

Luís Afonso
Parece que o PR vetará, diz o Expresso, a lei de financiamento dos partidos. Percebe-se. Os aparelhos partidários não andam com boas contas e é sensato o veto à ausência de limite para os donativos. Mas as "más contas" que se alastraram pelo país incluem a sobreposição dos interesses dos aparelhos e isso é demasiado visível. Como alguém dizia num debate na RTP3, "a justiça e a lei são desprezadas, mesmo em casos de dolo cometidos por personagens que sirvam os aparelhos".
"nome masculino; 1. atitude conscientemente tomada no sentido de se vir a cometer um ato criminoso ou uma infração; 2. qualquer sugestão ou artifício com a intenção ou consciência de introduzir ou manter em erro o autor da declaração; 3. má-fé; 4. fraude; embuste; 5. astúcia; 6. engano; traição; Do grego dólos, «astúcia», pelo latim dolu-, «astúcia; fraude; ardil»."
Concordo com Sobrinho Simões:
"(...)apostaria(...)na extinção dos jotas e na desprofissionalização dos políticos(...)".
A partidocracia capturou o Estado central mas também as autarquias. Penso que o mais nefasto a nível local é a acumulação de duas ausências nos jotas carreiristas: profissão fora da política e escritos. Como alguém disse, já nem se trata de pedir uns papers "científicos". A exigência mínima são uns escritos com objectivos que possam avaliar as acções para lá das imersões viciadas nos corredores e nos jogos de bastidores.
Revista do Expresso. 18 de Abril de 2015. Página 105.
A notícia refere-se aos serviços centrais e é "natural" que assim seja. Mas se percorrermos o país, a partidocracia local prevalece com as cores mais variadas. Os partidos são essenciais à democracia, só que a partidocracia é provocada pelo caderno de encargos partidário que atingiu a totalidade das decisões supostamente concursais ou de colégios eleitorais. Está instalado um sistema que gera medo. A principal missão de um próximo Governo - para além da pobreza, do crescimento económico, do emprego, dos salários e dos impostos - é restaurar a confiança e a democracia nos serviços públicos.
(Primeira edição em 9 de Setembro de 2013)
Quem disser que os comités centrais dos partidos do memorando da troika têm reuniões frequentes desde a assinatura (ou até antes disso) para tratarem de "altos" assuntos do Estado, não poderá ser classificado como gerador de uma teoria da conspiração. É natural que essas reuniões aconteçam, é natural que sejam secretas e é também natural que alguns consensos se estabeleçam aí. É natural também que as bancadas parlamentares respectivas nem sempre saibam do acordado, uma vez que o jogo de oposição interna está sempre ao rubro.
O silêncio do PS em relação ao cheque-ensino (existiu uma voz discordante, talvez mais distraída ou opositora a sei lá o quê) pode ter uma qualquer relação com isso. Quem sabe se na última crise de Governo o triunvirato não terá acordado "deixar cair" a escola pública, mas em segredo. Não seria nada a que o PS não estivesse habituado.
Ou seja: a mosca que picou o idoso PS estava contaminada pela "música" ultraliberal, tal como o Quino imaginou, e o picado só dará conta quando tiver necessidade de voltar a soprar. É caso para dizermos que nada se aprendeu com a governação de Sócrates e que o país, a liberdade e a democracia voltam a perder muito com isso. Mas o melhor é ver o desenho.
Sócrates diz que é o "chefe democrático que a direita sempre quis" e vem confirmar a tese dos professores portugueses que o consideram um ultraliberal de facto. Ficam desacreditadas de vez as acusações dos socialistas que apontavam o dedo aos professores. É o próprio a confessar-se, convenhamos. É certo que Sócrates foi apoiado pelo socialismo científico de Lurdes Rodrigues e pelo inferno burocrático de Lemos & Pedreira, mas isso só acentua o registo tragicómico da confissão.
Não sei se Sócrates fez psicanálise em Paris, mas os professores de ciência política lá lhe devem ter explicado o que andou a fazer no Governo e o homem divulga-o para gáudio inconfessado de muitos socialistas que sonham com salões e benesses ilimitadas. Se tivessem lido Proust, sabiam que é ténue a fronteira entre Méséglise e Guermantes e que a consciência não está no mercado; pelo menos que se saiba.
O mais grave é que os governos ultraliberais de Sócrates permitiram o sonho singapuriano e totalitário dos aprendizes Passos e Relvas acolitados numa troika que sorriu com a coisa e nessa direita dos interesses que nos afunda com corrupção.
Com a forma como nos podemos informar na actualidade, a guerra colonial não duraria três meses, foi mais ou menos isto que disse Manuel Alegre na sua entrevista à revista que acompanha o Público de Domingo. É realmente impressionante a forma como a informação e a comunicação evoluíram nas últimas décadas.
A mesma revista insere um crónica interessante de Vítor Belanciano que colei no post. Destaquei o lead porque é mesmo muito pertinente.
Se olharmos para a actualidade, do sistema escolar também, e pensarmos numa forma responsável de intervenção que seja sistemática (não efémera, portanto), que não se insira nos poderes formais que estão em queda de credibilidade e que asfixiam as liberdades de pensamento e de acção nem na fundação de organizações que acabem na mesma letargia (mesmo que atinjam um ou outro objectivo fundamental), as alternativas não são fáceis. Como o cronista refere, os movimentos das redes sociais têm sido decisivos mas cada vez se sente mais que é necessário "(...)ir para além do protesto emocional, ver as razões profundas dos problemas e procurar soluções de fundo.(...)".