Esperei cinco anos, mas valeu a pena
É comum apontar-se a Finlândia como detentora de um dos melhores sistemas escolares do mundo (e seja lá o que isso signifique) e sucedem-se as análises e os estudos comparados.
Desta vez é o Ibertic que afirma que na "Finlandia: En el mejor sistema educacional del mundo está prohibido seleccionar a los alumnos" e deve ter sido por isso que o entusiasmo de Sócrates e Lurdes Rodrigues esmoreceu muito quando visitaram o país do mesmo modo que a actual maioria perdeu a obsessão com o privado quando se conheceram os desastrosos resultados suecos em tudo o que era teste internacional (e seja lá o que isso signifique).
Mas o post do Ibertic não refere apenas a proibição de seleccionar. Diz que os professores são muito prestigiados na Finlândia, que as crianças só entram na escola aos 7 anos de idade por causa da maturidade, que as notas dos alunos só são publicitadas a partir dos 11, 12 anos e que as turmas não têm mais de 20 alunos. "São uns líricos, esses finlandeses", dirão as nossas resmas de descomplexados competitivos que olham para a vida como uma pista de obstáculos para os filhos dos outros e que se convenceram que na selva não há cooperação.
Parece que o Governo se prepara para adiar a regulamentação do cheque-ensino. Esta alínea do ultraliberal guião da reforma do Estado é apenas um detalhe de um conjunto comprovadamente nefasto de políticas educativas que foram definitivamente abaladas com os resultados dos testes internacionais do PISA (Programme for International Student Assessment, do TIMMS (Trends in International Mathematics and Science Study) e do PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study). Até a Suécia, farol das políticas de privatização da gestão escolar, está já a discutir a nacionalização das escolas e o abandono do precipitado programa de "liberdade de escolha da escola" iniciado em 1992; e não é o único país que chega a conclusões semelhantes, uma vez que este tipo de políticas acentua a segregação social associada à quebra de resultados escolares da maioria dos alunos.
Nada disto é surpresa para quem se dedica a estudar de forma "desinteressada" a importância da escola pública. Em Portugal há dois grupos ligados à privatização da gestão das escolas: os privados que se financiam em propinas e que não se revêem no referido guião da reforma do Estado e os pseudo-privados (que parecem "odiar" a escola pública) que vivem integralmente do orçamento do Estado, que implementam nas suas instituições regras não transparentes de contratação de profissionais associadas a regimes de precariedade laboral e que praticam a privatização de lucros. É este segundo domínio que Portugal precisa de corrigir e que uma parte da maioria que apoia o Governo pretende manter; o adiamento é puro oportunismo eleitoral.
Ouvimos, desde a viragem do milénio, o discurso anti-escola pública e anti-professor:
a escola pública entrou em ruptura; os alunos aprendem pouco; as escolas públicas são más ou pioram a cada ano; estamos a ficar para trás nos testes internacionais; as escolas públicas não contribuem para o crescimento económico e começam a colocar em causa a nação; as escolas públicas já não vão lá com meias-medidas; as escolas públicas devem ser fechadas em larga escola e os professores despedidos. Mas mais: o discurso que acabei de escrever foi defendido pela direita e pela esquerda, por socialistas, sociais-democratas e populares de direita, foi defendido pelas "elites" que preenchiam os média mainstream e por aí fora. Quem se atrevesse a defender o contrário era acusado de defender o status quo.
O parágrafo que está em itálico é subscrito por Diane Ravitch (com adapação à sua realidade, obviamente), ex-secretária de Estado na administração do Bush mais crescido, bem à direita, portanto, e encontrei-o neste post do Paulo Guinote (onde fui buscar a imagem deste post) que anda à volta da obra da citada ex-governante, "Reign of Error: The Hoax of the Privatization Movement and the Danger to America's Public Schools" (qualquer coisa como: o reinado do erro: A farsa do movimento de desestatização e o perigo para as escolas públicas da América).
A direita americana chegou a este ponto depois de tanto disparate com a privatização de escolas, com o cheque-ensino, com os modelos hiperburocráticos de avaliação de professores e por aí fora. Por cá, o tal de guião da reforma do Estado faria corar de vergonha Diane Ravitch.
Espera-se, em 2014, o assumir de culpas e, já agora, a tal de prestação de contas por parte de socialistas, sociais-democratas e populares da direita (radical).
No caso da escola pública e dos seus professores, até se aceita a crítica por alguns abusos. Sim, houve professores que abusaram da redução ou ausência da componente lectiva mas foi sempre debaixo do chapéu do arco da governação (vulgo, aparelhismo partidário).
Por outro lado, as contas das escolas dão lições a qualquer outra área do público ou do privado. E mais: os resultados que o mainstream tanto acusou conforme detalhei no parágrafo que destaquei, foram desmentidos pelos estudos internacionais do PISA (Programme for International Student Assessment, do TIMMS (Trends in International Mathematics and Science Study) e do PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study). Custa ver como o arco da governação continua a omitir estas evidências e a não prestar contas. Mais ainda por parte dos socialistas que no tempo de Lurdes Rodrigues não se cansavam de dizer: mas algo tem que mudar. Sim, tinham que mudar as benesses ilimitadas que não se cansavam de usar, e que continuam a proteger, e que não têm qualquer relação com a defesa da escola pública.
Ouvimos, vezes sem conta e durante mais de uma década, que os resultados não justificavam o investimento na Educação acima dos 6% do PIB. É essa retórica que é definitivamente abalada pelos resultados PISA, como já foi noutros testes internacionais, e como será ainda mais quando se conhecer a percentagem do PIB (já deve estar perto dos 3%) que se investe em Educação associada a outros indicadores: os números do abandono escolar que devem incluir os adultos sem a escolaridade obrigatória, o número de alunos por turma (é chocante o que se passa com o ensino especial) ou o número de professores.
A retórica referida tinha como farol a Suécia e advogava a "liberdade de escolha" da escola, o cheque-ensino, a privatização das escolas e o mercado da Educação. Mas foi mais longe e classificou com inimigos da liberdade os que se opunham a essas ideias em nome da igualdade de oportunidades que é tão decisiva para o exercício da liberdade e para o aumento da classe média como factor determinante da democracia. Foi tudo isso que os testes PISA conseguiram fazer. E, ironia das ironias, era exactamente nos resultados deste tipo de testes que o "ódio" à escola pública se alimentava.
Portugal trilhou durante duas décadas um caminho árduo com resultados a todos os níveis e internacionalmente elogiados. Estamos a correr um sério risco com o desmantelamento da escola pública. O que mais cansa ler é o argumentário cada vez mais desesperado dos que se revêem no guião apresentado pelo governante irrevogável e que continuam a considerar que quem se dedica à escola pública é falho de ambição e de inovação e incapaz de colocar a cultura organizacional das escolas públicas na primeira linha. A interrogação, recheada de perplexidade e de tristeza com tamanha ingratidão, é simples: o que seria do nosso sistema escolar se a escola pública fosse defendida e elogiada?
A profissão de professor em Portugal é a mais devassada do mundo conhecido. Há anos a fio que é assim. Invariavelmente, os média abrem os serviços noticiosos com ignomínias à volta da profissionalidade dos professores. Há mesmo quem se interrogue se este "ódio" à escola pública não representa um qualquer medo com a democracia.
Hoje volta a ser assim com a prova de ingresso para os professores contratados. Tenho estado fora da rede e este regresso deixa-me profundamente triste com tudo o que leio. O Governo, pela mão do ministro da Educação, inventou uma solução injusta que teve um desfecho previsível. Esta carta de um professor contratado publicada pelo Paulo Guinote é arrepiante.
Já não resta qualquer dúvida: a incompetência técnica e política de quem dirige o MEC é comprovada. Escrevi-o desde o início. Muita da delapidação vigente da escola pública foi para além da troika e suportou-se num fanatismo ideológico que endeusou resultados com os do PISA 2012 que acabaram por ter um efeito boomerang.
Nuno Crato, na análise aos recentes resultados PISA, interpreta de um modo que permite concluir: mesmo sem a troika, Crato optaria pelos cortes curriculares, pelo aumento do número de alunos por turma e pela terraplenagem no esforço do sistema escolar nas últimas duas décadas. Refugia-se nos sete ministros do MEC na última década como se isso não advogasse que os progressos da nossa sociedade e da escola pública verificaram-se apesar disso. Crato não é humilde e não reconhece os erros; mas isso já se sabia desde o início.
A notícia do Expresso termina com uma afirmação que brada aos céus porque somos incapazes de nomear uma medida sua que tenha valorizado os professores.
A actual ministra da Educação afirmou no parlamento que o ME não conhece a amostra para o PISA2009. A menos que o Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) esteja em roda livre dentro da traquitana, começam a surgir dados que indicam uma de duas: ou em 2006 e 2003 os testes foram realizados sem qualquer rigor (a exemplos das provas de aferição que os miúdos levavam pouco a sério) ou então a selecção de alunos em 2009 teve critérios de boa fotografia.
Ora leia este post do Reitor.
Estes governos do PS conseguiram degradar de tal modo a imagem do estado que são poucos os que acreditam que não manipulam os dados para apresentarem resultados que encham os olhos dos votozinhos. O ensino de adultos foi uma área em que isso me impressionou muito. A boa ideia da certificação e da validação de competências (transformada em novas oportunidades) adquiridas no mundo profissional foi desvirtuada pela propaganda e conseguiu manchar todos os envolvidos. O desplante atingiu o cúmulo quando o chefe do governo discursou em cerimónias inquisidoras dos críticos com a plateia recheada de pessoas abençoadas (e muitas de boa fé, acredito nisso) pelo processo; foi um vale tudo eufórico que repugnou.
Com o PISA2009 acontece o mesmo. Começam a surgir vozes e mais vozes a duvidarem dos critérios da amostra. Os representantes do governo bem podem advogar com o segredo de estado. O problema é que o sentido de estado foi ferido de morte e vai levar a tempo a repô-lo.
"(...) A ministra da Educação refere que «Portugal criou uma verdadeira cultura de avaliação, tanto dos alunos como dos professores»(...).
Pode continuar a ler aqui.
Fiquei a trabalhar até tarde e um dos canais de cabo passava um debate entre Correia de Campos e Paulo Rangel. Inevitavelmente, o PISA2009 foi convocado.
Paulo Rangel começou por apresentar argumentos que provocaram incómodo em Correia de Campos. Logo que pegou na palavra, o eufórico ex-ministro da saúde advogou com o novo modelo de gestão para justificar o PISA2009. E para espanto, ou talvez não, Paulo Rangel anuiu. Ou seja: já nem se trata do euro-deputado do PSD não saber que o novo modelo se iniciou depois dos alunos terem realizados os testes PISA2009 (o que, quando muito, só abona em favor do anterior), o que está em causa foi a anuência imediata e com uma sentença: é bom que se sublinhe que os governos de Sócrates governaram a Educação com a agenda do PSD.
As pessoas que se interessam por estes assuntos devem saber que estes partidos lidam mal com a ideia de que o poder democrático da escola é, para além de tudo, uma construção da sociedade do futuro. O subconsciente do actual PS partilha dos valores que têm reservas em relação à democracia, que povoam uma boa parte da nossa direita e que nos arrastaram para o estado de falência em que nos encontramos.
Já se sabia que uma parte significativa do PSD e do CDS navegava nessas águas, mas o que me surpreendeu foi a existência de tantos militantes e simpatizantes do PS que não acreditam com convicção na democracia. E não estou a tirar conclusões apenas por causa da agenda da Educação. A cooperação estratégica tem um sentido bastante mais lato.
Dois ex-ministros da Educação, Marçal Grilo e David Justino, comentaram ontem num canal de cabo os entusiasmantes resultados PISA2009. Salientaram o esforço dos alunos (cada vez mais competentes) e dos professores. Elevaram a importância decisiva da ambição escolar da sociedade e do início do processo de autonomia das escolas (assumidamente interrompido por este governo PS, é bom que se sublinhe).
Evidenciaram os anos de nascimento dos alunos (1994 e 1995), período em que se iniciou um alargamento inédito do pré-escolar e dos apoios sociais. Realçaram a importância da rede de bibliotecas escolares (valências que as escolas do presente começaram a desprezar por desconsideraram a sua prioridade; assistiu-se, nos últimos anos, ao seguinte: reforço do inferno burocrático na gestão das bibliotecas e fecho por ausência de alunos, por ausência de vontade política interna e externa ou por ausência de condições operacionais) e a importância decisiva dos hábitos de leitura.
Terminaram com um apelo: deixem trabalhar os professores que se revêm nas salas de aula.
Nem o mais leve toque nas políticas em curso, obviamente. Apenas David Justino titubeou um apoio tímido à reorganização da rede escolar. E falaram durante quase uma hora.
O chefe do governo é obstinado. E já se sabe: quando uma pessoa com essas características se desorienta, torna-se nocivo e vai-se afundando nos assuntos onde quer encontrar uma tábua de salvação. É tal o estado do sistema escolar, que fico com a ideia que os resultados PISA2009 deixaram quem se preocupa mesmo com o sistema escolar apreensivo: afinal até nem estávamos assim tão mal antes dos governos deste PS e o futuro começa a perder qualquer sorriso.
O estudo acompanhado funciona desde 1998 e tem-se dedicado, em grande parte, à matemática e à língua portuguesa. Está, seguramente, centrado nos trabalhos de casa e no estudo das várias disciplinas. São muitos os que advogaram a sua inutilidade e, por isso, vai acabar. Foi despachado por este governo, digamos assim.
Mas para o primeiro-ministro vai recomeçar agora. Com ele; com a sua chegada. Para este governo será obrigatório que esta área curricular não disciplinar seja dedicada à matemática. No entanto, as escolas podem optar por dedicá-la ao português ou às ciências. É um obrigatório não obrigatório. Não internem esta gente, não.
Sócrates quer alunos dedicados à Matemática no estudo acompanhado
"O primeiro-ministro anunciou hoje que o horário semanal atribuído ao estudo acompanhado será “obrigatoriamente alocado ao estudo da Matemática” no ensino básico. No entanto, as escolas podem optar por dedicar esse tempo ao estudo do Português e das Ciências. Esta foi uma das medidas avançadas hoje por José Sócrates no arranque do debate quinzenal no Parlamento.(...)"
Com o actual primeiro-ministro nunca podemos dizer que tínhamos visto de tudo.
Se há processo que falhou redondamente e cujos efeitos nefastos são reconhecidos por quase todas as pessoas, é o da avaliação de professores promovido pelos governos deste PS. Mais ainda se o associarmos ao Estatuto da Carreira Docente.
Os resultados PISA2009 já me mereceram alguns posts. Espero terminar com este. A hierarquia dos temas foi propositada.
As causas que originaram a melhoria dos resultados dos nossos alunos podem ser várias, mas excluem, com toda a segurança, um processo de avaliação de professores que esteve para se iniciar em meados de 2008 (a doze meses, no máximo, das recolhas PISA), e que foi interrompido para recomeçar de forma novamente desastrosa em Setembro de 2010. O que se passou entre 2008 e 2010 foi uma farsa reconhecida e um inferno burocrático que retirou serenidade aos professores.
Ouvir um chefe do governo, para quem os professores estiveram 30 anos sem avaliação, afirmar que os resultados de alunos de 15 anos, em 2009, se devem a algo que não começou em 2008 por inexequibilidade e inaplicabilidade, leva-me a concordar com uma outra coisa que disse o líder deste PS: os professores são uns heróis. O património que ergueram nas últimas duas décadas foi muito mais a bem da nação do aquele que envolveu José Sócrates e a oligarquia política que nos levou à falência. Os números provam-no, mesmo para quem for céptico com as estatísticas.
O primeiro-ministro não se cansa: elogia as aulas de substituição a propósito dos resultados do PISA2009.
Confrontado com a constatação de uma jornalista, a propósito do inglês e da informática no primeiro ciclo, sentencia: "(...)mas os alunos com 15 anos não beneficiaram dessas medidas. Isso é verdade, [outros] irão beneficiar(...)".
Para não perder o pé, o chefe do governo passa para a política mediática e defende-se com a incompreensão do seus adversários na aplicação de medidas.
Faz revisionismo histórico e não conhece a realidade. Nunca um governo teve tanto apoio nos média para aplicar "reformas". Bastava soletrarem umas vezes a palavra reforma que passavam a heróis.
Quem conhece como se processam as aulas de substituição, só pode abanar a cabeça. Afirmar que essas aulas contribuem para a melhoria nas literacias do PISA é descomunal. Quando muito uma percentagem muito reduzida, que se deve circunscrever à efectividade da troca de aulas por parte de professores da mesma turma. E mesmo isso, só mais tarde se poderá referir como causa.
Da entrevista do Público ao chefe do governo:
"Mas os alunos com 15 anos não beneficiaram dessas medidas (leia-se, dos seus governos).
Isso é verdade, [outros] irão beneficiar."
O "irão (não o país) beneficiar" recomendaria humildade e contenção nos elogios às desastrosas políticas de 2006 a 2010. Mas há quem não tenha emenda.
Quem trabalha mesmo no sistema escolar tem de estar satisfeito com estes resultados e preocupado com as mudanças recentes, porque podem estar a comprometer os progressos que o PISA2009 indica.
Há três maneiras de não dizer a verdade: mentir, omitir ou apresentar estatísticas. Quem crê na terceira de forma efusiva é porque está aflito de argumentos.
Os resultados do PISA 2009 estão a percorrer o mundo mediático. Gostava de conhecer em detalhe a amostra portuguesa. As verificações, de três em três anos, realizadas neste milénio demonstram uma melhoria dos alunos portugueses, com uma estagnação ou recuo no período de 2003 a 2006.
Se tudo começa - sem se esgotar, claro - no pré-escolar e no primeiro ciclo, e nas condições socio-económicas, podemos suspeitar que as principais causas estão na última década do século passado, na composição das amostras e na estabilidade escolar conseguida em boa parte desta década, com a concretização de umas gotas de autonomia e de responsabilidade local (leia-se com atenção as conclusões do relatório PISA2009, e conclua-se da importância conferida à autonomia e à responsabilidade local).
O chefe do governo empenhou-se para retirar o poder democrático à escola pública e para reforçar a centralização do poder. Aconteceu em 2009, ano da realização da última verificação PISA. Ou seja, o poder democrático da escola não impediu que se verificasse a subida que pode ler no gráfico. Pode até ter contribuído. Como é que ficamos neste domínio?