“Poucos brasileiros são hoje entusiastas do Estado democrático”
É a principal notícia da primeira página da edição impressa do Expresso.

Já não consigo ouvir os repetidores da urgência das "reformas estruturais". Foram tantos os reformadores que o Estado ficou sem norte. Quem os ouve, até julga que aterraram ontem. No caso das escolas, que conheço melhor e que foram alvo de reformas do outro mundo, só não caem em calamidade visível porque a natureza é outra e a mediatização também. Aliás, se em vez de autarquias tentadas a "gerirem" empresas, escolas, hospitais e tribunais, elegêssemos autarcas com competências, responsabilidades e instrumentos para a gestão do território, talvez a agenda mediática não desolasse tanto. É evidente que essa municipalização obedecia ao questionamento de uma qualquer, e poderosa, norma-travão-oligárquica que explica tragédias visíveis e um sem número de invisíveis.
Nota: as incontestáveis alterações do clima não explicam a desertificação do interior nem o abandono da floresta e da agricultura. Num momento destes, seria bom que os protagonistas políticos olhassem para a história das suas organizações.

PATRÍCIA DE MELO MOREIRA / AFP / GETTY IMAGES
É tal a vaga de repetições, que nem as tragédias escapam. Só as vidas singulares ceifadas pelas chamas é que contrariam a tendência. Incêndios e horror preenchem o imaginário. Dá ideia que, nos dias quentes, Portugal não é um país fiável para circular. Aos "eternos" problemas organizacionais, somam-se as alterações no clima. No rol de acusações sobressai a antiga, e fundamentada, desconfiança nos serviços de Protecção Civil que mergulharam na rotação de "boys&girls".
Adenda para duas perplexidades: Miguel S. Tavares, no telejornal da SIC, repetiu um dos seus pogrom´s preferidos: "mesmo depois de Pedrógão, o Governo gastou 90% do tempo para o OE2018 a discutir aumentos dos funcionários públicos e de incêndios nada".
Ouvi, depois e com fundamento, a possibilidade de uma onda terrorista (sim, terrorista) provocadora de incêndios em paralelo com outra onda: queimadas em série porque já se anunciava chuva.
Apesar da ubiquidade dos media, uma pessoa lá se afasta umas semanas do turbilhão na esperança de que a distância e o silêncio aumentem o grau de inteligibilidade. Contudo, o regresso continua a trazer perplexidades. Não tanto o tragicómico Trump - só a sua aparição no ecrã põe o mundo a rir para embaraço norte-americano - mas principalmente o terrorismo, as mortes e as tragédias lusitanas. Por cá, os fenómenos mortais são provocados por incêndios - pela incapacidade, com décadas, dos poderes políticos (central, regional e local) em cuidar de valores preciosos como a organização e a gestão do território (para cúmulo, a plateia substituiu os culpados: dos pirómanos da aldeia passou-se para a máfia organizada) - e pela queda de um carvalho. Não se belisque. Foi mesmo isso. Sim, uma árvore caiu e matou mais de uma dezena de pessoas e deixou umas cinco dezenas de feridos. E não se pense que aconteceu numa área vastíssima ou por acção de um tufão. Foi numa ilha (741 km²) tutelada pelos Governos central e regional. No caso (um parque), havia ainda a supervisão de uma Câmara Municipal, de uma Junta de Freguesia e de uma instituição religiosa; será o ministério público a apurar "a eventual responsabilidade". E, ao que consta, o dia esteve solarengo e sem vento e há muito que os avisos técnicos alvitraram a possibilidade da queda: a árvore estava oca. E é isto. Afinal, sem novidades. Ninguém tinha a incumbência de zelar pela verticalidade e conteúdo das árvores de grande porte. É um sossego, realmente.
2ª edição
algures no Oeste de Portugal continental
dia de praia perfeito
Agosto de 2017
Apesar da ubiquidade dos media, uma pessoa lá consegue afastar-se umas semanas do turbilhão na esperança que a distância e o silêncio aumentem o grau de inteligibilidade. Contudo, o regresso continua a trazer perplexidades. Não tanto o tragicómico Trump - só a sua aparição no ecrã põe o mundo a rir para embaraço norte-americano - mas principalmente o terrorismo, as mortes e as tragédias lusitanas. Por cá, os fenómenos mortais são provocados por incêndios - pela incapacidade, com décadas, dos poderes políticos (central, regional e local) em cuidar de valores preciosos como a organização e a gestão do território (para cúmulo, a plateia substituiu os culpados: dos pirómanos da aldeia passou-se para a máfia organizada) - e pela queda de um carvalho. Não se belisque. Foi mesmo isso. Sim, uma árvore caiu e matou mais de uma dezena de pessoas e deixou umas cinco centenas de feridos. E não se pense que aconteceu numa área vastíssima ou por acção de um tufão. Foi numa ilha (741 km²) tutelada pelos Governos central e regional. No caso (um parque), havia ainda a supervisão de uma Câmara Municipal, de uma Junta de Freguesia e de uma instituição religiosa; será o ministério público a apurar "a eventual responsabilidade". E, ao que consta, o dia esteve solarengo e sem vento e há muito que os avisos técnicos alvitraram a possibilidade da queda. E é isto. Afinal, sem novidades. Ninguém tinha a incumbência de zelar pela verticalidade das árvores de grande porte. É um sossego, realmente.
A mediatização à volta da lista com o número de mortos em Pedrógão Grande atingiu um qualquer grau abaixo de zero.
Tancos entrou também em pós-verdade e factos alternativos. Há militares detidos por corrupção em produtos alimentares ("num processo com meses"), mas não se relacionará com Tancos. Pode dar jeito, pode ser pós-moderno, mas é precipitada a relação. Há uns anos que "privados fazem segurança a instalações das forças armadas" (os neoliberais proletarizaram os serviços públicos e agora rasgam as vestes de indignação com a sua ineficácia), mas isso não se relacionará com Tancos. Tancos relacionar-se-á "com assaltos recentes e semelhantes em França e na Alemanha". É uma relação grave numa intolerável insegurança. Se acrescentarmos a silly season e o estado da oposição, o observador registará a chegada do "trumpismo" e omitirá o facto alternativo da "fusão ibérica da EDP". Um neoliberal suspirava: Tancos à vista.
As PPP's desenhadas pelas "elites" em associação com o lado-tóxico-dos-partidos foram trágicas e ponto final. Não me surpreendem os seus defensores habituais, nem a recente dissertação de Passos Coelho sobre "a teoria mercantil do eucalipto"; neste caso, espanta-me que tenha sido PM. O que também sempre me espanta é o fanatismo dos 99% de peões. Mal intuíram o fim do luto oficioso em Pedrógão, começaram a contenda para sossego de uma qualquer minoria.

Confirma-se: "pessoas cercadas pelo fogo e sem assistência devido a falhas do SIRESP", uma das PPP´s (esta com BPN, BES, PT e CGD) que as associadas, "elites" e lado-tóxico-dos-partidos, usaram na delapidação do Estado.
As associadas impacientaram-se com a tragédia. Um "Miguel de Vasconcelos", com o pseudónimo Sebastião Pereira, apressou-se na crítica ao Governo. Usou o "El Mundo" para gáudio da direita ibérica mais extremada. Por muito que custe, há poucas organizações sem telhados de vidro na lógica do fanatismo. E ainda ontem o diabo deu sinal de si. Bastou um microfone para o desrespeito pelo elementar silêncio perante a dor. É: a tragédia de Pedrógão Grande tem demasiados ângulos muito lamentáveis.

"Muitos pedidos de ajuda não tiveram seguimento devido a falhas nas comunicações".
Paulo Pimenta. Público.
neste Horto de incêndios,
onde chamas ceifam vidas,
não há fogo no coração dos homens,
que não se cansam de chamar a guerra.
Imagem de Rui Duarte Silva
Expresso

Quem passa pelo blogue há mais tempo sabe que considero o conjunto de poderosas aplicações do Microsoft Office (pode ler os posts neste etiqueta) como inaptas para a gestão de informação em redes, seja numa escola ou noutra instituição. Advogo até a proibição.
O que não imaginava é que o FMI baseava as decisões que influenciam a vida milhões de pessoas no Excel. Bem sei que há decisores como o presidente do Eurogrupo (que está em sintonia com o FMI e com as políticas austeritaristas) que declaram mestrados falsos, mas numa Faculdade de Economia portuguesa os alunos já fazem a parte empírica dos mestrados com o SPSS. Pelo que se percebe, na celebrada Harvard produzem-se altos estudos mundiais estatísticos em Excel.
Mas a tragicomédia baseia-se num bug do excel que está a fazer correr muita tinta (pode ler aqui o arstechnica onde recolhi a imagem ou o JN). Há um erro na fórmula que sustenta as políticas de austeridade que têm arruinado as economias. O assunto é mesmo grave.
Como se vê na imagem, a fórmula para calcular a média inclui as linhas 30 a 49 da coluna L, mas a operação só considera as linhas 30 a 44. O que faz toda a diferença e nos leva a imaginar a competência das restantes decisões.
Apanhei este tragicómico vídeo no blogue do Paulo Guinote.
Soares dos Santos, presidente do Grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce), afirma que quem ganha 500 euros não tem vontade de trabalhar e acrescenta que é violentamente contra os salários baixos praticados nas empresas portuguesas. Nesta matéria contradiz o seu consultor António Borges que, por sua vez, também consulta as privatizações.
Há um mês, se tanto, vi uma entrevista a Soares dos Santos em que relatou algumas dificuldades na entrada do seu grupo na Colômbia porque os quadros colombianos seleccionados não se apresentavam. Indagou o fenómeno e percebeu a causa que até lhe agradou: estes sul-americanos estão habituados a que a sua vida privada seja previamente devassada para que as empresas confiem em que vão contratar.
Ainda a propósito da Colômbia, tenho registado que é daí que vem o único interessado na TAP.
Embora não seja dado a teorias da conspiração, e associando os factos que relatei, fico com a sensação que António Borges usou nos últimos dias uma espécie de rota que, e como se vê na imagem, pode ter passado pelo célebre triângulo nas viagens entre Portugal e a Colômbia e que talvez não tenha agradado ao dono do Pingo Doce.
Será apenas, e também, a célebre questão que relaciona quatro categorias: oportunidade, negócio, o-que-hoje-é-verdade-amanhã-é-mentira e tudo-é-descartável.
Quem acompanha este blogue sabe da preocupação em não expôr adversidades que atingem pessoas nem relacioná-las com a desregulação do que existe. Os posts sobre as agressões a professores ou alunos, escutam sempre a memória mais atenta para se tentar perceber se a anormalidade não está integrada na mancha maior da curva de Gauss.
É rara a semana onde um professor não exerce um qualquer grito inaudível, mas a amálgama que tem desenhado o sistema escolar está entretida com a falência não anunciada. Dá ideia que quanto mais grave for o disparate dos "reformadores", mais "alta" será a recompensa.
Chocou-me saber que duas professores de biologia numa secundária de Coimbra, uma de 47 e outra de 49, puseram termo à vida. É uma estranha coincidência. Pelo que pude ler, e foi a primeira vez que tive conhecimento do assunto, há uma qualquer relação com o ambiente profissional que se vive nas escolas portuguesas.
Fica neste post uma sentida homenagem, já que o silêncio parece ensurdecedor.