"“Horários e burocracias”: Marcelo diz que vida de professor “é uma odisseia”", mas nos momentos chave tem privilegiado o silêncio ou uma acção não favorável às causas, onde se incluem horários e burocracias, dos professores.
"“Horários e burocracias”: Marcelo diz que vida de professor “é uma odisseia”", mas nos momentos chave tem privilegiado o silêncio ou uma acção não favorável às causas, onde se incluem horários e burocracias, dos professores.
Ouvi, há pouco na TSF, um debate entre deputados. Um voz feminina, representando o Governo, foi taxativa na acusação de populismo mal sucedido na derrota eleitoral do PSD. E qual foi a causa? Professores. Na sua opinião, foi inadmissível que o PSD assinasse na especialidade o pagamento "de todos os retroactivos dos professores". O que é inadmissível, é uma deputada da nação desinformar.
Passos Coelho, o gerente, disse "que promete estudar a redução da carga burocrática dos professores". Este indivíduo é mesmo atrevido. Isto é o cúmulo do nacional faz-de-conta. O que importa é fingir. O actual primeiro-ministro recorda-me um "gerente". Está ali para gerir de acordo com os ditames e sem pensar muito. Em época de campanha tem direito ao atrevimento. Se se der o caso de surpreender positivamente os "patrões", indo além das receitas mais temerosas, espera-se um mútuo esfregar de mãos e uma aflita interrogação: até quando?
Impressionou-me o fanatismo contra Sampaio da Nóvoa. As redes sociais inundaram-se de inquisidores.
O texto que pode ler, de Isabel do Carmo, explica como Sampaio da Nóvoa fez o que lhe era possível para que Saldanha Sanches não passasse pelo crivo medieval da bola preta.
Destaquei um parágrafo para a imagem. Recorda uma teia de situações análogas que tomaram conta da democracia.
Mas o melhor é ler aqui a crónica toda e que colo a seguir:
"Li no DN de 9 de abril de 2015 uma coluna de opinião de João Taborda da Gama, de elogio de Saldanha Sanches, com o título "Sampaio da Nóvoa Presidente", a que passo a responder.
A questão das provas de agregação do Saldanha Sanches, aí referidas, toca-me particularmente, visto que fiz provas alguns dias depois, envolvidas em idêntica turbulência.
A lei que protocolava a realização das provas datava do regime da ditadura, assinada ainda por Américo Tomás. A votação consistia na escolha de uma bola preta ou de uma bola branca por cada membro do júri e depois procedia-se à contagem. O que estava legislado e era escrupulosamente cumprido era que a votação fosse anónima, em urna fechada. Cada catedrático ia escolher sob as longas mangas da beca uma bola preta ou branca num recipiente onde estavam misturadas e depois colocava-a na urna. Esta cena medieval passada à porta fechada do conselho da faculdade dava lugar a todos os maus instintos, cobardias, vinganças pessoais e sobretudo políticas. E, naturalmente, a um grande stress dos candidatos. Finalmente abriam-se as portas e era anunciado o resultado. Poder absoluto e anónimo. Sampaio da Nóvoa, enquanto reitor, manifestou-se várias vezes contra esta lei, o que aliás deixou escrito em ata. Finalmente, por influência da sua orientação e por vontade de Mariano Gago, a lei foi abolida e substituída por outra, em que a votação deixou de ser anónima.
Ora acontece que, quando a nova lei foi publicada, já as nossas provas, a minha, a do Saldanha Sanches e a de um colega da Faculdade de Ciências, tinham data marcada. Todavia, na publicação da nova lei estava escrito que só 15 dias depois passava a ser aplicada. Prevendo por razões óbvias o que se poderia passar comigo e com o Saldanha Sanches, o reitor Sampaio da Nóvoa telefonou--me, telefonou ao presidente do Conselho Científico da FML, telefonou ao Saldanha Sanches e chamou-nos, facultando a possibilidade de requerermos um adiamento para datas posteriores à aplicação da lei. Sou testemunha de que tivemos essa possibilidade, mas nem eu nem o Saldanha Sanches quisemos. Criaturas que gostam do risco... Saldanha Sanches chumbou. O júri dele foi presidido na Faculdade de Direito pelo reitor Sampaio da Nóvoa, o qual não podia votar. O que se passou na discussão dentro do conselho ninguém sabe, ninguém pode saber, mas os que lá estavam sabem com certeza. Perante isto Sampaio da Nóvoa voltou a telefonar-me, mas eu insisti em ir a provas nessa data. Ele resolveu então ir assistir às minhas provas "à paisana", para testemunhar.
Eu passei, mas as bolas pretas foram muitas e eu sofri um grande stress, que nunca esquecerei. Houve catedráticos que há anos não punham os pés na faculdade e que foram lá só para pôr... a bola preta, claro. Durante as provas um dos catedráticos arguentes virou-se para o reitor, que estava entre o público, e disse "eu não sei se o senhor reitor está aí por causa da candidata se é para me ver a mim". Tal como aconteceu a colegas de todas as faculdades, que me precederam ao longo dos anos, foi impossível não passar a desconfiar de algumas pessoas autoras de eventuais bolas pretas."
Em 3 de Junho de 2011 escrevi um texto, que se chamou "O medo como herança", que tem motivos para se repetir nos tempos que se aproximam. Por vezes, e em eleições e por muito construtivo que se queira ser, o mais importante é que seja derrotado quem governa. Para além da burocracia que paralisa, acrescentou-se uma "irreparável" destruição criadora como corporização de um fanatismo para além da troika que está presente desde o início. É mesmo isso que se pode acentuar se a actual maioria continuar a governar e basta recuperar o tal de guião da reforma do Estado que voltará à agenda com as mesmas e comprovadas falácias; na Educação será mesmo conclusivo.
"Não sei se o caso France Telecom foi consciente. Não tenho dados para o veredicto. Do mesmo modo, permito-me dar lugar aos que especulam que o que se viveu em Portugal nos últimos anos foi de premeditação inconsciente embora com resultados igualmente desastrosos. O que mais me impressionou neste período, e que me oxigenou a não desistência, foi a generalização do medo. O pavor de existir é a mais nefasta herança desta governação.
A má burocracia corporizada em amontoados de grelhas anula o indivíduo e o seu inatismo cooperativo e gregário. Institucionaliza o formulário com campos sem fim e em que o erro num deles pode sentenciar a reprovação, a vergonha e a imobilidade na progressão na carreira. Sobrecarregar o indivíduo com burocracia associada a uma pirâmide clientelar e preenchida por uma ficção em forma de ferro, venera a bajulação, exclui a dignidade e impede qualquer veleidade à inovação, à inteligência e ao primeiro atributo do conhecimento da razão: a liberdade. É a pensar nessa liberdade que votarei e na esperança de fechar este trágico capítulo."
O caso Tecnoforma, a ser verdade, é grave e pode ser apenas um efeito do já raro jornalismo de investigação. Mas quando há dias escrevi que a mediatização do caso Passos-Tecnoforma-1999 seria uma forma de desviar a atenção, não retirei peso ao assunto. O facto de se pegar num caso prescrito é que me pareceu o spin habitual. Nesta altura, a coisa parece que tem sinergias com as primárias do PS. Ou seja, depois dessas eleições já existe alternativa de Governo?
E eis que o Governo, e a sua maioria, metem na gaveta o discurso empreendedor e descomplexado competitivo e anunciam a reparação do injusto sofrimento que causaram aos funcionários públicos. O povo está boquiaberto com a epifania em jeito da enésima guinada semanal. Mas já se sabe: estamos em campanha e, depois dos votozinhos, lá virá um Governo desconhecedor, coitado, das contas do país. Abrirá a gaveta e os do costume voltarão a ser os "parasitas" que alimentam a divisão lusitana e o gáudio do lumpen.
A sociedade portuguesa confronta-se com um fenómeno: as denominadas "campanhas negras" contra pessoas promovidas pelos grandes partidos - mais o PSD na crónica de VPV - que usam os tais voluntários jotinhas (alguns bem entradotes) a quem é prometido, e concretizado, um emprego no Estado ou nas instituições que a este se encostam. É só ver a lista das entidades que ficam imunes aos cortes a eito ou que vêem o financiamento reforçado, como os gabinetes ministeriais.
O fenómeno usa principalmente as redes sociais e alastrou-se ao âmbito local. As pessoas visadas são muitas vezes surpreendidas com o bullying das páginas falsas do facebook neste submundo da natureza humana. A crónica de hoje de Vasco Pulido Valente no Público levanta um pouco do véu, embora a sua conclusão seja muito discutível.
Há anos a fio que se ouve a retórica: as eleições autárquicas são locais, os partidos políticos passam para plano secundário e o que conta são as pessoas. Testemunhei o argumentário ao longo dos anos e sempre desconfiei desses atributos sedutores. É natural a componente local dos partidos, mas a clareza de propósitos é essencial para respeitar a inteligência dos eleitores.
Se escutarmos os chefes dos "partidos parlamentares" e a comunicação mainstream, verificamos que as eleições locais são exames para as lideranças nacionais e até para os governos. Há toda uma contabilidade centralista dos votos que vai muito para além da necessária articulação entre as políticas nos diversos patamares da administração do país. O jeito oportunista acentua, ou não, o critério.
Passos Coelho e António Seguro não escapam a esse desafio e isso condiciona o modo como os seus partidos se organizam. Não registo a existência do CDS. Mas os partidos de fora do "arco do poder" não dão exemplo melhor. O bloco de esquerda debate-se com a falta de quadros locais e recorre a uma espécie de "mini-dinossáurios-saltitantes". O PCP afirma o centralismo democrático, como ouvi há dias a Jerónimo de Sousa: "nas autárquicas vamos mostrar um cartão amarelo ao Governo".
Os movimentos independentes surgem, naturalmente, como uma resposta da democracia e com nuances para todos os gostos e feitios. Alguns revelam, também naturalmente, contornos irresponsáveis e até risíveis.
Um bom barómetro do estado do poder local é a generalização de orçamentos participativos. Quando os órgãos existentes não ouvem mesmo as pessoas e não têm cultura organizacional para resolverem os problemas, "passam" as responsabilidades. Essa espécie de populismo costuma ter maus resultados. O insucesso da ideia fragiliza a democracia representativa e abre a porta às ditaduras.
Ouvi na TSF a parte final discurso de José Seguro. Dizia o jornalista que já há uma atmosfera de regresso ao poder. Não sei se a aposta é na interrupção do tempo de legislatura, mas, e como sublinhou o desajeitado consenso implorado pelo indizível Cavaco Silva, a antecipação de eleições legislativas está há muito dependente do pé-dentro-pé-fora de Paulo Portas. É até impressionante como um pequeno partido que já foi anti-Europa-e-sei-lá-mais-o-quê e que tem fornecido inenarráveis quadros neste milénio para as acções governativas, o sistema escolar que o diga, adquire esta importância.
Como Seguro pediu uma maioria absoluta mas prometeu um Governo coligado, tudo indica que o almoço secreto que teve com Portas em Agosto de 2012 pode finalmente antecipar o tão desejado, e naturalmente unânime dentro do PS, regresso ao acesso directo ao orçamento de Estado. Dá ideia que Portas é um expert em fugas de informação que alimentem a sua condição de incontornável. São também estes incontornáveis exercícios, dos maiores e dos menores destas coligações, que nos empurraram para um perigoso estado de descredibilização da representação política.
A troika (e a malta para além dela) está hesitante como nunca se tinha visto. A incógnita substituiu a soberba ideológica e a indecisão tomou o lugar da decisão dura e sorridente. O medo vai mudando de sítio, como sempre acontece. Será do frio ou do 2 de Março? Sócrates caiu com o 15 de Setembro de 2011 e a troika (e a malta para além dela) não o ignora. É bom que intuam que as coisas acalmaram porque existiu a queda.
Está completamente fora do meu ideário manifestações inaceitáveis como a de ontem na Faculdade de Direito com um coelho enforcado. É, para além de tudo, mau gosto; muito mau gosto.
Tenho ideia que a vaga "que se lixe a troika" tem uma dimensão imensurável e é escusado encontrar "responsáveis". É tão despropositado e desconhecedor apontar estes ou aqueles, como considerar que o episódio grotesco do coelho foi uma conspiração da JSD que seguiu a sugestão de Marcelo Rebelo de Sousa para se "opor" à Grândola Vila Morena.
Qualquer que seja o veredicto, não é boa ideia inventar actos disparatados nem sequer convocar grupos para combaterem os adversários.
A comunicação social vai dizendo que a disputa no PS anda à volta da trágica herança dos governos chefiados por Sócrates. Como há muitos socráticos, mesmo que com disfarces de última hora, o jogo de sombras baralha as impressões. Há cenários diversos, mentes a fervilhar e riscos de ingovernabilidade.
O surgimento desta crise terá alguma relação com os 4 mil milhões da refundação? Quem está mais próximo da maioria que governa? São muitas as interrogações que se podem fazer.
Olhando a partir do sistema escolar, o PS tem sido falho em programas e em execução. A paixão de Guterres foi "traída" pelos megalómanos do eduquês e da má gestão financeira e o exercício de Sócrates assumiu o segundo passo neoliberal em Portugal (Barroso deu o primeiro) acompanhado de uma engenharia social importada do Chile e que mais parecia da velha Albânia.
Este enfraquecimento de António Seguro e António Costa lá terá os encantos que exigem uma última interrogação: ainda há quem aspire pelos regressos de Sócrates e Lurdes Rodrigues?
Pode ser que derrotem de vez a trágica herança socratista. Já o deviam ter feito, se é que têm mesmo outras políticas e convicções. Até António Costa parece demarcar-se das políticas de um Governo que "abandonou" cedo.
Talvez o CDS venha a desempenhar um papel decisivo no equilíbrio de forças do arco do poder e num qualquer curto prazo. A vigência do "acreditar" da actual maioria pode esfumar-se rapidamente.
Continuo sem perceber o que o actual PS pensa de diferente no sistema escolar. Ainda recentemente, e no caso relatório FMI, ouvi contestações fundamentadas e interessantes. Mas quando se tratar de construir, ainda não percebi o que se proporá de diferente da tragédia Lurdes Rodrigues. Ainda há dias comecei a ver um vídeo do parlamento com uma intervenção sobre o sistema escolar que mais parecia de 2008. Dizia-me recentemente um conhecedor militante socialista: "o aparelho ainda tem um pé no socratismo".
Passos Coelho mentiu na campanha eleitoral. Disse, por exemplo, que era um disparate falar-se em cortes nos subsídios e foi o que se viu. Fê-lo também em relação ao sistema escolar e cavalgou, a exemplo de Nuno Crato no plano inclinado, a onda de contestação que os professores a muito custo sustentaram.
A ideologia radical do actual Governo tem adeptos que não saem do mundo das ilusões. Da ilusão ao radicalismo vai um pequeno passo.
Quando se pensa no futuro, imaginam-se as alternativas. O PS deu hoje um sinal que espera por isso a curto prazo. A polémica sobre a ADSE parece dividir o partido da rosa. Já li especialistas a fazerem laudos ao sistema e outros, como Beleza e Correia de Campos, no sinal contrário. Não consigo situá-los em relação ao trágico legado de Sócrates no sistema escolar (que tem algumas semelhanças com o que se passa na saúde). O que intuo é que a citada herança demora a ser engavetada de vez. É uma teimosa ilusão que se assemelha à que sustenta a tragédia em curso.
Por vezes, e por mais que se evidenciam os efeitos, o fanatismo partidário e os interesses que o movem não permitem ver para além disso e constroem um desastroso cimento.
Daniel Kahneman (2011:39), "Pensar, Depressa e Devagar", Temas e Debates, Círculo de Leitores, Lisboa, tem uma explicação.