Título: A falta estrutural de professores também se deve à OCDE que, agora, elogia a avaliação dos professores nos países nórdicos
Texto:
Ainda há dias escrevi que a queda no PISA na generalidade das democracias ocidentais também se deve às políticas aconselhadas pela própria organização, a OCDE, na avaliação dos professores e na gestão das escolas.
E, nem de propósito, o português Paulo Santiago, da OCDE, dá uma entrevista ao Público em que não consegue ser crítico da própria organização nem do que levou à falta estrutural de professores. Aliás, Portugal foi tragicamente um bom aluno das prescrições da OCDE e até foi para além delas nomeadamente com o desastroso modelo autocrático de mega-agrupamentos de escolas e com a precarização dos professores.
Quando pedem a Paulo Santiago bons exemplos na avaliação de professores (não gosto do substantivo docente e nunca o uso), refugia-se nos nórdicos que, como sublinham Acemoglu e Robinson em Porque falham as nações, nunca aplicaram a receita neoliberal do todos contra todos da kafkiana meritocracia para as massas. E planeiam a longo prazo. Têm a coragem de declarar, nestes tempos tão incertos, que trabalham numa visão para 2050.
Paulo Santiago diz que “não há um sistema perfeito. Aqueles países que estão mais avançados na avaliação, tipicamente os países nórdicos na Europa, são países em que a qualidade dos docentes é reconhecida, onde o seu profissionalismo é muito reconhecido, de maneira que a maior parte das decisões é posta nas mãos dos docentes. (...) as suas avaliações são fundamentalmente formativas. Já fazem parte da cultura.”
Pois bem. O modelo de avaliação de professores vigente em Portugal há, pasme-se, vinte anos — que os sucessivos governos, também o atual, prometeram eliminar —, é indigno de um Estado de Direito. Este sistema ajuda a gerar os profissionais mais insatisfeitos da OCDE face à indisciplina na sala de aula, às injustiças na avaliação e à burocracia. Caracteriza-se por mecanismos quantitativos até às décimas, com quotas e vagas, que geram climas de parcialidade, arbitrariedade, brutal injustiça e venalidade.
O português Paulo Santiago não assume as responsabilidades da OCDE. Aliás, não menciona os detalhes da avaliação de professores em Portugal nem o lugar cimeiro destes profissionais na qualidade pedagógica e é inconclusivo e ligeiro ao afirmar que “os professores têm de reconhecer o valor da avaliação docente”.
Nota: hoje, dia 5 de Outubro, é o Dia Mundial do Professor na versão criada pela UNESCO em 1994. Este é também o post que faço habitualmente para o blogue nesse dia.
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