sábado, 4 de setembro de 2010

ar livre

 




 


 


 


Ar livre, que não respiro! 
Ou são pela asfixia? 
Miséria de cobardia 
Que não arromba a janela 
Da sala onde a fantasia 
Estiola e fica amarela! 

Ar livre, digo-vos eu! 
Ou estamos nalgum museu 
De manequins de cartão? 
Antes o caos que a morte… 
De par em par, pois então?! 

Ar livre! Correntes de ar 
Por toda a casa empestada! 
(Vendavais na terra inteira, 
A própria dor arejada, 
-E nós nesta borralheira 
De estufa calafetada!) 

Ar livre! Que ninguém canta 
Com a corda na garganta, 
Tolhido da inspiração! 
Ar livre como se tem 
Fora do ventre da mãe, 
Desligado do cordão! 

Ar livre, sem restrições! 
Ou há pulmões 
Ou não há! 
Fechem as outras riquezas, 
Mas tenham fartas as mesas 
Do ar que a vida nos dá! 

Miguel Torga.


 


Contributo de Manuela Silveira.

4 comentários:

  1. Pois então. Precisamos de respirar. Façamos o relatório que o depois há-de vir.

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  2. Um professor resistente6 de dezembro de 2009 às 15:56

    Lá como cá?

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  3. Belo poema. A liberdade de expressão é um bem muito precioso. Só quando o colocam em causa é que sentimos a falta de ar livre.

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