quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Estarão os jovens franceses mais críticos e impacientes com a abstinência dos telemóveis?


Título: Estarão os jovens franceses mais críticos e impacientes com a abstinência dos telemóveis?

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Estarão os jovens franceses mais críticos e impacientes com a abstinência dos telemóveis? Estarão, certamente, mais atentos ao que os rodeia e com o sentido crítico mais apurado para a queda da Escola Pública e para o aumento brutal das desigualdades educativas. 

Por outro lado, e havendo na Europa muitos problemas comuns às crianças e aos jovens, notei os primeiros sinais de adicção tecnológica grave nas aulas por volta de 2012 ou 2013. Como não podiam fazer as aulas com telemóvel e tinham que se distanciar fisicamente uma hora ou duas do aparelho, era impressionante como se intranquilizavam (confessavam-no) ou o escondiam na roupa interior. Tantas vezes o telemóvel caía durante a aula ou eram constantes os pedidos para ir ao balneário. Claro que percebia, muitas vezes, os conteúdos. Bastava ouvir. Jogos, na maioria das vezes, mas, desde 2014 ou 2015, havia também viciação em redes sociais ou mesmo em pornografia online. Ou seja, é natural que a proibição vigente crie reacções neste estado de abstinência. Passou mais uma década e os viciados viciaram-se ainda mais cedo. As consequências de duas décadas de irresponsabilidade e de intelectualismo vintage associado aos negócios dos telemóveis não passarão de uma penada.

Em Portugal, estranhamente, há outras prioridades para o mundo mediático

 


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A falta estrutural de professores também se deve à OCDE que, agora, elogia a avaliação dos professores nos países nórdicos


Título: A falta estrutural de professores também se deve à OCDE que, agora, elogia a avaliação dos professores nos países nórdicos

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Ainda há dias escrevi que a queda no PISA na generalidade das democracias ocidentais também se deve às políticas aconselhadas pela própria organização, a OCDE, na avaliação dos professores e na gestão das escolas.

E, nem de propósito, o português Paulo Santiago, da OCDE, dá uma entrevista ao Público em que não consegue ser crítico da própria organização nem do que levou à falta estrutural de professores. Aliás, Portugal foi tragicamente um bom aluno das prescrições da OCDE e até foi para além delas nomeadamente com o desastroso modelo autocrático de mega-agrupamentos de escolas e com a precarização dos professores.

Quando pedem a Paulo Santiago bons exemplos na avaliação de professores (não gosto do substantivo docente e nunca o uso), refugia-se nos nórdicos que, como sublinham Acemoglu e Robinson em Porque falham as nações, nunca aplicaram a receita neoliberal do todos contra todos da kafkiana meritocracia para as massas. E planeiam a longo prazo. Têm a coragem de declarar, nestes tempos tão incertos, que trabalham numa visão para 2050.

Paulo Santiago diz que “não há um sistema perfeito. Aqueles países que estão mais avançados na avaliação, tipicamente os países nórdicos na Europa, são países em que a qualidade dos docentes é reconhecida, onde o seu profissionalismo é muito reconhecido, de maneira que a maior parte das decisões é posta nas mãos dos docentes. (...) as suas avaliações são fundamentalmente formativas. Já fazem parte da cultura.”

Pois bem. O modelo de avaliação de professores vigente em Portugal há, pasme-se, vinte anos — e que os sucessivos governos, também o atual, prometeram eliminar —, não é digno de um Estado de Direito. Este sistema ajuda a gerar os profissionais mais insatisfeitos da OCDE face à indisciplina na sala de aula, às injustiças na avaliação e à burocracia. Caracteriza-se por mecanismos quantitativos até às décimas, com quotas e vagas, que geram climas de parcialidade, arbitrariedade, brutal injustiça e venalidade.

O português Paulo Santiago não assume as responsabilidades da OCDE. Aliás, não menciona os detalhes da avaliação de professores em Portugal nem o lugar cimeiro destes profissionais na qualidade pedagógica e é inconclusivo e ligeiro ao afirmar que “os professores têm de reconhecer o valor da avaliação docente”.

Nota: hoje, dia 5 de Outubro, é o Dia Mundial do Professor na versão criada pela UNESCO em 1994. Este é também o post que faço habitualmente para o blogue nesse dia.

domingo, 4 de outubro de 2026

Um debate importante: "“Pluralismo” ou “atentado”: é aceitável benzer uma escola pública numa República?"

Antes do mais, só a inauguração da escola foi um investimento, abençoado, é certo, de 178 mil euros.


"Caso da inauguração da Escola Secundária de Cascais reacendeu o debate sobre a forma como o Estado assegura a separação da religião, sobretudo da católica."

sábado, 3 de outubro de 2026

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

“Políticos longe das salas de aula”


Título: “Políticos longe das salas de aula”

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A notícia diz que “Montenegro vai regressar à sua escola para falar sobre integridade e anticorrupção”,  e acrescenta que “Montenegro, a ministra da Justiça e mais de 200 voluntários chegam a 250 escolas esta semana para a maior iniciativa de educação anticorrupção já feita em Portugal”.

E, a propósito, lembrei-me da desastrosa aula do ministro da Educação a alunos do secundário em que disse que os professores perdiam a aura com as idas a manifestações.

E, ainda a propósito, recordei-me do post que fiz em 12 de Abril de 2026 com o título “Confiar nos professores, 15 alunos por turma e pré-escolar até aos 7 anos de idade, foi o óbvio sublinhado pela ministra da Educação da Estónia.”

O início do post diz assim: “O sistema educativo da Estónia caiu nas boas graças da onda mediática por causa dos resultados PISA e a sua ministra da Educação esteve por cá. Li duas das suas entrevistas, ao Expresso e ao Público. No Expresso, em 10.04.2026, destaca-se que “as crianças não devem começar a escola formal antes dos 7 anos" e "que todas as decisões pedagógicas devem ser tomadas pelo professor". No Público, de 09.04.2026, destaca-se a "receita para sucesso da Estónia: jardins-de-infância até aos sete anos e “políticos longe das salas de aula”.”

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Breve história do digital na educação




Título: Breve história do digital na educação

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As tecnologias estão na educação desde o lápis de carvão. Em síntese, a pergunta a fazer é equivalente à das guitarras: não me digas a marca da tua guitarra, diz-me antes o que fazes com ela.

Na verdade, a educação, que vai muito para além da escola, é a arte do equilíbrio e da sensatez; mas não só. Exige humildade e a aplicação diária do mito de Sísifo.

As chamadas novas tecnologias estão na educação em duas redes: a de recursos administrativos, mais no universo escolar, e a de recursos educativos, na sociedade e no universo escolar.

A primeira é muito mais exigente na construção de software e muito menos lucrativa para as gigantes tecnológicas. Por isso, o caos no Ocidente na gestão de dados da educação. O investimento em software não tem retorno nos curto e médio prazos, apesar de ser crucial para a consolidação da democracia. Mas os tecnocratas desprezam esse objectivo. Aliás, foge-se a ser professor também por causa desse inferno. Não há, em resumo, algo que se assemelhe à rede multibanco, que inclui os homebanking, ou até, no nosso caso, ao portal das finanças.

A rede de recursos educativos é muito lucrativa para as gigantes tecnológicas; mais do que os drones, o comércio electrónico, o 5G ou a tele-medicina. Recorde-se as mais conhecidas componentes do negócio: um smartphone por aluno e por professor, redes sociais através de apps com software elementar e milhões de portáteis e de tabletes nas escolas para alimentar a indústria das escolas digitais e antecipar o ensino à distância. Os olhos dos neoliberais até brilham (como sempre, os nórdicos metem pedras na engrenagem).

Claro que o "reconhecimento de padrões" - mais divulgado como Inteligência Artificial (IA) - exige um outro debate. Estamos numa fase em que o pêndulo da condição humana oscila entre o pânico e a apreensão, porque as crianças e jovens das democracias ocidentais estão entregues à selva digital e com falta de professores. Mas sempre se alertou, há mais de uma década, para duas graves consequências do digital na rede de recursos educativos: conteúdos pornográficos e redes sociais. No segundo caso, foram usadas, e para além do ciberbullying, por organizações da extrema-direita com conteúdos xenófobos, racistas, misóginos e violentos e que fidelizaram eleitores logo que os jovens chegaram aos 18 anos.

E se qualquer das crises, selva digital e falta de professores, compromete o crescimento como pessoas livres respeitadas nos direitos fundamentais, a simultaneidade acentua preocupações com quatro dimensões bem identificadas: internet, recursos digitais para o ensino, "Reconhecimento de Padrões" e desinvestimento na Educação.

Por outro lado, já se percebeu que o que aí vem informatizará tudo o que for para informatizar, automatizará tudo o que for para automatizar e que as aplicações digitais usadas para controle e vigilância serão usadas para controle e vigilância. É o nível 4 da transição digital. O nível 5, que será longo e incerto, inclui a inteligência artificial e a robotização. Por exemplo, Luc Julia, um dos criadores da Siri da Apple, diz que não tem a certeza que queira falar com o seu frigorífico. No universo escolar, também não se terá a certeza que se queira falar com um robô como se fosse um professor que ensina e ajuda a formar a personalidade.

Como se percebe, os nórdicos estão a ser sensatos com o digital na educação. Até já regressaram fundamentadamente ao papel. Ou seja, voltam a passar ao lado de uma vaga neoliberal; a vigente; a segunda. Como referiram os prémios Nobel da economia em 2024, Acemoglu e Robinson, em "Porque falham as nações", os nórdicos passaram ao lado da primeira vaga neoliberal começada por Thatcher e Reagan e que Clinton, Blair, e Schröder continuaram.

No digital, preocupam-se com as crianças e jovens e têm há muito uma educação a tempo inteiro que mitiga a tragédia da escola a tempo inteiro. Nós estamos perdidos e completamente condicionados pelos interesses da indústria das gigantes tecnológicas que se alastrou às políticas educativas, às leis laborais, ao inverno demográfico, aos fluxos migratórios e, repita-se, à proliferação de movimentos racistas, misóginos, xenófobos e violentos.

Nota: este texto é também uma síntese de textos anteriores, aonde fui buscar algumas passagens. Com a mudança do blogue da SAPO para o blogger, a exportação ficou com alguns problemas de formatação. Vou corrigindo e republicando os textos.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Luc Julia diz que não tem a certeza que queira falar com o seu frigorífico


É muito interessante escutar um dos criadores da Siri ("a Siri é um assistente virtual da Apple que ajuda a realizar tarefas com comandos de voz: fazer chamadas, enviar mensagens, definir lembretes, procurar informações na internet e controlar dispositivos domésticos inteligentes". Para interagir com a Siri, pode-se, portanto, falar ou digitar os comandos. A Siri foi criada pela SRI International e adquirida pela Apple em 2010): um dos criadores da Siri, Luc Julia, e a exemplo de outros criadores deste universo que se afastam com mais ou menos humor, diz que não tem a certeza que queira falar com o seu frigorífico e afastou-se. Além disso, os dissidentes são muito críticos dos algoritmos que varrem instantaneamente toda a internet e produzem (IA-Generativa) informação sem distinguir o que é verdadeiro ou falso. Agrava-se porque o algoritmo privilegia, na exibição aos utilizadores de todas as idades, os conteúdos que geram ódio e irritação, e que viciam, e que têm beneficiado os políticos que banalizam o mal, as mentiras constantes e a violência. No universo escolar, também é muito questionável que se queira falar com um robô como se fosse um professor que ensina e ajuda a formar a personalidade.

As redes sociais, tão caras à demagogia estridente, já o estão a fazer há uma década, mas o intelectualismo vintage estava tão inebriado com as tecnologia que nada via.