhes entre os dedos; já foi assim com as análises à geração à rasca e regressa agora. A visão maniqueísta dos bons governantes e dos maus sindicatos é uma disquete do passado. Pacheco Pereira declarou que votou contra para não ver os sindicatos a mandarem de novo nas escolas. O deputado está tão formatado que nem percebeu o que se conseguiu; apesar dos sindicatos, votou-se o fim daquela avaliação. O problema português é também geracional: a das benesses ilimitadas deve ser muito mais humilde para não ficar mal, de vez, na fotografia.
As quotas na avaliação de professores começam a ser despachadas. Este post do Paulo Guinote é lapidar: "Há várias situações divertidas, mas a principal delas é a percentagem de Excelentes reservada aos Directores em cada DRE. Vai ser um fartar vilanagem e um velhacouto dos antigos que nem quero ver, na recompensa ao lambe-botismo. Espera-se a reacção da ANDE e ANDAEP."
É uma autonomia cómica e mais uma singularidade lusitana. O Conselho Geral elege e demite o director, mas o director regional é que avalia o desempenho. Pode saber mais no link disponibilizado.
Pode conhecer aqui os detalhes da formação para avaliadores. Se se interessa por estas matérias, repare nos formadores, nas entidades promotoras e na agenda. Não aprenderam nada com o passado recente e anunciam-se mais episódios do monstro que tanto nos custou a derrubar. A industria do eduquês, a tal que move milhões, no seu esplendor.
Diz Licínio Lima, especialista na área da administração educacional, ao jornal da Fenprof:
Em Portugal descobrimos uma teoria nova, um contributo que damos para a Humanidade: nas escolas pequenas os alunos não aprendem. E assim, enquanto na Finlândia uma escola secundária tem uma média de 400 a 500 alunos, no nosso país a administração quer fundir escolas e criar super-estruturas organizativas com centenas de professores e milhares de alunos…
Noutro dia um dos secretários de estado da Educação dizia o mesmo em relação às turmas seguindo as ideias do ex-ministro David Justino. É um sintoma do pensar em grande duma boa parte do arco da governação. Foi em grande com o jorro dos fundos estruturais. Foi uma guloseima em empresas de todo o género e um verdadeiro saque ao estado. Deve estar tudo seguro em offshores, em Cabo Verde e por aí, e os que não arriscam, ou se contentam com a pobreza material, que paguem a despesa.
Descentralizar não significa privatizar: muito menos no sistema escolar.
É eficaz eliminar a burocracia de serviços centrais através de contratos de autonomia (charter schools). Não podem é ser contratos onde a inscrição mantém a dependência das invenções técnico-pedagógicas de serviços centrais: alguém tem de perder o emprego.
Sabe-se que autonomia implica responsabilidade e confiança. Exige uma sociedade onde impere esse clima. Portugal devia e podia ser um país assim. Há exemplos desse exercício. Alguns investigadores falam de "autonomia clandestina" como receita para o sucesso organizacional. E falam bem. Estamos muito longe de ser uma sociedade confiante. Não adianta apontar dedos; o único certeiro é o que se dirige à consciência de cada um.
É decisivo que se fale de financiamento. Sem essa clarificação nada se faz. Há, desde logo, duas perguntas a fazer: é legítima a privatização de lucros na escolaridade obrigatória (para já não falar da seguinte)? Defendo que não. A contratação de professores deve obedecer sempre a concurso público? Defendo que sim.
Aprende-se com a sociedade americana, mas as cópias não se aconselham. Para o sonho americano existe uma formulação apenas: sou patrão ou aspiro a sê-lo. Na europa existe um grupo, os chamados intelectuais, que são capazes de trabalhar tanto como os patrões e que aspiram a viver do seu salário. E isso confundiu os neocons, mas também os governantes actuais. Encontraram uma solução: o esmagamento através da prestação de contas com monstros burocráticos. Fazem-no em casa com medo das contaminações e têm um canal mundial para a propagação da receita: chama-se OCDE e em Portugal é a tecno-religião dos partidos políticos todos com assento na Assembleia da Republica, com particular destaque para os do arco-do-poder.
Valeu-nos, por agora, um grupo alargado de professores que andam pelas escolas da escolaridade obrigatória, que pensam para além das tecno-religiões, que só querem ser patrões de si próprios e prestar contas pelo seu exercício profissional. Nada será como dantes.
A melhor analogia que encontrei para explicar os últimos anos no sistema escolar é mais ou menos assim: dá ideia que atracou ao largo de Peniche uma barca carregada de tresloucados e que alguém os espalhou pelo país: uns quantos infiltraram-se em S.Bento, outros na 5 de Outubro e uma boa mão cheia na 24 de Julho.
Mesmo que se juntem numa qualquer livraria da capital para afirmarem a pés juntos que o preto é rosa, quem convive com a "obra" feita não tem outra conclusão: são mesmo tresloucados e quanto mais se emocionam mais comprovam a tese.

Esta rubrica vai ter hoje a última entrada e foi dedicada ao esbororar do inexequível modelo de avaliação dos professores. Caiu porque era inaplicável e um monstro de burocracia. Espero não ter de a reabrir: acredito que alguma lição foi aprendida.
"Mário Nogueira, dirigente de Fenprof, afirmou hoje à saída da reunião com a ministra da Educação: "Este modelo de avaliação acabou"."
Foram dezassete as rubricas que dediquei ao esboroar do monstro; monstro foi o nome que escolhi para baptizar aquilo que foi a formulação inicial do modelo de avaliação dos professores. Conjuguei-o em esboroar porque tinha a mais firme convicção de que a criatura fantástica era inaplicável.
Nesta altura importa sublinhar que aquele tenaz devaneio burocrático foi derrubado. E caiu, apenas, porque era inexequível.
Espero que o que se venha a construir resulte de alguma aprendizagem com o que vivemos nestes aterradores últimos quatro anos. Era bom que se aproveitasse o balanço para derrubar o muro de burocracia, e de burocratas loucos, que asfixiam a possibilidade do ensino e o poder democrático das escolas. Urge devolver a escola aos que estão comprometidos com a sala de aula e com a ideia de ensinar.
Faz tempo que passei a caracterizar o modelo de avaliação do desempenho de professores como o monstro ou como a ponta do "iceberg" que asfixiava os professores portugueses.
A determinada altura, quando as entidades instituídas ainda dormiam, os professores, saturados com a inexequibilidade de um modelo que se mantinha ligado à máquina, forçaram o despertar das consciências e a inevitável queda da primeira versão do modelo de avaliação do desempenho dos professores.
Com a ideia de atribuir um reforçado e enfático sentido à justa causa, decidi abrir algumas rubricas. O "esboroar do monstro" foi uma delas. Ficou-se pelo número dezasseis.
Não que o monstro tenha formalmente caído, nada disso: é necessário continuar atento, uma vez que as cortinas de fumo lançadas pela diabólica equipa que governa o ministério da Educação são as do costume. Mas pode ser que a ministra de Educação, e a sua vasta equipa, estejam num momento de lucidez e já se tenham convencido que vão mesmo partir.

(encontrei esta imagem aqui)
Tenho recebido emails e outros tipos de contactos de pessoas que se mostram interessadas em conhecer como vai a vida por Santo Onofre; e isso, só se pode incluir na rubrica que também escolhi para intitular esta entrada. Quando inaugurei "o absurdo de Santo Onofre", pesei bem o adjectivo e não tive grandes dúvidas: se estiver para isso, a rubrica vai atingir um número de entradas próximo do infinito.
Mas, e por outro lado, já tenho pouca paciência para dissertar sobre os descomunais e inenarráveis processos de concursos de titulares, de avaliação do desempenho ou de gestão escolar (mas menos paciência está a léguas de ser sinónimo de desistência, claro). Tudo isso se tornou num desmiolado somatório de trapalhadas com contornos patológicos de fingimento e de degenerescência na atmosfera relacional das escolas. Nem sei qual é a data escolhida (mas podia alvitrar um palpite, ai isso podia) para o epílogo desta saga sem pés nem cabeça; mas quero crer que ainda haverá um pingo de bom senso e que ou os tribunais ou os órgão de soberania saberão terminar com estes momentos de intensa agonia.
Santo Onofre, e muito por mérito dos seus órgãos de decisão mas sempre apoiados pela maioria dos professores, foi fugindo a esse inferno.
Desde que aconteceu a ocupação de Santo Onofre, num acto perpetrado pelo actual governo, e logo que surgiram os primeiros contactos com a solução provisória de gestão escolar, que ficou claro e óbvio o que já se supunha: a acrescentar ao já funesto ambiente organizacional instituído por quatro anos de políticas desastrosas, passávamos a conviver com a desorientação provocada por um corte nos procedimentos singulares, e tanto enaltecidos, daquele agrupamento de escolas. Quanto mais o tempo passar mais se acentuará o flagelo. Sabemos que todas as escolas abrem de novo em Setembro, e, dá ideia, que é apenas isso que conta.
Dar, portanto, conta dos absurdos de Santo Onofre parece quase escusado e redundante. O ambiente é meio pantanoso e nada de estimulante se regista no domínio do que verdadeiramente deveria interessar: a continuação de um projecto muito autónomo e responsável que se guiava pelos primados da pedagogia e da liberdade para ensinar e aprender. O que se passa agora é, somente, uma catadupa de retrocessos. É muito triste, mas é assim.
Escrever, por exemplo, que o novel presidente do Conselho Pedagógico de Santo Onofre não concorda com o modelo em curso de avaliação do desempenho vale o que vale. Relatar que se voltou a alargar o prazo para a entrega de objectivos individuais até às 17h00 do dia 21 de Maio de 2009 é quase caricato: a saga dos objectivos deve ser fixada no início do módulo e estamos a poucas semanas do final do mesmo; por outro lado, inscreve-se a necessidade de essas excrescências terem também como base de formulação o plano de actividades e depois convoca-se uma reunião da Assembeia de Escola para o mesmo dia, mas às 21h00 (ou noutra hora qualquer, mas é seguramente à noite e depois das 17h00), e insere-se como ponto de agenda a aprovação (agora dizem-me que é mais uma apreciação) do citado plano para o ano lectivo que está prestes a finar e onde a esmagadora maioria das actividades já se realizaram.
Como se imagina, o relatório de absurdos podia caminhar por aí fora.
O cunho editorial do "correntes" começou por estar fora das questões da Educação. Mas foi impossível conseguir isso pelos motivos que se conhece. Também procurei manter o blogue longe das questões internas da minha escola. Não foi fácil, uma vez que as nefastas políticas não se podiam dissociar, obviamente, do quotidiano das escolas. Estas pequenas incursões que ultimamente tenho feito são imperativas e é um exercício de liberdade e de responsabilidade cívica que me exijo. Voltarei ao assunto sempre que considerar que se justifica.
Termina mais um semana alucinante na luta dos professores portugueses.
Teve dois episódios curiosos:
Tenho lido vários textos onde se detecta a natural desilusão com o desfecho destas reuniões. Escreve-se muito sobre a falta de coragem das pessoas presentes e realça-se, com notória e justa indignação, o comportamento dos deputados do partido socialista que exerceram funções docentes até à sua eleição para estas nobres funções.
Quer num caso quer noutro, verifica-se a falta de um mesmo princípio democrático que merece a necessária discussão e visibilidade: a ausência de limitação de mandatos no exercício de cargos públicos.
Esta limitação só se verifica na mais elevada prática da hierarquia do estado: a presidência da República. É estranho: é mesmo muito estranho que, depois de mais de 30 anos de democracia, tal aconteça.
A limitação de mandatos é um princípio crucial ao exercício democrático. Para além do imperativo refrescamento das ideias e das práticas, a rotatividade dificulta a instalação dos favoritismos que minam o processo democrático e que inibem os responsáveis de decidir do modo mais livre que se conheça. Principalmente no último mandato: a curta história do exercício presidencial mostra-o à saciedade: quando o responsável deixa de agir sem as reservas que um próximo sufrágio requer, acontecem as decisões que revelam o sentido mais corajoso no carácter dos humanos.
Se conhecemos deputados que repetem mandatos sem fim o que é que podemos esperar? Dá ideia, que se norteiam por uma espécie de disciplina que os deixará a salvo na integração das listas para o sufrágio seguinte.
Já no caso dos membros dos Conselhos Executivos a situação tem contornos nada surpreendentes se se considerar a situação pantanosa em que vamos vivendo.
Mais do que profissionalizar ou não a gestão das escolas, interessa que as comunidades possam eleger os melhores professores numa lógica de limitação de mandatos.
E digo os melhores profissionais com toda a convicção: são os que exercem superiormente as funções de gestão e direcção e são aqueles que nunca se refugiam no vergonhoso argumento (muitas vezes ao fim de pouco mais de meia dúzia de anos de exercício, pasme-se) de já não serem capazes de leccionar ou de por ali ficarem até que a reforma dê sinais de vida. Quem não sabe leccionar não pode dirigir uma escola. É até espantoso o modo como os nossos dirigentes se apropriam dos lugares.
Em todo este processo que estamos a viver, constatou-se que foram esses os primeiros a propalar a exequibilidade daquilo que depois se percebeu ser inaplicável. E decidiram assim, porque na maioria dos casos enredaram-se num sistema de pequenos favores que os obrigou, e obriga, a nortear a sua acção debaixo duma síndrome medrosa (dá ideia que se assustam com a própria sombra) que se alastra às suas comunidades (e que faz sofrer os que pugnam pela nobreza do exercício profissional). Nada que a limitação de mandatos não resolvesse; e decretada com efeitos retroactivos. Os professores e a Educação só tinham a ganhar com esse decisão.
Bem sei que este tipo de argumentação divide. Que seja. A unidade é um valor precioso, mas quando se trata de vazar o pântano, só nos resta separar as águas. Já sabemos que é assim e não vem mal nenhum ao mundo.
No caso dos Conselhos Executivos esperemos, então, pela próxima reunião.
E já se sabe: a luta continua em diversas frentes e segue dentro de momentos.
Começa a ser demasiado repetitivo desconstruir as políticas deste ministério da Educação.
A luta dos professores portugueses, que já se arrasta há quase dois anos, conhece episódios a um ritmo quase diário; e tem tipo sempre o mesmo tipo de epílogo: os professores dizem que assim não pode ser e o governo contraria com pompa e veemência: passam uns tempos e lá vem o governo dizer que afinal estava errado e que vai fazer as necessárias alterações. Mas nada de substancial acontece: as mudanças, de cosmética, acabam por revelar ainda mais injustiças e inexequibilidades. Até quando? Já se viu que os professores não desistem: e não desistem porque não podem: ninguém, com um mínimo de profissionalidade, consegue adequar o que é inaplicável. É caso para dizer: o que nasceu tão tortinho nunca mais se endireitará. E depois existe o chorrilho de brutais injustiças que o ECD criou.
Hoje conheceu-se mais um episódio. Fica a ideia que a luta segue dentro de momentos.
Ora leia.
Presidentes de escolas do Norte e Centro vão entregar à ministra manifesto sobre avaliação.
Santarém, 10 Jan (Lusa) — Os 139 presidentes de órgãos de gestão de escolas hoje reunidos em Santarém decidiram elaborar um manifesto, a entregar “pessoalmente” à ministra da Educação, contendo a sua posição sobre o modelo de avaliação dos professores.
Numa reunião em que chegou a ser “ponderada” a demissão em bloco de todos os presidentes de conselhos executivos (PCE) presentes, estes acabaram por decidir deixar essa discussão “para outra altura”, nomeadamente para o caso de a resposta ao seu manifesto não os deixar “mais tranquilos”.
Maria João Igreja, presidente do conselho executivo do Agrupamento de Escolas Alexandre Herculano, de Santarém, disse, no final da reunião, que se prolongou até cerca das 18:00, que os PCE decidiram “reforçar a posição do Conselho de Escolas, pedindo a suspensão do modelo de avaliação”.
Este pedido sustenta-se no facto de considerarem que “não é possível levar [este modelo] por diante, mesmo simplificado, porque recaiu nos conselhos executivos todo o trabalho e responsabilidade de o aplicar e porque foi retirada a componente científico-pedagógica, que retira a essência da sua função”, disse.
Os PCE hoje reunidos em Santarém, provenientes de escolas do Norte e Centro do país, decidiram marcar nova reunião para 07 de Fevereiro, no mesmo local, para abordar “outros temas”, esperando ter “mais adesão”.
“Este encontro foi muito importante para dividirmos dúvidas e dificuldades e partilharmos o que uns e outros sabem”, disse Maria João Igreja, assegurando que, mesmo não se tratando de um movimento organizado, estas reuniões devem continuar para que “cada um não fique no isolamento das suas escolas”.
Maria João Igreja disse não ser possível apontar ainda uma data para a entrega do manifesto, que terá de ser primeiro elaborado e ratificado por todos os PCE presentes na reunião.
Interrogada sobre se, perante as dificuldades apontadas, ponderam não aplicar o modelo de avaliação recentemente promulgado pelo Presidente da República, Maria João Igreja afirmou que, embora não concordem, vão avançar com o processo porque os PCE têm a “obrigação de cumprir e fazer cumprir a lei”.
“Nenhuma voz se pronunciou contra a avaliação. Todas a consideram essencial, pela credibilidade do ensino, mas não este modelo”, afirmou.
Fernando Trindade, da Escola Secundária da Mealhada, afirmou que em questão está, nomeadamente, a “exequibilidade” do processo, pelas tarefas que são incumbidas aos conselhos executivos (CE).
Como exemplo deu o prazo de 15 dias para os CE se pronunciarem sobre os objectivos pessoais traçados por cada professor.
“Numa escola com 180 ou 200 professores, é praticamente impossível analisar e negociar todos, mesmo delegando competências, o que levará a que muitos possam ser aceites tacitamente, o que é perder o rigor” do processo, afirmou.
Há um aspecto nas posições que a minha escola tem assumido nesta luta dos professores que me deixa particularmente orgulhoso por pertencer a uma instituição com aquela cultura de liderança e de responsabilidade.
Antes de ir directamente ao assunto quero sublinhar o seguinte: no seguimento da publicação da primeira versão do modelo de avaliação dos professores, todos têm bem presente o que se passou: houve uns quantos que começaram por dizer que a coisa era monstruosa e inaplicável e foram considerados uns hereges e que o não queriam era ser avaliados; como mais tarde se provou, tinham razão: não há hoje quem contrarie essa constatação; mais tarde, e após o entendimento entre o governo e os sindicatos de professores, passou-se o mesmo: existiu até uma primeira redução do modelo que deu no que deu: foi considerada, de forma quase unânime e até pelo próprio governo, como inaplicável; a situação actual é apenas uma repetição de cenas já nossas conhecidas, embora o modelo de avaliação esteja, se é que ainda era possível, mais inaplicável.
Voltemos então ao que me orgulha tanto na minha escola. Nesta instituição, todas as decisões de suspensão ou de não aplicação do modelo foram tomadas pelos avaliadores (professores titulares, obviamente) porque estudaram os assuntos e concluíram da sua completa inexequibilidade. Nada nesse sentido foi exigido aos professores avaliados. Os avaliadores assumiram a sua inteira responsabilidade, naturalmente. É claro que todos os professores da escola foram ouvidos e manifestaram a sua opinião. Mas não existiu uma única reunião geral de professores e os abaixo-assinados foram apenas sectoriais. Ou seja, os avaliados sentiram-se representados pelos responsáveis que elegeram e confiaram nas suas decisões. E como se viu, tinham razões para isso.
O Agrupamento de Escolas de Santo Onofre, em Caldas da Rainha, onde sou professor, e depois de uma aturada e detalhada análise da nova legislação em vigor, decidiu não aplicar o modelo de avaliação do desempenho de professores. Esta decisão assenta nos já sobejamente conhecidos argumentos e inscreve-se, naturalmente, no critério de completa inexequibilidade do referido modelo de avaliação que, na opinião expressa pela totalidade dos membros, encontra agora detalhes que aumentam o já incomensurável volume de situações inaplicáveis.
A não aplicação foi decidida na reunião de 7 de Janeiro de 2009, do Conselho Pedagógico do agrupamento, num sufrágio por voto secreto, que registou a unanimidade dos 17 membros presentes.
Nesta reunião, foi apresentado o relatório do Conselho Executivo onde se relata com detalhe todos os aspectos que impedem a implementação do modelo, tendo, o referido órgão e por decisão tomada na sua última reunião ordinária, optado por não aplicar o diploma que regulamenta a avaliação dos professores, tendo, no entanto, requerido a aprovação do Conselho Pedagógico.
Importa referir que a tomada de posição do Conselho Pedagógico, fundamentou-se ainda nos estudos já realizados anteriormente, com destaque para a tomada de posição no mesmo sentido por parte da Comissão de Coordenação da avaliação do desempenho e dos diversos Conselhos de Docentes e de Departamento Curricular.
Todas as decisões estão devidamente fundamentadas e delas será dado conhecimento às entidades responsáveis.
A presidente do Conselho Executivo informou o Conselho Pedagógico que vai participar na reunião de presidentes de Conselho Executivo a realizar, em Santarém, no dia 10 de Janeiro de 2009.
Li, no blogue do Paulo Guinote, um texto que subscrevo na totalidade.
O autor chama-se José Rosa Sampaio.
Ora leia.
O Monstro
A monstruosidade burocrática chamada de avaliação de professores criou nos últimos dias uma situação de braço de ferro entre o Ministério de Educação e os professores, sindicatos e outras associações de classe, difícil de sanar.
Para além do impasse ser mais do que previsível, ele é também o culminar de várias perturbações legislativas, que este organismo tem vindo sucessivamente a despejar nas escolas.
A tentativa para impor esta barafunda só seria possível neste país eternamente desgovernado pela partidocracia vigente e exposto a toda a espécie de aberrações saídas de interesses obscuros e de mentes perversas.
A meu ver este sistema de avaliação não foi copiado do Chile de Salvador Allende, como alguns fazem crer, mas inventado num gabinete da 5 de Outubro, por alguns dos milhares de burocratas do Ministério e seus satélites, que precisam de apresentar trabalho para defender o lugar que ocupam de feição vitalícia até à reforma dourada.
Pessoalmente não entendo porque é que os professores têm que ser avaliados, uma vez que são avaliadores por excelência. Como qualquer outro profissional deverão ser, isso sim, avaliados pela empresa onde trabalham: a escola ou outra instituição. Se não servem têm que procurar outra saída profissional.
Também não percebo porque é que os professores são alvo desta avaliação politiqueira, num país onde existem tantos profissionais que nunca foram avaliados nem nunca o serão, muitos deles pertencentes ao aparelho do Estado. O melhor exemplo encontra-se nos gestores e detentores de cargos políticos, peritos em auferir salários milionários e escandalosos e em oferecer milhões saídos do nosso bolso, em troca de nada.
Além disso, em Portugal os professores sempre foram avaliados, embora por um processo algo semelhante ao que agora querem impor revestido de uma enxurrada de papelada e reuniões infinitas, que não lhes permitem fazer o seu trabalho e ter uma vida familiar.
Há quem se esqueça que os professores antes de ingressarem na profissão tiraram os seus cursos e a sua profissionalização, tendo sido depois sujeitos a todo o tipo de acções de formação, para além de estarem em permanente formação e em contacto com experiências e livros que precisam de ler.
A razão que levou a eleger os professores como forma de propaganda do governo e bodes expiatórios do fracasso das reformas, encontra-se no facto de serem um grupo profissional dividido e fragilizado por divisões politiqueiras e sindicais.
Nunca foram uma corporação e dificilmente conseguirão formar um lóbi capaz de impor uma equipa ministerial que servisse o país, papel que foi deixado a universitários que nada conhecem do sector.
Compare-se os modelos de avaliação vigentes nos países onde estes existem e chegar-se-á a conclusão de que por cá apenas se pretende poupar uns cobres com uma classe, que face a outros países já é bastante mal paga.
Poupa-se nos professores e nas escolas, mas os cofres estão cheios de milhões para distribuir pelos bancos que têm afundado a economia e gastar em despesismos eleitoralistas de caça ao voto.
Os milhões que o ministério gasta em números teatrais propagandísticos do tipo Magalhães, em estudos e em contratos com empresas clientalistas, poderiam ter sido destinados a melhorar os estabelecimentos escolares e em criar condições para um ensino saudável, num país que tanto necessita de formação para poder competir economicamente.
Este governo e a sua politica criou nas escolas um péssimo ambiente de trabalho e um clima de perseguição, que fez fugir em poucos meses muitos dos professores mais capazes e experientes, que preferiram meter a reforma antecipada, pedir a exoneração ou simplesmente procurar outro meio de vida.
Entretanto, nos últimos dias a ministra parece mais preocupada em dar entrevistas a jornais e televisões, o que não lhe augura um fim feliz a ela e ao seu insólito sistema. Isto depois das cedências pontuais feitas à ultima hora.
Toda esta atmosfera de desestabilização das escolas vai fazer com que as famílias com posses continuem a pôr os filhos nas escolas privadas, que nos últimos anos se têm vindo a multiplicar pelo Algarve e pelo país, estabelecimentos onde os professores se dedicam exclusivamente a ensinar os seus alunos.
Por estranho que seja, parece que serão estas escolas que irão salvar o que resta de algum ensino de qualidade que já tivemos.
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(in Edição Especial, n.º 36., de 28.11.2008, p.18)
Mais um desenho do genial Antero que retrata de modo incisivo a falência dos argumentos da actual ministra da Educação. Como é bom que haja professores que não perdem o sentido de humor.
O Agrupamento de Escolas de Santo Onofre, em Caldas da Rainha, onde sou professor, decidiu suspender o modelo de avaliação do desempenho de professores. Esta decisão assenta nos já sobejamente conhecidos argumentos e inscreve-se, naturalmente, no critério de completa inexequibilidade do referido modelo de avaliação.
A suspensão foi decidida na reunião de 5 de Novembro de 2008, do Conselho Pedagógico do agrupamento, num sufrágio por voto secreto que registou a unanimidade dos membros presentes.
Nesta reunião, foi apresentado o relatório do Conselho Executivo onde se relata com detalhe todos os aspectos que impedem a implementação do modelo, tendo, o referido órgão e por decisão tomada na sua última reunião ordinária, considerado como suspenso o diploma que regulamenta a avaliação dos professores, tendo, no entanto, requerido a aprovação do Conselho Pedagógico.
Importa referir que a tomada de posição do Conselho Pedagógico, fundamentou-se ainda nos estudos já realizados anteriormente, com destaque para a tomada de posição no mesmo sentido por parte da Comissão de Coordenação da avaliação do desempenho e dos diversos Conselhos de Docentes e de Departamento Curricular.
Todas as decisões estão devidamente fundamentadas e delas será dado conhecimento às entidades responsáveis.
E é assim: este é, definitivamente, um dia de muitas alegrias.